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A tragédia, a farsa e “a tragédia da farsa”

Tempos atrás, escrevi um texto em que usei uma frase do livro “O 18 Brumário de Luís Bonaparte”, de Karl Marx, creio que a mais conhecida dessa obra, logo no começo do livro: “A História se repete; a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa”. Mas confesso que, quando usei a frase em si, não tinha lido na íntegra todo o livro, tarefa que realizei durante minhas férias (apesar de terem sido um tanto quanto conturbadas, mas isso não é o assunto).

Levei uma semana para lê-lo, e entender o que Marx quis dizer com essa frase, levando em conta principalmente a História da França pós Napoleão. Há outros conceitos abordados no livro, como o famoso lumpen-proletariado, mas que não quero explicar aqui neste ensaio.

Ando analisando os movimentos políticos do Brasil desde muito tempo, venho percebendo que nós também tivemos nossos momentos de História se repetindo, e que estamos sob um sério risco de repetirmos novamente, por isso eu classifico tal como “a tragédia da farsa”.

Historicamente, nós sempre nos deparamos com personagens que, por possuírem certo carisma entre os seus, sempre apareceram como “salvadores da nação” (no caso, suas nações de origem ou próximas). Eu posso, tranquilamente, elencar alguns. Começo por Dom Sebastião I, jovem rei de Portugal que, durante uma batalha contra os mouros no Marrocos em 1578, faleceu e seu corpo jamais foi encontrado. Por não ter sido encontrado, criou-se entre a população mais carente de seu país a ideia de que um dia ele voltaria para salvar a nação. A gente chamou esse fenômeno de “sebastianismo” e tivemos aqui no Brasil, no fim do século XIX, um fenômeno enquadrado como tal, que foi o movimento liderado por Antônio Conselheiro.  Na França, o próprio Napoleão acabou surgindo como um salvador da pátria por liderar seus exércitos contra os inimigos externos da nação e acabou sendo apoiado pela burguesia a praticar o famoso Golpe do 18 Brumário (isso é assunto para outra pauta). E o exemplo mais recente que tivemos, na Itália e Alemanha do séc. XX com Mussolini e Hitler, respectivamente, dos quais temos centenas de publicações relatando os rumos que esses “salvadores” acabaram ocasionando em seus países.

Bem, mas vamos ao caso do Brasil, para que vocês entendam onde quero chegar com a tragédia, a farsa e a tragédia da farsa.

Em 1960, nosso país vivia o final do período JK, enfrentando sérias dificuldades financeiras e outras situações muito comuns a nosso país até hoje, como denúncias de corrupção. Nesse contexto, surge um candidato de um partido pequeno, com um discurso demagógico e moralista, no qual falava inclusive em “varrer a corrupção” do país, um salvador. Lembraram? Ele mesmo, Jânio Quadros. Se elegeu com uma votação esmagadora, assumiu tomando posições bastante contraditórias com seu discurso e, por não ter uma base política grande, acabou renunciando sete meses depois e o resultado disso tudo foi uma espiral de situações que culminaram com o Golpe Militar de 1964 e 21 anos de regime ditatorial. Essa eu classifico como a tragédia

29 anos depois, em 1989, nosso país passava por uma recente redemocratização, que veio acompanhada de uma série de dificuldades especialmente na área econômica, muito em reflexo do que os 21 anos de regime militar legaram. Nesse contexto, novamente um candidato de um partido pequeno, com um discurso demagógico e moralista, se apresentando como salvador, se elege presidente. Lembraram? Ele mesmo, Fernando Collor de Mello! E de forma semelhante a Jânio, toma uma série de medidas polêmicas, somadas a escândalos de corrupção e outras irregularidades, perde boa parte de sua base de apoio e acaba sofrendo um processo de impeachment e acaba saindo do cargo. Esse eu classifico como a farsa.

Pois bem, ano que vem é 2018, e estamos passando por situações socioeconômicas bem complicadas nesse instante e acredito estamos na possibilidade de, 29 anos novamente depois, colocarmos no poder um candidato de um partido pequeno com um discurso moralista e demagógico e se apresentando como salvador no poder. Isso que eu me refiro como a “tragédia da farsa”. Se vai acontecer? Bom, a figura em questão é muito de falar, mas pouco de fazer. Mas como quem muito fala e pouco faz, se achar que não terá condições de concorrer e para não perder a mamata que ocupa há pelo menos seis (!) mandatos consecutivos, pode ser que não venha, ou que seja tolhido da disputa por algo que se apresente como “novidade” no cenário eleitoral nacional.

Os nomes, se vocês que chegaram até aqui forem espertos o bastante, sacarão logo.

Loucura, loucura, loucura…

 

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História Regional da Infâmia

Fiz esse texto há 3 anos mas sempre fui meio receoso em publicar. Bom, enchi o saco de ver pessoas fazendo a manutenção de mentiras históricas… lá vai…

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Todo imaginário é real. Todo real é imaginário.

Sempre falo para meus alunos que a História não é uma ciência exata: aquilo que foi escrito por alguém há alguns anos atrás pode ser desconstruído futuramente por outro.

