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Nas entrelinhas de Belchior

Há uma nuvem pairando o ar, que insiste em ficar. Mas eu não vou desistir. Haja o que houver, seguirei até o fim, antes de enlouquecer de vez.

“Tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro
Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro”

Sim, diria que essa crise pré-34 tem uma trilha sonora baseada no cearense que sumiu. Como ele descreve momentos de nossa vida genialmente!

Voltaremos

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Dia Zero

31 de agosto de 2016: por 61 votos a 20 no Senado vota a favor do impeachment da presidenta eleita Dilma. Perde em definitivo o cargo e assume seu vice, Temer.

31 de agosto de 1961: João Goulart retornava ao Brasil de uma viagem para a China, 6 dias depois do presidente Jânio Quadros renunciar ao cargo de presidente, numa manobra até hoje mal-explicada, mas que cheira muito a uma tentativa de golpe dele para permanecer no poder. Parte do Exército não apoiava que Jango, o vice, assumisse o cargo. Tentaram o golpe ali, não deu outra vez, como não havia dado em 1954 e 1955.

Jango acabou aceitando a solução parlamentarista, bem a contragosto, para evitar, segundo suas palavras, um derramamento de sangue. Acabou assumindo com plenos poderes o cargo somente em 1963 e pouco mais de um ano depois, foi deposto por um golpe de Estado.

Sim, foi G-O-L-P-E!

Assim como cheira a golpe “envergonhado” o que foi consumado hoje. Sim, pois tudo o que aconteceu hoje estava certo e sólido. O circo armado, as pessoas a interrogar a presidenta, os discursos demagógicos, paranoicos e macarthistas cheirando a naftalina, tudo isso era só pra confirmar o que estava previsto.

E não há como fugir da citação de Karl Marx, em O 18 Brumário de Luís Bonaparte, a respeito disso: “A História se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”.

Digo que é “envergonhado” pois o processo, feito em duas votações, primeiro cassou em definitivo o mandato da presidenta; mas o segundo, que definia sobre a cassação de seus direitos políticos por 8 anos, não obteve êxito. É um resultado diferente do primeiro impeachment ocorrido no Brasil em 1992, onde Collor além do mandato, teve seus direitos políticos suspensos. Significa que, em 2018, se quiser, Dilma poderá concorrer ao cargo que quiser. Já Temer, o vice que assume, ao que parece, enquadrado na Lei da Ficha Limpa, não poderá concorrer. Que belo paradoxo…

Teremos, em tese, agora pela frente, dois anos e quatro meses de governo Temer. E o que vem sendo feito por seu grupo desde que assumiu o poder me assusta. Muito. Me sinto nos anos 90 do século passado, quando eu e minha família (e muitas outras) passamos por vários apertos. E vendo a agenda de governo dos ministros indicados (só homens) e a velha subserviência aos EUA…

Não reconheço esse presidente, não me representa. E não me venham com esse papo de que eu ajudei a votar nele. Votei nela pelo projeto, não por causa dele e de seu partido oportunista de muito tempo. Aqui em Ijuí que o digam… mas acho melhor parar por aqui. Essa coisa toda me deprime, me faz ter náuseas de algumas pessoas. Mas também me faz ter orgulho da posição de alguns amigos e outras pessoas a quem pude manter uma boa relação.

Ah, o título é Dia Zero pois hoje é o dia desse novo tempo temerário. Amanhã é o Dia 1, e não só por ser 01 de setembro, mas o primeiro dia oficial dessa canalha no poder.

Que tenhamos força e garra para resistir ao que virá…

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Proteção

Uma das bandas brasileiras que tenho parado pra escutar novamente é a Plebe Rude, banda de Brasília que fez bastante sucesso nos anos 80. Me fazem refletir sobre algumas coisas atuais várias de suas letras.

