O massacre catalão e a decadência cada vez mais visível do futebol brasileiro

Cá estamos nós novamente, após um longo período de hibernação criativa…

Sim, encerrei o ano letivo essa semana, tenho ainda uma semana de trabalho e depois o retorno em fevereiro, mas sobre isso falo outra hora

Hoje pela manhã assisti a um verdadeiro massacre em 90 minutos de jogo, e todos vocês devem ter visto o mesmo: o Santos, clube brasileiro campeão da última Libertadores, levou um sonoro 4×0 do Barcelona, clube espanhol campeão da última Liga dos Campeões da Europa.

O primeiro tempo encerrado em 3×0, fora o baile, parecia uma dessas brincadeiras roda de bobinho, onde você tem que ficar com a bola e não deixar que o bobo retome ela. Já no segundo tempo, o Santos até tentou alguma coisa, quase chegando a marcar gol, mas acabou levando mais um e perdendo o jogo definitivamente.

Ver Neymar, jogador santista tão badalado aqui no Brasil, garoto propaganda de N marcas, admitir que hoje haviam aprendido a jogar bola, é o retrato mais fiel de quão bobos fomos levados pela “grande” mídia a crer que poderíamos ser páreo ao Barcelona…

O que colocarei aqui são alguns comentários postados no artigo do excelente (e um de meus ídolos do jornalismo) Flávio Gomes, intitulado “A lição do Japão”. Eu não colarei o artigo todo, mas vai o link aqui do lado: A Lição do Japão, por Flavio Gomes

Mas colarei aqui os comentários e os nomes(ou pseudônimos) de quem os citou, que são excelentes complementos ao seu artigo (perdoem-me se der algum erro no copiar-colar aqui, mas vocês entenderão o processo):

Emílio Baraçal disse:

R.I.P. FUTEBOL BRASILEIRO

Li e ouvi, logo após o embate (?) entre Santos e Barcelona neste último domingo que o Santos foi humilhado. Eu acho que ocorreu uma situação pior. O futebol brasileiro foi humilhado. Veja bem, o Santos é o atual melhor time do Brasil, tem os dois grandes craques do futebol brasileiro e é a atual pérola da América. Se o que temos de melhor toma uma goleada histórica dessas, fico muito triste pelo nível dos outros times brasileiros. Me chame de exagerado, me chame do que quiser, mas o dia 18/12/2011 ficou marcado na história como a morte do outrora glorioso futebol canarinho.

Essa sensação é algo que venho tendo desde a performance brasileira no mundial de 2006. Porém, eu ficava pensando que talvez fosse apenas uma leve impressão minha. E o Barcelona mostrou que não era. Olhando no Futstats e outros sites de números de partida, vemos algo monstruoso. O Barcelona teve 75% de posse de bola (o que significa um tempo e meio de jogo com a redonda nos pés) e mais da metade do time simplesmente não errou um único passe. Todos, sem excessão alguma, marcavam quando estavam nos raros momentos sem a bola. O Barcelona mostrou que, para ser um time vencedor basta, apenas, jogar futebol.

Falei besteira? Não, não falei e é nas entrelinhas que devemos prestar atenção. Enquanto jogadores brasileiros se preocupam em qual mulher-fruta irão pegar, em qual carro irão chegar a uma festa, em aumento de salários e planos de carreira, o jogador do Barcelona, qualquer um deles, faz o que tem que fazer: jogar. Isso é resultado da política ridícula que temos neste país. O Brasil, com sua mania de tomar mais do que dá, de não dar condições dignas de vida ao brasileiro, faz com que quase todo menino sonhe em jogar futebol para ser alguém na vida. Parece que é a única maneira honesta de vencer na vida dentro do país dos impostos. Isso cria um individualismo (como se o brasileiro já não fosse o suficiente) exacerbado em jovens que deveriam ter como noção primordial o fato de estarem em um esporte coletivo. E coletividade é um dos segredos do Barcelona. A partir do momento que até sua estrela vai ajudar o companheiro na marcação, podemos ter o talento que for em um time brasileiro, não será o suficiente.