Mas existem assuntos que parecem intocáveis, que não podem ser mexidos, “Deus o livre” falar mal sobre este. O mais conhecido desses assuntos na História do Brasil é a Revolução Farroupilha, que durou de 1835 a 1845 no sul do país. Especialmente após a proclamação da República em 1889 e fortalecido com o Golpe Militar de 1964, o imaginário sobre este evento histórico se mantem, meio a fórceps, na mentalidade de muitos dos habitantes do RS.

Eu confesso que, quando mais jovem, antes de entrar para o curso de História (no primeiro ano do curso ainda mantive), fazia parte dessa “geleia ideológica” que envolvia esse assunto. Essa ideia do “orgulho gaúcho” e toda essa arrogância que muitos daqui possuem por terem nascido aqui e se acharem melhor que os outros por causa disso.

Mas eis que o tempo foi passando e fui tomando conhecimento de outros historiadores que começaram a desmistificar o que parecia “indesmitificável”, como Tau Golin, especialmente no seu “Manifesto contra o Tradicionalismo” (que pode ser encontrado na web facilmente) e em um livro didático intitulado “Nova História Crítica” (que por conter em um dos seus volumes críticas a Globo, foi execrado por um dos diretores desta, o nefasto Ali Kamel e foi escanteado na sutileza dos meios didáticos), especialmente quando dizia que Duque de Caxias só aceitou fazer acordo com os líderes do movimento por estes serem proprietários de terras e não negros pobres do Maranhão, como foi na Balaiada e que Caxias ordenou exterminar…

E eis que em 2010 o escritor e colunista do jornal Correio do Povo, Juremir Machado da Silva, após seis anos de pesquisa e consulta a 15 mil documentos lança o bombástico “História Regional da Infâmia: o destino dos negros farrapos e outras iniquidades brasileiras (ou como se produzem os imaginários)”.

Seria lógico que nos grandes meios de comunicação, especialmente nos ligados ao Grupo RBS, não mereceu uma linha sequer este assunto, afinal, quem mais coloca em evidência o assunto todo mês de setembro são eles. A consequência foi que muitos (inclusive eu) não ficaram sabendo da existência do livro, somente assistiu a um documentário na TVE sobre os negros de batalha de Porongos, onde o escritor dava seu ponto de vista e um historiador ligado ao MTG dava uma visão bem diferente sobre o assunto. Aliás, era visível o desconforto e a fúria deste último ao saber da opinião do Juremir Machado.

Bom, falando sobre o livro, eu havia lido as 30 páginas iniciais em um site. Mas a leitura dele é tão motivadora, tão fácil de compreender que acabei comprando a versão digital numa quarta-feira e na terça-feira seguinte terminei de ler. Pra resumi-lo um pouco pra vocês, ele desmistifica toda a Revolução Farroupilha, desde suas causas até sobre aqueles que o movimento endeusou ou condenou ao ostracismo. Além disso, compara o que outros pesquisadores escreveram sobre o assunto e as contradições que estes se colocavam ao argumentar, especialmente os defensores da Farroupilha.

No final, o autor cita outros fatos históricos brasileiros que mereceram uma parte muito elucidativa, como a Guerra do Paraguai, a Revolução Federalista de 1893-95 (que também ocorreu no RS e matou quase o triplo de gente que a Farroupilha, mas que é muito pouco divulgada nos livros didáticos), a Guerra de Canudos e a Revolta da Chibata.

Acredito que muitos que lerem este livro certamente irão odiá-lo e os motivos nem preciso dizer por quê…

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O significado das cores

2015-08-01 13.56.01

A gente vive um tempo bem esquisito. É um clima estranho, já mencionei isso anos atrás, mas parece que agora esse clima se acentuou, especialmente após a popularização das redes sociais, que serviu, mais do que qualquer outro meio, para revelar a(s) verdadeira(s) face(s) de algumas pessoas que eu julgava conhecer.

Ando numa rotina lotada, aulas em três turnos, essas coisas normais na vida de professor. E venho acompanhado um pouco de longe tudo o que vem acontecendo. Sabe quando você se torna uma pessoa muito conhecida e qualquer coisa que você opinar tem repercussão? Mais ou menos isso.

Ontem à tarde, um pouco mais aliviado de não ter entrado no grupo dos salários parcelados do “Sartorão da Massa Cheirosa”, fui ao mercado comprar algumas coisas. Ao procurar uma vaga pra estacionar, paro perto de um carro com o adesivo aí acima postado por mim.

“Meu país é verde e amarelo! Não é vermelho”

Isso é parte desse clima que ronda o ar, um ódio descabido associado a uma falta de informações precisas sobre os fatos.

Mas minha divagação sobre o adesivo em si é o fato de que muitas pessoas não se dão conta do significado da palavra “brasil”. Aquelas coisas de informações mal aplicadas pelos professores lá atrás, mas que ainda hoje vejo colegas que ainda saem com essa balela sobre as cores da nossa bandeira.

Bom, muitos não sabem, mas “brasil” é uma tonalidade de cor. Sim, cor brasil! Brasil, que vem de brasa, e vocês que fazem churrasco sabem que cor tem a brasa né? Sim, vermelho! Cor de brasa. Ou esqueceram das aulas sobre o pau-brasil? Que os portugueses vinham pra cá, faziam um escambo com os índios e levavam as toras pra usar o cerne de cor avermelhada como corante de tecidos. Ah, vocês lembraram agora?