Vamos tirar o pó deste blog para 2016. Acho que vou ter mais tempo para isso esse ano…

Proteção

Será verdade, será que não
nada do que posso falar
e tudo isso prá sua proteção
nada do que posso falar

A PM na rua, a guarda nacional
nosso medo suas armas, a coisa não tá mal
a instituição esta aí para a nossa proteção

Pra sua proteção

Tanques lá fora, exército de plantão
apontados aqui pro interior
e tudo isso para sua proteção
pro governo poder se impor

A PM na rua, nosso medo de viver
um consolo é que eles vão me proteger
a unica pergunta é: me proteger do que?

Sou uma minoria mas pelo menos falo o que quero apesar da repressão

Tropas de choque, PM’s armados
mantêm o povo no seu lugar
Mas logo é preso, ideologias marcadas
se alguém quiser se rebelar

Oposição reprimida, radicais calados
toda a angustia do povo é silenciada
Tudo pra manter a boa imagem do Estado!

Sou uma minoria mas pelo menos falo o que quero apesar da repressão

Armas polidas, os canos se esquentam
esperando a sua função
exército bravo e o governo lamenta
que o povo aprendeu a dizer não

Até quando o Brasil vai poder suportar?
Código penal não deixa o povo rebelar
Autarquia baseados em armas não dá
E tudo isso é para a sua segurança

Para a sua segurança

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Novembro

E o ano de 2015 vem se aproximando do final.

E normalmente é neste mês que as coisas entram num ritmo um pouco mais forte para depois em dezembro começar a acalmar e chegar as festas de fim de ano de uma forma mais tranquila. Se bem que neste fim de ano, vou trabalhar até início do ano que vem, até primeira ordem, devido aos dias paralisados e de greves. Faz parte…

O ano tem sido bem inconstante para mim, mas melhor do que os outros, eu sigo na eterna busca pelo equilíbrio mental nessa reta final, as atividades lentamente começam a diminuir por um lado e por outro surgem outras que ainda requerem um pouco mais de atenção.

Sim, eu já estou planejando 2016, estou com algumas ideias em mente no campo profissional, para que elas não atrapalhem tanto no meu campo pessoal, pois esse ano a luta foi para buscar um meio-termo entre esses dois níveis. Isso acarretará, muito provável, redução de receitas, mas penso que por um lado é um tempo a mais que ganho em outra ponta e assim poderei realizar outros projetos paralelos.

Ontem realizei um concurso para o município de Ijuí. Achei a prova muito mal feita, talvez a prova mais mal feita que eu já tenha visto. A entidade organizadora, a qual realizei minha formação acadêmica, deixou muito a desejar. E depois querem trazer o curso de Medicina…

Essa semana vem um desafio que a gente não gosta, mas que deve ser feito: início de despedidas de turmas. Última semana de aula com Terceiros anos de uma das escolas em que trabalho. E muitos dos alunos que me encontrarei em sala essa semana são meus alunos desde a 6a série, praticamente, outros entraram posteriormente a isso, mas consegui fazer um vínculo muito legal com a grande maioria deles. Isso é da vida, a gente sabe, ciclos terminam, outros começam, acho que esse ano foi legal nesse ponto, mesmo eu não estando tão presente com eles durante esse ano, mesmo assim, foi um ano bem legal, ontem à tarde mostrou isso.

Bora!

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Peneira

Bom, hoje é 10 de setembro. Estamos no mês do Carnaval no RS.

E o que mais se fala é nessa merda toda que anda ser servidor do Estado com salário parcelado. No último dia 31, 600 pila na conta e amanhã, mais 800. E diz que dia 15 entra mais 1400 (pra mim não chega nisso, mas completa o restante do salário).

As escolas públicas estaduais na cidade, na maioria, de greve parcial ou total. Sempre tem aqueles que por suas razões, eu concordando ou não, estão em sala. Eu estou em greve numa escola, na outra, meio que não pude parar… motivos… deixa pra lá.