O resultado de ontem mostra que falta tudo em nosso futebol atual. Não temos categoria de base. Os fundamentos não são treinados com a meninada. Pior: treinador de base que tenta é esculachado pelos empresários dos garotos, afinal, querem grana na mão o mais rápido possível. Não há tempo para fundamentos, o resultado precisa vir logo. Pura consequência da combinação dos clubes terem virado empresa e do futebol ter virado comércio. Tudo tem que ser pra ontem. E por que essa constatação? Simplesmente nove dos titulares do time catalão jogam juntos há quase vinte anos, desde moleques. Não é à toa que possuem um entrosamento praticamente extraterrestre. Há trinta anos que o Barcelona mudou a mentalidade de comprar jogadores para a mentalidade de investir (corretamente, não como aqui) nas categorias de base.

Faltam também dirigentes e não os fanfarrões que temos aqui, que se preocupam com o jogo da soberba na mídia, vendo quem troca as melhores acusações. Isso tem nome, queridos: infantilidade. Falam tanto de amor ao clube que ao invés de ficarem calados, trabalhando para que seu respectivo clube seja um rolo compressor, ficam se olhando no espelho e ajeitando o cabelo enquanto uma câmera é apontada para seus rostos.

Falta noção para a imprensa esportiva brasileira, que endeusa qualquer um que consegue um chapéu e um gol no ângulo. Isso também é fator para o deslumbramento das jovens “promessas”.

O Durval falhou no primeiro gol? Falhou. O esquema tático usado pelo Muricy foi (provavelmente) equivocado? Sim, mas (quase) ninguém tem culpa da performance do Peixe. Aconteceram outros problemas dentro e fora do campo? Com certeza. Essa apresentação é culpa do que o futebol brasileiro se tornou. Na época de ouro, não nos preocupávamos com dinheiro, puxa-saquismo, representar produtos na televisão, entre outras coisas. Nos preocupávamos em jogar bola. E foi assim que o Brasil se consolidou como o titã que era. Acusamos os argentinos de serem arrogantes, mas nós, usando das glórias de décadas atrás, nos julgávamos inalcançáveis. Só que o tempo foi passando e os estrangeiros foram aprendendo, aprendendo e aprendendo. E nós fomos relaxando. Aos poucos, a coisa toda mudou. Os sinais estavam aí. Não é de hoje que falam que atualmente não há mais cachorro morto no futebol. Os mexicanos aprenderam, os japoneses aprenderam, os africanos aprenderam e os europeus se superaram. Quem estacionou ao ficar se vangloriando de jogadas que não eram suas? O jogador atual do futebol brasileiro, que calcado nos feitos de Pelé, Tostão, Garrincha e outros, sobem no pedestal. Nós passamos décadas ensinando o futebol ao mundo. Vimos o mundo aprender e a demos tapinhas nas costas deles falando “Que gracinha!” enquanto ao invés de treinarmos, enchemos a cara em botecos e churrascadas regadas a muita cerveja, pagode e mulheres seminuas.

Particularmente, o time do Santos fez o que pode. Não teve culpa de encontrar pela frente um time com trabalho sério, ao contrário da postura dentro e fora de campo de qualquer time brasileiro. O que o Santos sofreu foi consequência dessa acomodação nefasta que tomou conta dos jogadores e das falcatruas dos cartolas de norte a sul do Brasil. Jogar contra um time que dá espaço é fácil ser craque. Difícil é jogar contra um time onde todos os jogadores ajudam uns aos outros como deveria ser em um esporte coletivo. Fácil ser valente e raçudo contra um Santo André. Ter a mesma postura sempre é que é difícil, como o Barcelona faz, que trata todo adversário igualmente é que é difícil. Fácil sobrar num campeonato (e ser apontado como revelação) cujo nível agora ficou evidentemente medíocre e começar a pedir aumento de salário e revisão de carreira, né? Difícil é grasnar diante de Messi, Xavi e companhia.

É, acho que tinha que ter levado o Pelé mesmo, o presidente estava certo. Descanse em paz, futebol brasileiro. Obrigado por tudo, foi bom enquanto durou, o último que apague a luz, por favor.

elipe disse:

Sobre o jogo e o contexto todo, algumas coisas que me chamaram a atenção:

1) Não precisa comprar meio mundo nem montar uma seleção internacional pra fazer time. O Barcelona entrou em campo com 9 jogadores formados na sua base, 8 deles espanhóis (exceção de Messi, que é argentino, mas mora lá desde guri. E o Thiago, ok, não nasceu na Espanha, mas futebolisticamente falando é espanhol – joga pela Espanha)

2) Claro que não basta pegar 9 guris da base e botar pra jogar. Tem um trabalho de formação, de filosofia, como dizem, e respaldo pra esses caras jogarem no time principal. Dá nisso que temos visto nos últimos anos.