Tá, mas por que nossa bandeira é verde amarela e não vermelha como o cara do adesivo acha?

Esqueçam aquela conversa que vocês tiveram na escola de que o verde é a floresta, o amarelo é o ouro, o azul é o céu e o branco são as estrelas. O pior é que tenho muitos colegas professores de História que ainda explicam desse modo…A real do verde e amarelo da nossa bandeira, a bem da verdade, vem das cores das duas casas reais que formaram o país, independente no ano de 1822. Sim, o Brasil como país só existe mesmo dessa data, antes disso éramos apenas um território colonial português.

O certo é que o verde da nossa bandeira é a cor da Casa de Bragança, família a qual pertencia Dom Pedro I. O losango amarelo representa a Casa dos Habsburgos, família de origem austríaca a qual pertencia Dona Leopoldina, a primeira esposa de Dom Pedro I (é um losango por representar uma mulher). Tá, mas e o azul e branco? Bueno, quando nos tornamos uma república, em 1889, decidiram manter o fundo verde e amarelo, e trocar o brasão imperial central por uma série de estrelas vistas no hemisfério sul e um lema positivista no centro, logicamente editado, pois o certo seria, baseado nos princípios de Comte, “Amor, Ordem e Progresso”. Vocês sabem o que está na nossa bandeira…

Tenho um colega, direitista esquizofrênico, que diz que esse papo das cores é coisa de marxista. Bom, pra ele qualquer coisa que não se enquadre no que ele pensa, é marxismo…

Fiz essa postagem pra ajudar alguns a entenderem o quanto a gente não sabe de muita coisa, nem eu sabia disso até pouco mais de 10 anos atrás…

E pra encerrar, não sou favorável a mexer na organização das cores de nossa bandeira, só acrescentaria no lema central, a palavra “amor” ao “ordem e progresso”. Que meigo ficaria, não? Mas acho que é o que realmente falta pra muita gente hoje… já diria aquela canção dos Beatles (banda que eu não curto muito): “All we need is love”…

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Ah, as pessoas…

Voltando aqui, como sempre digo, manter uma assiduidade nesse espaço é complicado, esse sábado poderia ter sido inspirado, mas me envolvi nos serviços aqui em casa, e aí não deu…

Mês de novembro iniciando e confesso estar ansioso pra que chegue logo dezembro, estou contando os dias pro encerramento das aulas, esse ano passou rápido (ah, todo mundo, quando chega por novembro, diz isso…) e logo vem Natal e Ano Novo.

Sei que ando de saco cheio de um monte de coisa, hipocrisia, falta de interesse, comodismo, pessoas que têm tudo e só sabem reclamar da vida. Vontade de mandar tomar naquele lugar não me falta, mas… é preciso cautela nas palavras, na maior parte do tempo, pra não ser mal-interpretado, pois já viu, quando tu não se torna incompreendido, sai da frente…

Eu não deveria me preocupar com o que as pessoas fazem, mas há vezes que me “contorço por dentro”. Mas vamos seguindo por aqui, minha intenção pra esse sábado à noite é compartilhar um texto com vocês, bem curto, mas bem direto, pra faze-los pensar um pouco no que fazem e pensam. Aliás, pensar não é algo que as pessoas andam fazendo muito ultimamente, tudo se deixam levar pela onda, muito maria-vai-com-as-outras…

Chega de papo, o texto é de Isaías Almada, intitulado “O inferno são os outros”

O inferno são os outros, por Isaías Almada

Segunda-feira: A Dra.Henriqueta acaba de atender a mais um de seus pacientes. Ela é pediatra e goza de prestígio na profissão. O paciente, um bebê de um ano de idade, deixa a sala no colo da mãe, que com expressão feliz prepara-se para pagar a consulta. “Quanto é?” pergunta a mãe. “A senhora vai precisar de nota?” dispara a secretária com seu ar profissional. “Vou” respondeu a mãe. “Com nota é setecentos reais e sem nota é quatrocentos e cinqüenta” “Nossa! E por quê essa diferença toda?” “É por causa do imposto de renda”… “Ah!”, exclamou a mãe.

Terça-feira: Reimilson é jornalista formado há pouco mais de três anos e conseguiu, até mais cedo do que pensava, trabalhar na redação de uma revista semanal, a Veja. Abriu uma ME em Cotia para pagar menos ISS nas notas fiscais que dava ao empregador pelo que recebia “oficialmente” como salário registrado em carteira. Recebia a diferença por fora.

Quarta-feira: dona Martha era separada do marido e tinha uma filha que se preparava para o vestibular. A pensão do marido não era suficiente para as despesas mensais. A filha ajudava com seu salário de secretária numa empresa de publicidade. Dona Martha, subsíndica do prédio em que morava, acertou com o porteiro fazer um “gato” para usar a internet do prédio sem que precisasse pagar a conta, uma economia de meio salário mínimo.

