A tragédia, a farsa e “a tragédia da farsa”

Tempos atrás, escrevi um texto em que usei uma frase do livro “O 18 Brumário de Luís Bonaparte”, de Karl Marx, creio que a mais conhecida dessa obra, logo no começo do livro: “A História se repete; a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa”. Mas confesso que, quando usei a frase em si, não tinha lido na íntegra todo o livro, tarefa que realizei durante minhas férias (apesar de terem sido um tanto quanto conturbadas, mas isso não é o assunto).

Levei uma semana para lê-lo, e entender o que Marx quis dizer com essa frase, levando em conta principalmente a História da França pós Napoleão. Há outros conceitos abordados no livro, como o famoso lumpen-proletariado, mas que não quero explicar aqui neste ensaio.

Ando analisando os movimentos políticos do Brasil desde muito tempo, venho percebendo que nós também tivemos nossos momentos de História se repetindo, e que estamos sob um sério risco de repetirmos novamente, por isso eu classifico tal como “a tragédia da farsa”.

Historicamente, nós sempre nos deparamos com personagens que, por possuírem certo carisma entre os seus, sempre apareceram como “salvadores da nação” (no caso, suas nações de origem ou próximas). Eu posso, tranquilamente, elencar alguns. Começo por Dom Sebastião I, jovem rei de Portugal que, durante uma batalha contra os mouros no Marrocos em 1578, faleceu e seu corpo jamais foi encontrado. Por não ter sido encontrado, criou-se entre a população mais carente de seu país a ideia de que um dia ele voltaria para salvar a nação. A gente chamou esse fenômeno de “sebastianismo” e tivemos aqui no Brasil, no fim do século XIX, um fenômeno enquadrado como tal, que foi o movimento liderado por Antônio Conselheiro.  Na França, o próprio Napoleão acabou surgindo como um salvador da pátria por liderar seus exércitos contra os inimigos externos da nação e acabou sendo apoiado pela burguesia a praticar o famoso Golpe do 18 Brumário (isso é assunto para outra pauta). E o exemplo mais recente que tivemos, na Itália e Alemanha do séc. XX com Mussolini e Hitler, respectivamente, dos quais temos centenas de publicações relatando os rumos que esses “salvadores” acabaram ocasionando em seus países.

Bem, mas vamos ao caso do Brasil, para que vocês entendam onde quero chegar com a tragédia, a farsa e a tragédia da farsa.

Em 1960, nosso país vivia o final do período JK, enfrentando sérias dificuldades financeiras e outras situações muito comuns a nosso país até hoje, como denúncias de corrupção. Nesse contexto, surge um candidato de um partido pequeno, com um discurso demagógico e moralista, no qual falava inclusive em “varrer a corrupção” do país, um salvador. Lembraram? Ele mesmo, Jânio Quadros. Se elegeu com uma votação esmagadora, assumiu tomando posições bastante contraditórias com seu discurso e, por não ter uma base política grande, acabou renunciando sete meses depois e o resultado disso tudo foi uma espiral de situações que culminaram com o Golpe Militar de 1964 e 21 anos de regime ditatorial. Essa eu classifico como a tragédia

29 anos depois, em 1989, nosso país passava por uma recente redemocratização, que veio acompanhada de uma série de dificuldades especialmente na área econômica, muito em reflexo do que os 21 anos de regime militar legaram. Nesse contexto, novamente um candidato de um partido pequeno, com um discurso demagógico e moralista, se apresentando como salvador, se elege presidente. Lembraram? Ele mesmo, Fernando Collor de Mello! E de forma semelhante a Jânio, toma uma série de medidas polêmicas, somadas a escândalos de corrupção e outras irregularidades, perde boa parte de sua base de apoio e acaba sofrendo um processo de impeachment e acaba saindo do cargo. Esse eu classifico como a farsa.

Pois bem, ano que vem é 2018, e estamos passando por situações socioeconômicas bem complicadas nesse instante e acredito estamos na possibilidade de, 29 anos novamente depois, colocarmos no poder um candidato de um partido pequeno com um discurso moralista e demagógico e se apresentando como salvador no poder. Isso que eu me refiro como a “tragédia da farsa”. Se vai acontecer? Bom, a figura em questão é muito de falar, mas pouco de fazer. Mas como quem muito fala e pouco faz, se achar que não terá condições de concorrer e para não perder a mamata que ocupa há pelo menos seis (!) mandatos consecutivos, pode ser que não venha, ou que seja tolhido da disputa por algo que se apresente como “novidade” no cenário eleitoral nacional.

Os nomes, se vocês que chegaram até aqui forem espertos o bastante, sacarão logo.

Loucura, loucura, loucura…

 

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