3) Craque também marca e corre. Messi tá aí pra não me deixar mentir. Mão na cintura não existe, Ganso.

4) O Barcelona não faz concentração e ganha todos os títulos. Precisa de exemplo maior pra mostrar o quão inútil é a concentração quando se tem profissionais conscientes de seus deveres?

5) Vou discordar do Flávio em um ponto. O Barcelona faz faltas. Fez o mesmo número de faltas que o Santos, mesmo tendo o triplo de posse de bola. E faz faltas no meio-campo, pra matar contra-ataque e dar tempo de sua defesa se organizar. Faz parte da estratégia. O Santos só assistia o Barcelona jogar e pedia desculpas quando cometia falta. Os jogadores do Santos pareciam mais tietes dos barcelonistas que adversários.

6) O Santos nem foi pro jogo nem defendeu-se. Não sabia o que queria. Isso é fatal. O Inter de 2006 era pior que o Barcelona, mas sabia o que tinha que fazer: defender-se e sair no contra-ataque. Ganhou o jogo assim. Não é feio fazer isso, faz parte do jogo. Feio é tomar de 4×0, fora o baile.

7) Pela enésima vez, um time brasileiro ganha a Libertadores, passa o segundo semestre inteiro se arrastando, se “poupando”, chega no Mundial e perde (Grêmio/95, Cruzeiro/97, Vasco/98, Palmeiras/99, Inter/10, mesma coisa). Alguns até jogaram bem, como Grêmio, Vasco e Palmeiras, e perderam no detalhe ou porque jogaram contra timaços. Mas perderam. Em 92/93, o São Paulo disputou o Mundial em meio a jogos decisivos do Paulista e Brasileirão. Então, pergunto: pra que diabos ficar se poupando se isso não ajuda em nada?

Por enquanto, é isso. Num texto tão grande, não há como se concordar com todas as linhas, mas bela análise, Flávio.

Piloto de carrinho de supermercado disse:

Realmente, um massacre. O time do Barcelona parecia uma manada de elefantes maníacos, esmagando as formiginhas santistas, sem dó nem piedade. Fizeram de tudo para criar uma rivalidade Neymar x Messi, disseram que, apesar de o Barcelona ser melhor, o Santos tinha boas chances de vencê-lo, por causa do talento do Neymar e do Ganso, da inteligência e capacidade de improviso do Muricy… Puro marketing? Não sei se é exatamente assim. O marketing “levanta” a bola, mas tem que ter alguém para “cortá-la”… Hoje não teve. Seguindo mais ou menos a linha do que disse o Flavio Gomes no Twitter, o Neymar hoje deve ter acordado daquele conto de fadas criado nos últimos meses, de ser o melhor do mundo jogando no Brasil, de estar em uma equipe que faça frente a qualquer time do mundo, praticamente um novo Santos de Pelé…
Klaus disse:
Falou tudo. Infelizmente o ultimo PROFESSOR digno do nome foi o finado Telê Santana. Depois dele só essas estrovengas tipo o Muricy. Esse caboclo enfiou no traseiro duas libertadores pelo São Paulo e agora um mundial pelo Santos pelo mesmo motivo: ao invés de botar o time pra jogar pra valer, botou em campo uma galera pra perder de pouco. Aí é titulo pro ralo mesmo.
 disse:
“Neymar, coitado, ótimo jogador, virou marketing puro”
É o nível do mkt do futebol. Uma pesquisa básica na Paulista perguntando o que é BMG mostra que nem lá sabem o que é.
rgomes disse:

E ainda temos que aturar a midia nacional enganando os trouxas e falando que o campeonato brasileiro é o maior campeonato do mundo. Os jogos são sofriveis de assistir, com gols ridiculos em que mais de 90% são mais por falhas do que por virtudes. No ultimo brasileiro o campeão teve quase igualado o numero de pontos perdidos com o numero de pontos ganhos. A toda rodada o 1o. perdia do ultimo colocado.