Quinta-feira: O senhor Robson Altamirano tornou-se comerciante no bairro do Brooklin, onde administra uma papelaria considerada a melhor da redondeza. Conseguiu montar dois esquemas em que tem dois tipos de notas fiscais para clientes que solicitam ou não a Nota Fiscal Paulista. Um deles, com a ajuda de um técnico, é acoplado à máquina registradora. O outro é na emissão de notas frias de um talonário que manda imprimir numa gráfica em Cotia.

Sexta-feira: Pedro é estudante universitário. Invariavelmente, a sexta à noite saía com amigos para uma cervejinha. Na última, já passada a meia-noite, foi surpreendido numa batida policial. Ligeiramente alcoolizado, lembrou-se do truque que aprendera com um dos colegas da faculdade: carregava sempre duas notas de cem reais junto aos documentos do carro. Não deu outra: o policial olhou para Pedro, olhou para o lado e, rápida e discretamente devolveu os documentos ao jovem. “O senhor pode ir embora”.

Domingo: Avenida Paulista, em frente ao Museu de Arte de São Paulo. Um grupo de pouco mais de quinhentas pessoas faz uma manifestação contra a corrupção no país. Cinco deles seguram uma faixa onde se lê: ABAIXO A CORRUPÇÃO NO GOVERNO. São eles exatamente a Dra. Henriqueta, o jornalista Reimilson, dona Martha, o comerciante Robson e o universitário Pedro.

E se combatêssemos também a hipocrisia, a ignorância e a má fé de milhares de cidadãos que repetem como papagaios muitas das mentiras espalhadas pela mídia venal e comprometida com o atraso?

Bom final de semana a todos

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Obsolescência Programada

TV de Plasma > TV de LCD > TV de LED > TV 3D

Tá, por que eu coloquei essa sequencia na introdução do texto que posto hoje, depois de tanto tempo?

Para lembra-los que, da TV de Plasma até a TV 3D, atual objeto de desejo de muita gente, especialmente da classe média, não se passaram mais do que 10 anos. Aí fico me questionando: o que virá depois da 3D? E quem gastou uma nota preta pra comprar a “moderna TV de Plasma” há 10 anos atrás (lembro que valia uns 6 mil a mais barata)?

Outro exemplo que posso citar aqui são os telefones celulares. Há no máximo 4 anos atrás, o ápice dos celulares era o Nokia N95. Hoje o “top top” é o iPhone, seja lá qual for sua versão (3G, 3GS, 4, 5 ou o escambal). Tá bom, eu tenho um N95, mas comprei usado, afinal, quando lançaram ele, era só um objeto de desejo, um preço astronômico na época de seu lançamento. Ele não deve nada pra muito celular mais moderno que existe hoje, mas já não é topo de linha…

Analisando os dois exemplos acima, pode-se chegar a uma conclusão interessante: vivemos a pleno vapor a era da Obsolescência Programada. Como assim? Simples, meus caros: tudo tem um tempo de vida útil, um tempo pré-estabelecido de existir, de ser o mais moderno, para depois vir outra versão um pouco melhorada e a primeira versão se tornar “ultrapassada, obsoleta, que tem que jogar fora”.

Mas aí surge a questão ambiental da coisa toda: onde vai parar todo esse equipamento que foi descartado por não ser mais “o mais moderno”? Claro que aí tem de se acrescentar a questão dos computadores também, mas isso vocês veem todo o tempo acontecendo. Enfim, o planeta já está bem saturado de tanto lixo. E tem a questão populacional. Já estamos ali assim para chegarmos aos 7 bilhões de habitantes. Haja planeta!

Saindo um pouco da questão tecnológica, antes que saia algo mais moderno que o notebook o qual estou usando para escrever esse post (mas já existe algo mais moderno: o netbook e o iPad. Ai meu Deus, preciso comprar um iPad urgente #ironiaOn), eu pulo para uma questão da obsolescência programada que também acho interessante: os sucessos musicais.

“Ih, lá vem o Italo criticar os hits do momento!” Ok, no momento são os hits, mas em no máximo 10 anos vocês nem vão lembrar dos hits, ou então pensarem: “Putamerda, eu ouvia essa porcaria e achava o máximo!”.

Dias atrás, num exercício de puxar da lembrança coisas que ouvia há 10 anos me veio dois exemplos que eram sucessos. Alguns lembrarão: P.O. Box, grupo pop brasileiro, que fez relativo sucesso, aparecia em tudo quanto era programa de TV dominical e depois sumiram. Outro exemplo, dessa vez estrangeiro: os Hanson, três irmãos cabeludos, loiros, dos EUA.

O primeiro exemplo tocava seguido nas rádios. Quem aqui lembra de “Papo de Jacaré”? Lembro até que assisti ao show desses caras em 2000, no Recreativo São-borjense, lembro do chão do clube tremendo de tanto a multidão que lotava o salão pular no início do show. E eu lá, bem contente da vida. Putz, como pude? Mas fazer o quê, era o que tinha pra se curtir na época… Que fim deu esse grupo?