Teve feriado, fiz uma viagem a Posadas de carro, quase fico por lá, ainda bem que os problemas ocorreram onde poderiam acontecer, a tal da coisa que dá errado na hora e lugar certo. Tudo resolvido, mais uma despesa inesperada pra pagar, mas como digo, só uma coisa não se tem jeito na vida, vocês sabem qual é…

Tem horas que desanima, que dá vontade de mandar tudo pro espaço. Só que não funciona, viver sempre tem empecilhos, mas no fim tudo de resolve…

Seguimos

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Analisando as questões de História dos PS 1 e 2 da UFSM 2013

Caramba, quase 14 meses sem postar nada neste blog. 14 meses não é o tempo que o Seu Madruga ficou devendo aluguel pro Seu Barriga?

Não importa, o importante é voltar a postar, aconteceu tanta coisa neste tempo, em breve prometo adicionar mais conteúdos por aqui.

O que tenho para ressuscitar este blog é uma análise que fiz sobre as Provas Seriadas 1 e 2 da UFSM deste ano, que foram realizadas no último final de semana. Neste ano trabalhei como professor no cursinho preparatório para estas provas no CEAP, com 1° e 2° ano do Ensino Médio. Uma experiência nova, mas é sempre bom saber que existem pessoas que acreditam em nosso potencial.

Chega de papo, vamos às análises. Analisei as questões de História do PS1 e do PS2. As análises foram direcionadas aos meus alunos do cursinho, mas achei interessante compartilhar aqui também. Os números são referente à ordem como elas foram posicionadas nas provas.

PS1

Questão Nº 03: fez referência às antigas civilizações da América, alternativa correta B.

Comentei na primeira aula sobre as plantações em terraços dos incas, e exatamente na alternativa B fazia menção aos terraços.

Questão Nº 24: fez referência às Civilizações Orientais da Antiguidade, alternativa correta C.

Achei esta questão fácil, mesmo sendo de várias alternativas, vamos analisar cada uma delas: o item I fazia referência à civilização indiana, surgida nas margens do rio Indo. A parte que fala sobre sistema de esgoto, construções elevadas e ruas em ângulo reto, tornou a questão um pouco difícil. O item II se autoelimina, quando menciona a Pérsia como pertencente ao Crescente Fértil. O item III é muito ridículo ao colocar o Egito como império guerreiro: citei várias vezes que vários povos dominaram os egípcios ao longo de sua existência, de que só faltava o Brasil dominar o Egito… Já no item IV entra tudo aquilo que trabalhei sobre as heranças deixadas pelos povos pertencentes a estas civilizações.

Questão Nº 42: Grécia Antiga, alternativa correta A

Uma questão muito boa, bem elaborada, como diria um ex-professor meu de Matemática. Mas não tem como marcar correto, quando fazemos referência à Grécia, a alternativa C, que falava sobre questões agrárias: não haviam muitas terras disponíveis na Grécia para a agricultura. Então a ágora e a acrópole se complementavam no ponto de vista de um cidadão grego. P.S: não esqueçamos que cidadãos, na Grécia, eram somente os homens livres filhos de pai e mãe atenienses…

Questão Nº 43: Idade Média, alternativa correta C.

Aqui foi uma falha minha não ter mencionado o Império Mongol, fundado pelo mítico Gêngis Khan, o qual, com sua expansão ao longo dos séculos XIII a XIV, reativou a antiga Rota da Seda da China Antiga. Mas mencionei a vocês que o conteúdo do PS1 era extenso mesmo, que poderia faltar alguma matéria, e infelizmente aconteceu…

Questão Nº 44: Roma, alternativa correta D, itens III e IV.

Essa de marginalizar os demais deuses em detrimento de um só é brincadeira (item I)… no item II não tinha como ser correta, já que o cristianismo só vai se tornar religião oficial do Império Romano no final do século IV. No item III, como eu disse pra vocês, os romanos copiaram os deuses gregos, só trocando o nome deles… e no IV falava sobre a abóbada. Mas por critério de eliminação, vocês deveriam relacionar este item ao item III como correto nas alternativas que haviam para marcar.

PS2

Questão Nº 01: questão que considero como interdisciplinar, pois faz referência a Biologia, mas que na parte de História, fez referência a Revolução Industrial, alternativa correta A.