Aí está o resultado. Passa vergonha. Há poucos dias foi mostrado na televisão como o Barcelona trata as suas divisões de base. Coisa séria e competente. Nada a ver com o que temos aqui.
Aqui fica um monte de moleque aprendendo a ser esperto, malandro e a midia enchendo a bola desses caras.

Alexandre Werner disse:

Ta certo Flavio. Mas eu acredito na premissa “Não há marketing que sustente um blefe”. O que os times brasileiros fazem está muito longe de ser marketing… É no máximo publicidade via exposição exaustiva na mídia.

O Marketing como ciência administrativa se preocupa com tudo, desde as categorias de base do time até o torcedor gordão sentado no sofá que quer ver futebol de verdade.
Qualquer filosofia diferente disso não é marketing, é fraude.

Francisco Libânio disse:

Vivemos um embate em nossa imprensa esportiva. De um lado os globolizados que vêem qualquer perna de pau brasileiro como melhor que os melhores do mundo e de outro os que colocam o futebol europeu nas alturas. De tudo, tiro três conclusões.

1) Muricy disse que bom mesmo é quem ganha o campeonato brasileiro que é equilibrado, tem vários candidatos ao título, blablablá. Lorota. O campeonato brasileiro é equilibrado, sim, mas nivelado por baixo uma vez que na primeira janela, times vendem seus “produtos” por qualquer três reais e ficamos com o restolho aqui. O Santos evoluiu nesse ponto mantendo Neymar e Ganso (esse mais por desinteresse dos outros que esforço próprio). De resto, os times brasileiros ficam com maus jogadores e, diante da mediocridade de quatro ou cinco , um tem que ganhar.

2) O futebol europeu é desnivelado. Espanha, Portugal tem dois times hiperfortes contra equipes de nível quase amador. Inglaterra, Alemanha e Itália tem três ou quatro, mas o desnível ainda é o mesmo. Seja como for, as poucas potências desses países seriam campeãs no Brasil, na Argentina, no Chile com a mesma facilidade que são em seus países. O contrário não aconteceria. O Corinthians campeão desse ano não seria campeão inglês nunca.

3) Europa não é sinonimo de organização. Lá como cá, técnico também roda com o humor do presidente, presidente também manda despoticamente. Fergussons na Europa são poucos.

Conclusão final – O Barcelona não é o que é porque é europeu ou porque joga contra galinhas mortas, mas porque é resultado de trabalho sério que começou há anos e só tende a evoluir. Seguindo essa receita, o Barça será campeão espanhol, europeu, mundial, intergaláctico e seria campeão brasileiro, da Libertadores, de Botsuana, de onde fosse. Que a lição que o Santos tomou hoje não fique apenas nas quatro linhas. Fora dela, muita coisa precisa ser aprendida.

Marcus Pequim disse:

Flávio, concordo com sua ideia geral. O Neymar falou que tivemos uma aula de futebol. bem, esta aula está toda semana nas telas da ESPN. espero que ele aprenda que não precisa chamar atenção pelo cabelo ridículo, por aparecer nas festas VIPS e, creio, que ele aprendeu que para ser jogador considerado de verdade, tem que jogar no exterior. (segundo o Cosme Rimoli e jornal inglês) ele já é do Barça. Agora, o Barça é muito superior mesmo à Europa. porém, há que se pensar que estes jogadores (maioria) jogam juntos desde as bases do Barça, daí o maravilhoso toque de bola, jogadas, etc. O Santos foi covarde, pequeno, principalmente no primeiro tempo, mas acho que nenhum time da América faria muito diferente.

Na verdade, acho que o time do Santos acreditava que o Barça só existia no video game…

—–

E se vocês não concordam com isso, vão comemorar gol imitando João Sorrisão, vão…

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1 comentário

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Uma resposta para “O massacre catalão e a decadência cada vez mais visível do futebol brasileiro

  1. Parabens é tudo isso mais um pouco…e que daqui pra frente seja revista a famigerada lei Pelé onde os Investidores F.R não dão tempo ao tempo do garoto feito na base seja fundamentalmente treinado e bem treinado…existe pressa para que seus bolços logo fiquem cheios de Euros e Dolares muitas das vezez iludindo seus familiares carentes e desprovido de tudo.

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