Já o segundo exemplo, as “loirinhas cabeludas” dos Hanson. Seu mais famoso hit chamava-se Mmmbop (ou coisa parecida com isso): “Umba, dip dap dap diuba, dirapa diuba, dip dapa diu, yê yé”, dizia o refrão, mais ou menos assim (Estou explodindo de rir enquanto faço essa “tradução” do refrão). Que fim deu? Pelo que sei, parece que um ainda segue cantando, os outros dois irmãos casaram e são pais de família hoje em dia… Não, eu nunca gostei dos Hanson, só estou usando como exemplo mesmo…

Tá, mas o que isso tem a ver com o que está aí hoje? Hoje vejo fazendo sucesso entre algumas adolescentes 3 irmãos também dos EUA, os Jonas Brothers (algumas alunas minhas odiarão isso). Caso bem semelhante aos Hanson: três irmãos, fazem sucesso entre as adolescentes e depois somem, casam, tem filhos e nunca mais tu ouve falar nada. Eu enquadro, sem temor, de no máximo 10 anos acontecerá isso com eles também. E quando forem adultas, as meninas pensarão igualmente assim: “Putamerda, eu ouvia essa porcaria e achava o máximo!”. Sei, exercício de futurologia num sábado é meio esquisito, mas aguardem isso. Ou o que foi feito do KLB, 3 irmãos, filhos do empresário da dupla Zezé e Luciano? Viraram candidatos a cargos políticos pelo DEM… E aí? Como faz?

Dias atrás eu assistia a uma entrevista do cantor Byafra (“voar, voar, subir, subir”) no programa da Marília Gabriela, no GNT. E o cara coloca uma questão interessante que também dá para enquadrar dentro da obsolescência programada: as “ondas do momento” na música brasileira. Dizia ele que, depois da morte do Chacrinha (para os mais jovens. Chacrinha tinha um programa de auditório que trazia e lançava muita coisa boa que existia nos anos 80: Ultraje a Rigor, Garotos da Rua, Byafra, dentre outros cantores e grupos de sucesso nos 80), a homogeneidade da música brasileira, que o Chacrinha conseguia harmonizar no seu programa, foi pro espaço. E aí começaram as “ondas do momento” na música brasileira: axé, depois o sertanejo, depois o pagode, depois o funk pornô, depois o forró “universitário” e a onda do momento é o sertanejo “universitário” (o agrobrega). Ou seja, toca só um ritmo nas rádios o tempo todo, o povo enjoa, some, daí vem outra onda e a sequencia é a mesma: toca, enjoa, some e vem outra… O que virá depois do agrobrega? Tenho medo…

Eu poderia ficar o resto do dia divagando aqui sobre outras coisas que se enquadram na teoria da obsolescência programada, mas a fome apertou, e ainda tenho o resto do fim de semana pela frente. Espero ter contribuído para a reflexão de vocês.

Fraterno abraço.

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O Planeta das Baratas

Hoje, 11 de setembro de 2001 comemoram-se (segundo as palavras da ‘sábia’ Patrícia Poeta) os 10 anos dos atentados ao WTC e Pentágono, nos EUA.

Definitivamente, está um pé no saco a quantidade de notícias e documentários sobre os antecedentes, os atentados, e tudo o que possa se relacionar ao dito atentado.

Na boa, perto de tudo o que os EUA fizeram de mal para inúmeros povos da humanidade (e ainda o fazem, de diversas maneiras) 3.500 mortos (não tenho certeza exata do número total) é cócega perto dos mais de centenas de milhares de civis mortos por eles no Afeganistão e Iraque.

E para mim, mais marcante que o 11/09/2001 foi o 11/09/1973, quando o golpe de Estado orquestrado pela CIA e liderado pelo general Pinochet no Chile acabou com a morte do presidente eleito Salvador Allende. A versão de que Allende teria se suicidado dentro do Palácio La Moneda (confirmada recentemente por uma ‘autópsia’) não me convence. Lembro do filme “Chove sobre Santiago” onde mostrava Allende sendo alvejado por 4 tiros nas costas. Se eu me basear no filme, como alguém poderia se matar com 4 tiros e ainda mais nas costas…

Sobre o 11/9 dos EUA, deixo pra vocês o texto do Flavio Gomes, escrito na época dos atentados, intitulado “O Planeta das Baratas”, bem crítico a nós mesmos, humanidade e a nossa dificuldade em conviver harmoniosamente com as diferenças de todos os tipos que possuímos…

Aí vai:

O PLANETA DAS BARATAS

Sou um interessado observador de baratas. Elas são nojentas, asquerosas e purulentas, delas chego a ter medo, mas admiro sua agilidade e destemor diante de adversários tão hostis e bem maiores. Dizem que no dia em que o planeta se dizimar de vez numa nuvem radiativa, só vão sobrar as baratas.

Talvez seja melhor. Não há notícias, no mundo das baratas, de semelhantes se trucidarem por nada. Talvez porque elas não tenham nada na cabeça, não sei sequer se têm cabeça. Baratas não se matam. São uma espécie bem-sucedida, como os pernilongos, as lacraias e as mocréias, que vivem em paz sem maiores sobressaltos.

Os animais, quando se matam, o fazem por causas bastante razoáveis. Ou para comer, ou para se defender. Eles não odeiam os outros animais. São indiferentes aos sentimentos das moscas, das pulgas ou dos gnus. Têm seus instintos, suas próprias leis, e vão levando a vida através dos séculos.