Comentei com vocês que à medida em que foi comprovada que a causa de muitas mortes na Europa no período da Revolução Industrial, especialmente na Inglaterra, era a falta de saneamento e a poluição dos rios. Poderia ser até a letra D a correta, mas o problema de saúde pública atingia a todas as classes sociais. A alternativa E, fala sobre o Estado de Bem-Estar Social, mas esta ideologia só surgiu depois da Crise de 1929.

Questão N°02: As imigrações que surgiram como consequência aos processos de unificação da Alemanha e da Itália, alternativa correta B.

Mão de obra branca e livre! Na última aula citei o mito do branqueamento da população, o caso brasileiro, onde disse a vocês que 80% da população brasileira era composta por negros. A alternativa A fala sobre guerras mundiais, mas elas iniciam no fim de 1914, então não tinha como ser correta. Na D fala sobre cercamento, mas isto era política inglesa no século XVIII. Poderia ser a E, por causa das crises de superprodução do século XIX, mas as condições de trabalho na América neste período eram semelhantes àquelas que existiam na Europa antes do surgimento dos movimentos operários.

Questão N°06: Colonização da América Espanhola, alternativa correta C.

Questão que considerei fácil, havia mostrado a vocês em uma aula o declínio da população na América e as causas dela. Poderiam ser todas as alternativas corretas, mas não há como marcar correto o item III, pois os índios astecas trabalhavam de forma compulsória para os espanhóis, como já trabalhavam para seus antigos líderes astecas. E falar de tráfico de escravos índios para a metrópole é “muito zoeira”…

Questão N°27: Expansão do território dos EUA no século XIX, alternativa B

Assunto que abordei na última aula do PS. Eu sei que não abordei esse fato do consumo de álcool pelos indígenas dos EUA, mas as outras alternativas desta questão soam ridículas, levando em conta eu ter dito a vocês sobre como os índios foram sendo sistematicamente exterminados nos EUA e o fato de que a cultura hollywoodiana, em seus filmes, sempre inverteu os papéis, colocando os índios como vilões, sendo que sabemos hoje ser verdadeiro o inverso…

Questão N°32: Revoltas no Brasil Colônia e no Período Regencial, alternativa correta D.

Na questão havia a referência às várias revoltas ocorridas nestes dois períodos da História do Brasil, mas as que contavam com a participação massiva nos negros eram a Conjuração Baiana (que inclusive também caiu no PS2 de 2012) e a Revolta dos Malês. Apesar desta não constar nos slides que passei a vocês, fiz menção dela na aula, disse que poderia ser provável que caísse algo sobre ela.

Questão N° 35: Imperialismo, alternativa correta B.

Questão um tanto difícil, na minha opinião, mas a UFSM sempre elabora este tipo de questão. Vocês têm de fazer associação que os dois textos possuem. O primeiro é bem fácil de mencionar a exploração dos trabalhadores; já o segundo mostra um relato de um fato ocorrido na África no período do imperialismo europeu.

Questão N° 37: Movimentos operários na Europa do século XIX, dentro do contexto da Revolução Industrial, alternativa correta C.

Uma questão que entra num processo de eliminação de alternativas, levando em conta que os trabalhadores, mesmo após a elaboração de algumas leis a seu favor, necessitavam continuar mobilizados para terem suas condições de trabalho ainda melhores.

 That’s all, folks!

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O massacre catalão e a decadência cada vez mais visível do futebol brasileiro

Cá estamos nós novamente, após um longo período de hibernação criativa…

Sim, encerrei o ano letivo essa semana, tenho ainda uma semana de trabalho e depois o retorno em fevereiro, mas sobre isso falo outra hora

Hoje pela manhã assisti a um verdadeiro massacre em 90 minutos de jogo, e todos vocês devem ter visto o mesmo: o Santos, clube brasileiro campeão da última Libertadores, levou um sonoro 4×0 do Barcelona, clube espanhol campeão da última Liga dos Campeões da Europa.