O homem, não. É um fracasso como espécie animal. É capaz das maiores façanhas tecnológicas, de ir à lua e clonar gente, mas incapaz de estabelecer regras de convivência que deveriam fazer parte de algum código genético interno, como o das baratas, das lacraias e das mocréias. O homem fabrica armas que têm como único objetivo matar outros homens. E transforma suas criações mais formidáveis, como aviões, em mísseis recheados de gente muito mais eficientes que ogivas nucleares.

A estupidez, e não a criatividade ou a inteligência, é a característica mais marcante da nossa espécie, é pela estupidez que seremos lembrados pelas baratas daqui a alguns milhões de anos. E o 11 de setembro de 2001 será emblemático, o dia em que o homem a exerceu com esplendor.

Eu e as baratas passamos o dia anteontem colados na TV, vendo nossa estupidez transformada em espetáculo de mídia. Nada mais formidável, cardápio para todos os gostos. Para aqueles que defendem o troco imediato, com a mesma violência e insanidade, e para os que acreditam que, finalmente, a arrogância do poder econômico e político recebeu sua lição, sentiu na pele o que é ter medo, o mesmo medo disseminado pela força ao longo dos anos.

Aqueles que admiram a superioridade imposta por nossos vizinhos do norte ao resto da humanidade no último século, que se sentem incomodados pelas nações que não tiveram a competência de construir suas disneylândias e não jogam basquete direito, estão radiantes. É a hora de provar de uma vez por todas quem manda no galinheiro.

Estes devem ter adorado a figura patética do presidente caubói garantindo a vingança com discurso hollywoodiano, “não se enganem, já vencemos outros inimigos antes, vamos vencer de novo”, um Forrest Gump mal-acabado defendendo ideais de liberdade, democracia e justiça nos quais só quem nunca esteve nos EUA pode acreditar.

(Basta meia hora em território americano para perceber a falácia dos tais ideais. Que liberdade existe num país vigiado por câmeras e satélites, onde jogar um chiclete na rua é motivo para ser detido pela SWAT? Que democracia é essa que referenda uma eleição fraudulenta e coloca na presidência um sujeito que teve menos votos que o derrotado? Que justiça é essa que faz com que esse país se ache no direito de interferir nos destinos de todos os outros exportando guerras e miséria?)

Os EUA apanharam. Não sabem de quem, mas talvez saibam por quê. E, se não sabem, era hora de alguém se dirigir ao seu povo e admitir que se meia-dúzia de doidos foram capazes das atrocidades do 11 de setembro, é porque muito mal esse país andou fazendo a outros povos por aí para ser tão odiado. Infelizmente, o caubói não é esse alguém. Sob a sombra e o cheiro fétido de 20 mil cadáveres, o caubói estava mais preocupado, horas depois dos atentados, em garantir aos seus cidadãos que “a economia americana está aberta aos negócios como sempre”.

Eu e as baratas nos espantamos com essa declaração. Aliás, nos espantamos também com palestinos festejando a morte de milhares de inocentes, em Beirute e Jerusalém. Ouvi alguém dizer que o que aconteceu ontem mostra que o mundo precisa de deus no coração. Discordamos, eu e as baratas. Foi o excesso de deus, assim mesmo, em minúscula, que levou as Cruzadas a dizimarem inimigos que acreditavam em outro tipo de deus, na Idade Média. Foi o excesso de deus no coração que conduziu os judeus na expulsão dos palestinos de seu território depois da Segunda Guerra. É o excesso de deus no coração que faz os árabes explodirem lanchonetes, shoppings, pizzarias, aviões e prédios pelo mundo afora.

O que há, e nisso eu e as baratas concordamos, é um excesso de deuses nos corações dos homens. Um deles, citado pelo caubói, é o mercado, a economia, o papel verde que move as engrenagens do planeta, e que uma barata amiga confessou ter roído um dia, de um maço escondido sob o assoalho, sem saber do que se tratava — não apreciou o paladar. Em nome de deus, ou de Deus, ou das várias modalidades de deuses, matamos, explodimos, arrebentamos, crucificamos, bombardeamos, torturamos e acompanhamos tudo pela TV como se fosse um grande espetáculo, e nisso concordamos de novo, eu e as baratas, somos muito bons.

Não há guerra boa ou paz ruim, escreveu Benjamin Franklin, curiosamente num 11 de setembro. As baratas discordam, a próxima guerra será muito boa porque sobreviveremos, me disse uma.

As baratas são bem melhores do que nós.

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O Paulo Renato Souza de minhas memórias

Quando eu estava em São Borja no último feriado, fiquei sabendo da morte do ex-ministro da Educação dos governos FHC, Paulo Renato Souza. Muito se falou sobre as coisas boas que este fez quando foi ministro, como a questão do ENEM, do Fundef e outras coisas que encheram o noticiário.
O Jornal do Almoço, através do nefasto Lasier Martins (não, eu não gosto desse cara de jeito nenhum) também fez toda uma babação em torno deste personagem, gaúcho de nascimento, mas com vida política atuante em SP. E o cara ainda era gremista (tem uns gremistas que me envergonham…)
Mas minha lembrança dele é a do tempo que ele era ministro, eu estava na adolescência, concluindo o Ensino Médio do CESB lá pelos idos de 2000, 2001.
Lembro que no Ensino Médio os alunos, caso quisessem ter livros, teriam de comprá-los (e o CESB é escola pública). O Fundef era somente pro Ensino Fundamental, o pessoal do Médio que se lascasse a comprar livros, que já não eram muito baratos naquela época. Foi só no tempo do Lula que o pessoal do Ensino Médio também começou a receber livros didáticos e o Fundef virou Fundeb e agregou o Ensino Médio também.
Outra coisa que me lembra este senhor que faleceu na semana passada foi o fato de que, em 2002 eu prestei vestibular para Direito na UFSM. E um tempo antes (pleno neoliberalismo selvagem no Brasil em processo decadente) estavam cogitando a ideia de cobrar mensalidades nas Universidades Federais. Isso fazia parte do processo de sucateamento da Educação Superior no Brasil, para convencer a população de que a educação pública não prestava e que o negócio era privatizar as universidades federais também: defasagem de salários para os professores, falta de investimentos em pesquisa e etc etc etc.
Voltando ao vestibular, me lembro que era um janeiro muito quente, 4 dias de prova e ficar por horas acomodado em cadeiras duras para responder as 23 questões de cada disciplina (!)
Eu não passei no vestibular da UFSM, acabei indo para a Unijuí cursar Direito e depois cursar História e aquilo que já devo ter contado aqui. FHC E PRS saíram do poder e entrou Lula e uma nova equipe que voltou a investir na Educação Superior e criação de novas universidades federais…
Em 2009 retornei a UFSM para prestar um concurso. E quanta diferença nas acomodações: cadeiras acolchoadas, climatizador na sala, multimídia em todas as salas, concursos sendo realizados, coisa que me lembro bem no tempo de FHC e PRS quase não aconteciam…
Claro que o governo Lula teve seus defeitos, mas não tem como se negar que nesse setor ele fez muitíssimo mais que FHC, é só vocês analisarem os dados: para alguns não foi o suficiente, mas é gritante a diferença…
Ah sim, Paulo Renato depois que saiu do MEC foi prestar consultoria para editoras de livros, especialmente para o Grupo Santillana, dono da Editora Moderna. Ganhou muito dinheiro com isso, claro que nem se compara com o que o Palocci ganhou depois que saiu do governo Lula, mas a mídia muy amiga não divulgou muito sobre o outro ramo de PRS pós-ministro.

Bueno, deixo com vocês esse material a mais sobre o ex-ministro publicado na Revista Fórum, escrito por Idelber Avelar. Boa leitura!

Paulo Renato Souza: um legado e tanto
O que você não leu na mídia sobre Paulo Renato (1945-2011)
Revista Fórum – Outro olhar
Por Idelber Avelar

Morreu de infarto, no último dia 25, aos 65 anos, Paulo Renato Souza, fundador do PSDB. Paulo Renato foi Ministro da Educação no governo FHC, Deputado Federal pelo PSDB paulista, Secretário da Educação de São Paulo no governo José Serra e lobista de grupos privados. Exerceu outras atividades menos noticiadas pela mídia brasileira.

Nas hagiografias de Paulo Renato publicadas nos últimos dois dias, faltaram alguns detalhes. A Folha de São Paulo escalou Eliane Cantanhêde para dizer que Paulo Renato deixou um “legado e tanto” como Ministro da Educação. Esqueceu-se de dizer que esse “legado” incluiu o maior êxodo de pesquisadores da história do Brasil, nem uma única universidade ou escola técnica federal criada, nem um único aumento salarial para professores, congelamento do valor e redução do número de bolsas de pesquisa, uma onda de massivas aposentadorias precoces (causadas por medidas que retiravam direitos adquiridos dos docentes), a proliferação do “professor substituto” com salário de R$400,00 e um sucateamento que impôs às universidades federais penúria que lhes impedia até mesmo de pagar contas de luz. No blog de Cynthia Semíramis, é possível ler depoimentos às dezenas sobre o que era a universidade brasileira nos anos 90.

Ainda na Folha de São Paulo, Gilberto Dimenstein lamentou que o tucanato não tenha seguido a sugestão de Paulo Renato Souza de “lançar uma campanha publicitária falando dos programas de complementação de renda”. Dimenstein pareceu desconsolado com o fato de que “o PSDB perdeu a chance de garantir uma marca social”, atribuindo essa ausência a uma mera falha na campanha publicitária. O leitor talvez possa compreender melhor o lamento de Dimenstein ao saber que a sua Associação Cidade Escola Aprendiz recebeu de São Paulo a bagatela de três milhões, setecentos e vinte e cinco mil, duzentos e vinte e dois reais e setenta e quatro centavos, só no período 2006-2008.