O primeiro tempo encerrado em 3×0, fora o baile, parecia uma dessas brincadeiras roda de bobinho, onde você tem que ficar com a bola e não deixar que o bobo retome ela. Já no segundo tempo, o Santos até tentou alguma coisa, quase chegando a marcar gol, mas acabou levando mais um e perdendo o jogo definitivamente.

Ver Neymar, jogador santista tão badalado aqui no Brasil, garoto propaganda de N marcas, admitir que hoje haviam aprendido a jogar bola, é o retrato mais fiel de quão bobos fomos levados pela “grande” mídia a crer que poderíamos ser páreo ao Barcelona…

O que colocarei aqui são alguns comentários postados no artigo do excelente (e um de meus ídolos do jornalismo) Flávio Gomes, intitulado “A lição do Japão”. Eu não colarei o artigo todo, mas vai o link aqui do lado: A Lição do Japão, por Flavio Gomes

Mas colarei aqui os comentários e os nomes(ou pseudônimos) de quem os citou, que são excelentes complementos ao seu artigo (perdoem-me se der algum erro no copiar-colar aqui, mas vocês entenderão o processo):

Emílio Baraçal disse:

R.I.P. FUTEBOL BRASILEIRO

Li e ouvi, logo após o embate (?) entre Santos e Barcelona neste último domingo que o Santos foi humilhado. Eu acho que ocorreu uma situação pior. O futebol brasileiro foi humilhado. Veja bem, o Santos é o atual melhor time do Brasil, tem os dois grandes craques do futebol brasileiro e é a atual pérola da América. Se o que temos de melhor toma uma goleada histórica dessas, fico muito triste pelo nível dos outros times brasileiros. Me chame de exagerado, me chame do que quiser, mas o dia 18/12/2011 ficou marcado na história como a morte do outrora glorioso futebol canarinho.

Essa sensação é algo que venho tendo desde a performance brasileira no mundial de 2006. Porém, eu ficava pensando que talvez fosse apenas uma leve impressão minha. E o Barcelona mostrou que não era. Olhando no Futstats e outros sites de números de partida, vemos algo monstruoso. O Barcelona teve 75% de posse de bola (o que significa um tempo e meio de jogo com a redonda nos pés) e mais da metade do time simplesmente não errou um único passe. Todos, sem excessão alguma, marcavam quando estavam nos raros momentos sem a bola. O Barcelona mostrou que, para ser um time vencedor basta, apenas, jogar futebol.

Falei besteira? Não, não falei e é nas entrelinhas que devemos prestar atenção. Enquanto jogadores brasileiros se preocupam em qual mulher-fruta irão pegar, em qual carro irão chegar a uma festa, em aumento de salários e planos de carreira, o jogador do Barcelona, qualquer um deles, faz o que tem que fazer: jogar. Isso é resultado da política ridícula que temos neste país. O Brasil, com sua mania de tomar mais do que dá, de não dar condições dignas de vida ao brasileiro, faz com que quase todo menino sonhe em jogar futebol para ser alguém na vida. Parece que é a única maneira honesta de vencer na vida dentro do país dos impostos. Isso cria um individualismo (como se o brasileiro já não fosse o suficiente) exacerbado em jovens que deveriam ter como noção primordial o fato de estarem em um esporte coletivo. E coletividade é um dos segredos do Barcelona. A partir do momento que até sua estrela vai ajudar o companheiro na marcação, podemos ter o talento que for em um time brasileiro, não será o suficiente.

O resultado de ontem mostra que falta tudo em nosso futebol atual. Não temos categoria de base. Os fundamentos não são treinados com a meninada. Pior: treinador de base que tenta é esculachado pelos empresários dos garotos, afinal, querem grana na mão o mais rápido possível. Não há tempo para fundamentos, o resultado precisa vir logo. Pura consequência da combinação dos clubes terem virado empresa e do futebol ter virado comércio. Tudo tem que ser pra ontem. E por que essa constatação? Simplesmente nove dos titulares do time catalão jogam juntos há quase vinte anos, desde moleques. Não é à toa que possuem um entrosamento praticamente extraterrestre. Há trinta anos que o Barcelona mudou a mentalidade de comprar jogadores para a mentalidade de investir (corretamente, não como aqui) nas categorias de base.