Não surpreende que a Folha seja tão generosa com Paulo Renato. Gentileza gera gentileza, como dizemos na internet. A diferença é que a gentileza de Paulo Renato com o Grupo Folha foi sempre feita com dinheiro público. Numa canetada sem licitação, no dia 08 de junho de 2010, a FDE da Secretaria de Educação de São Paulo transfere para os cofres da Empresa Folha da Manhã S.A. a bagatela de R$ 2.581.280,00, referentes a assinaturas da Folha para escolas paulistas. Quatro anos antes, em 2006, a empresa Folha da Manhã havia doado a curiosa quantia–nas imortais palavras do Senhor Cloaca–de R$ 42.354,30 à campanha eleitoral de Paulo Renato. Foi a única doação feita pelo grupo Folha naquela eleição. Gentileza gera gentileza.

Mas que não se acuse Paulo Renato de parcialidade em favor do Grupo Folha. Os grupos Abril, Estado e Globo também receberam seus quinhões, sempre com dinheiro público. Numa única canetada do dia 28 de maio de 2010, a empresa S/A Estado de São Paulo recebeu dos cofres públicos paulistas–sempre sem licitação, claro, porque “sigilo” no fiofó dos outros é refresco–a módica quantia de R$ 2.568.800,00, referente a assinaturas do Estadão para escolas paulistas. No dia 11 de junho de 2010, a Editora Globo S.A. recebe sua parte no bolo, R$ 1.202.968,00, destinadas a pagar assinaturas da Revista Época. No caso do grupo Abril, a matemática é mais complicada. São 5.200 assinaturas da Revista Veja no dia 29 de maio de 2010, totalizando a módica quantia de R$1.202.968,00, logo depois acrescida, no dia 02 de abril, da bagatela de R$ 3.177.400, 00, por Guias do Estudante – Atualidades, material de preparação para o Vestibular de qualidade, digamos, duvidosíssima. O caso de amor entre Paulo Renato e o Grupo de Civita é uma longa história. De 2004 a 2010, a Fundação para o Desenvolvimento da Educação de São Paulo transfere dos cofres públicos para a mídia pelo menos duzentos e cinquenta milhões de reais, boa parte depois da entrada de Paulo Renato na Secretaria de Educação.

Mas que não se acuse Paulo Renato de parcialidade em favor dos grandes grupos de mídia brasileiros. Ele também atuou diligentemente em favor de grupos estrangeiros, muito especialmente a Fundação Santillana, pertencente ao Grupo Prisa, dono do jornal espanhol El País. Trata-se de um jornal que, como sabemos, está disponível para leitura na internet. Isso não impediu que a Secretaria de Educação de São Paulo, sob Paulo Renato, no dia 28 de abril de 2010, transferisse mais dinheiro dos cofres públicos para o Grupo Prisa, referente a assinaturas do El País. O fato já seria curioso por si só, tratando-se de um jornal disponível gratuitamente na internet. Fica mais curioso ainda quando constatamos que o responsável pela compra, Paulo Renato, era Conselheiro Consultivo da própria Fundação Santillana! E as coincidências não param aí. Além de lobista da Santillana, Paulo Renato trabalhou, através de seu escritório PRS Consultores – cujo site misteriosamente desapareceu da internet depois de revelações dos blogs NaMaria News e Cloaca News–, prestando serviços ao … Grupo Santillana!, inclusive com curiosíssima vizinhança, no mesmo prédio. De fato, gentileza gera gentileza. E coincidência gera coincidência: ao mesmo tempo em que El País “denunciava”, junto com grupos de mídia brasileiros, supostos “erros” ou “doutrinações” nos livros didáticos da sua concorrente Geração Editorial, uma das poucas ainda em mãos do capital nacional, Paulo Renato repetia as “denúncias” no Congresso. O fato de a Santillana controlar a Editora Moderna e Paulo Renato ser consultor pago pelo Grupo Santillana deve ter sido, evidentemente, uma mera coincidência.

Mas que não se acuse Paulo Renato de parcialidade em favor dos grupos de mídia, brasileiros e estrangeiros. O ex-Ministro também teve destacada atuação na defesa dos interesses de cursinhos pré-vestibular, conglomerados editoriais e empresas de software. Como noticiado na época pelo Cloaca News, no mesmo dia em que a FDE e a Secretaria de Educação de São Paulo dispensaram de licitação uma compra de mais R$10 milhões da InfoEducacional, mais uma inexigibilidade licitatória era anunciada, para comprar … o mesmíssimo produto!, no caso o software “Tell me more pro”, do Colégio Bandeirantes, cujas doações em dinheiro irrigaram, em 2006, a campanha para Deputado Federal do candidato … Paulo Renato! Tudo isso para não falar, claro, do parque temático de $100 milhões de reais da Microsoft em São Paulo, feito sob os auspícios de Paulo Renato, ou a compra sem licitação, pelo Ministério da Educação de Paulo Renato, em 2001, de 233.000 cópias do sistema operacional Windows. Um dos advogados da Microsoft no Brasil era Marco Antonio Costa Souza, irmão de … Paulo Renato! A tramóia foi tão cabeluda que até a Abril noticiou.

Pelo menos uma vez, portanto, a Revista Fórum terá que concordar com Eliane Cantanhêde. Foi um “legado e tanto”. Que o digam os grupos Folha, Abril, Santillana, Globo, Estado e Microsoft.

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