Faltam também dirigentes e não os fanfarrões que temos aqui, que se preocupam com o jogo da soberba na mídia, vendo quem troca as melhores acusações. Isso tem nome, queridos: infantilidade. Falam tanto de amor ao clube que ao invés de ficarem calados, trabalhando para que seu respectivo clube seja um rolo compressor, ficam se olhando no espelho e ajeitando o cabelo enquanto uma câmera é apontada para seus rostos.

Falta noção para a imprensa esportiva brasileira, que endeusa qualquer um que consegue um chapéu e um gol no ângulo. Isso também é fator para o deslumbramento das jovens “promessas”.

O Durval falhou no primeiro gol? Falhou. O esquema tático usado pelo Muricy foi (provavelmente) equivocado? Sim, mas (quase) ninguém tem culpa da performance do Peixe. Aconteceram outros problemas dentro e fora do campo? Com certeza. Essa apresentação é culpa do que o futebol brasileiro se tornou. Na época de ouro, não nos preocupávamos com dinheiro, puxa-saquismo, representar produtos na televisão, entre outras coisas. Nos preocupávamos em jogar bola. E foi assim que o Brasil se consolidou como o titã que era. Acusamos os argentinos de serem arrogantes, mas nós, usando das glórias de décadas atrás, nos julgávamos inalcançáveis. Só que o tempo foi passando e os estrangeiros foram aprendendo, aprendendo e aprendendo. E nós fomos relaxando. Aos poucos, a coisa toda mudou. Os sinais estavam aí. Não é de hoje que falam que atualmente não há mais cachorro morto no futebol. Os mexicanos aprenderam, os japoneses aprenderam, os africanos aprenderam e os europeus se superaram. Quem estacionou ao ficar se vangloriando de jogadas que não eram suas? O jogador atual do futebol brasileiro, que calcado nos feitos de Pelé, Tostão, Garrincha e outros, sobem no pedestal. Nós passamos décadas ensinando o futebol ao mundo. Vimos o mundo aprender e a demos tapinhas nas costas deles falando “Que gracinha!” enquanto ao invés de treinarmos, enchemos a cara em botecos e churrascadas regadas a muita cerveja, pagode e mulheres seminuas.

Particularmente, o time do Santos fez o que pode. Não teve culpa de encontrar pela frente um time com trabalho sério, ao contrário da postura dentro e fora de campo de qualquer time brasileiro. O que o Santos sofreu foi consequência dessa acomodação nefasta que tomou conta dos jogadores e das falcatruas dos cartolas de norte a sul do Brasil. Jogar contra um time que dá espaço é fácil ser craque. Difícil é jogar contra um time onde todos os jogadores ajudam uns aos outros como deveria ser em um esporte coletivo. Fácil ser valente e raçudo contra um Santo André. Ter a mesma postura sempre é que é difícil, como o Barcelona faz, que trata todo adversário igualmente é que é difícil. Fácil sobrar num campeonato (e ser apontado como revelação) cujo nível agora ficou evidentemente medíocre e começar a pedir aumento de salário e revisão de carreira, né? Difícil é grasnar diante de Messi, Xavi e companhia.

É, acho que tinha que ter levado o Pelé mesmo, o presidente estava certo. Descanse em paz, futebol brasileiro. Obrigado por tudo, foi bom enquanto durou, o último que apague a luz, por favor.

elipe disse:

Sobre o jogo e o contexto todo, algumas coisas que me chamaram a atenção:

1) Não precisa comprar meio mundo nem montar uma seleção internacional pra fazer time. O Barcelona entrou em campo com 9 jogadores formados na sua base, 8 deles espanhóis (exceção de Messi, que é argentino, mas mora lá desde guri. E o Thiago, ok, não nasceu na Espanha, mas futebolisticamente falando é espanhol – joga pela Espanha)

2) Claro que não basta pegar 9 guris da base e botar pra jogar. Tem um trabalho de formação, de filosofia, como dizem, e respaldo pra esses caras jogarem no time principal. Dá nisso que temos visto nos últimos anos.

3) Craque também marca e corre. Messi tá aí pra não me deixar mentir. Mão na cintura não existe, Ganso.

4) O Barcelona não faz concentração e ganha todos os títulos. Precisa de exemplo maior pra mostrar o quão inútil é a concentração quando se tem profissionais conscientes de seus deveres?

5) Vou discordar do Flávio em um ponto. O Barcelona faz faltas. Fez o mesmo número de faltas que o Santos, mesmo tendo o triplo de posse de bola. E faz faltas no meio-campo, pra matar contra-ataque e dar tempo de sua defesa se organizar. Faz parte da estratégia. O Santos só assistia o Barcelona jogar e pedia desculpas quando cometia falta. Os jogadores do Santos pareciam mais tietes dos barcelonistas que adversários.

6) O Santos nem foi pro jogo nem defendeu-se. Não sabia o que queria. Isso é fatal. O Inter de 2006 era pior que o Barcelona, mas sabia o que tinha que fazer: defender-se e sair no contra-ataque. Ganhou o jogo assim. Não é feio fazer isso, faz parte do jogo. Feio é tomar de 4×0, fora o baile.

7) Pela enésima vez, um time brasileiro ganha a Libertadores, passa o segundo semestre inteiro se arrastando, se “poupando”, chega no Mundial e perde (Grêmio/95, Cruzeiro/97, Vasco/98, Palmeiras/99, Inter/10, mesma coisa). Alguns até jogaram bem, como Grêmio, Vasco e Palmeiras, e perderam no detalhe ou porque jogaram contra timaços. Mas perderam. Em 92/93, o São Paulo disputou o Mundial em meio a jogos decisivos do Paulista e Brasileirão. Então, pergunto: pra que diabos ficar se poupando se isso não ajuda em nada?

Por enquanto, é isso. Num texto tão grande, não há como se concordar com todas as linhas, mas bela análise, Flávio.

Piloto de carrinho de supermercado disse:

Realmente, um massacre. O time do Barcelona parecia uma manada de elefantes maníacos, esmagando as formiginhas santistas, sem dó nem piedade. Fizeram de tudo para criar uma rivalidade Neymar x Messi, disseram que, apesar de o Barcelona ser melhor, o Santos tinha boas chances de vencê-lo, por causa do talento do Neymar e do Ganso, da inteligência e capacidade de improviso do Muricy… Puro marketing? Não sei se é exatamente assim. O marketing “levanta” a bola, mas tem que ter alguém para “cortá-la”… Hoje não teve. Seguindo mais ou menos a linha do que disse o Flavio Gomes no Twitter, o Neymar hoje deve ter acordado daquele conto de fadas criado nos últimos meses, de ser o melhor do mundo jogando no Brasil, de estar em uma equipe que faça frente a qualquer time do mundo, praticamente um novo Santos de Pelé…
Klaus disse:
Falou tudo. Infelizmente o ultimo PROFESSOR digno do nome foi o finado Telê Santana. Depois dele só essas estrovengas tipo o Muricy. Esse caboclo enfiou no traseiro duas libertadores pelo São Paulo e agora um mundial pelo Santos pelo mesmo motivo: ao invés de botar o time pra jogar pra valer, botou em campo uma galera pra perder de pouco. Aí é titulo pro ralo mesmo.
 disse:
“Neymar, coitado, ótimo jogador, virou marketing puro”
É o nível do mkt do futebol. Uma pesquisa básica na Paulista perguntando o que é BMG mostra que nem lá sabem o que é.
rgomes disse:

E ainda temos que aturar a midia nacional enganando os trouxas e falando que o campeonato brasileiro é o maior campeonato do mundo. Os jogos são sofriveis de assistir, com gols ridiculos em que mais de 90% são mais por falhas do que por virtudes. No ultimo brasileiro o campeão teve quase igualado o numero de pontos perdidos com o numero de pontos ganhos. A toda rodada o 1o. perdia do ultimo colocado.

Aí está o resultado. Passa vergonha. Há poucos dias foi mostrado na televisão como o Barcelona trata as suas divisões de base. Coisa séria e competente. Nada a ver com o que temos aqui.
Aqui fica um monte de moleque aprendendo a ser esperto, malandro e a midia enchendo a bola desses caras.

Alexandre Werner disse:

Ta certo Flavio. Mas eu acredito na premissa “Não há marketing que sustente um blefe”. O que os times brasileiros fazem está muito longe de ser marketing… É no máximo publicidade via exposição exaustiva na mídia.

O Marketing como ciência administrativa se preocupa com tudo, desde as categorias de base do time até o torcedor gordão sentado no sofá que quer ver futebol de verdade.
Qualquer filosofia diferente disso não é marketing, é fraude.

Francisco Libânio disse:

Vivemos um embate em nossa imprensa esportiva. De um lado os globolizados que vêem qualquer perna de pau brasileiro como melhor que os melhores do mundo e de outro os que colocam o futebol europeu nas alturas. De tudo, tiro três conclusões.

1) Muricy disse que bom mesmo é quem ganha o campeonato brasileiro que é equilibrado, tem vários candidatos ao título, blablablá. Lorota. O campeonato brasileiro é equilibrado, sim, mas nivelado por baixo uma vez que na primeira janela, times vendem seus “produtos” por qualquer três reais e ficamos com o restolho aqui. O Santos evoluiu nesse ponto mantendo Neymar e Ganso (esse mais por desinteresse dos outros que esforço próprio). De resto, os times brasileiros ficam com maus jogadores e, diante da mediocridade de quatro ou cinco , um tem que ganhar.

2) O futebol europeu é desnivelado. Espanha, Portugal tem dois times hiperfortes contra equipes de nível quase amador. Inglaterra, Alemanha e Itália tem três ou quatro, mas o desnível ainda é o mesmo. Seja como for, as poucas potências desses países seriam campeãs no Brasil, na Argentina, no Chile com a mesma facilidade que são em seus países. O contrário não aconteceria. O Corinthians campeão desse ano não seria campeão inglês nunca.

3) Europa não é sinonimo de organização. Lá como cá, técnico também roda com o humor do presidente, presidente também manda despoticamente. Fergussons na Europa são poucos.

Conclusão final – O Barcelona não é o que é porque é europeu ou porque joga contra galinhas mortas, mas porque é resultado de trabalho sério que começou há anos e só tende a evoluir. Seguindo essa receita, o Barça será campeão espanhol, europeu, mundial, intergaláctico e seria campeão brasileiro, da Libertadores, de Botsuana, de onde fosse. Que a lição que o Santos tomou hoje não fique apenas nas quatro linhas. Fora dela, muita coisa precisa ser aprendida.

Marcus Pequim disse:

Flávio, concordo com sua ideia geral. O Neymar falou que tivemos uma aula de futebol. bem, esta aula está toda semana nas telas da ESPN. espero que ele aprenda que não precisa chamar atenção pelo cabelo ridículo, por aparecer nas festas VIPS e, creio, que ele aprendeu que para ser jogador considerado de verdade, tem que jogar no exterior. (segundo o Cosme Rimoli e jornal inglês) ele já é do Barça. Agora, o Barça é muito superior mesmo à Europa. porém, há que se pensar que estes jogadores (maioria) jogam juntos desde as bases do Barça, daí o maravilhoso toque de bola, jogadas, etc. O Santos foi covarde, pequeno, principalmente no primeiro tempo, mas acho que nenhum time da América faria muito diferente.

Na verdade, acho que o time do Santos acreditava que o Barça só existia no video game…

—–

E se vocês não concordam com isso, vão comemorar gol imitando João Sorrisão, vão…

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