Há um ano atrás

Não costumo mais falar tanto de minha vida pessoal aqui neste blog, mas o que vou compartilhar com vocês é algo que ocorreu comigo há exato um ano atrás. Sobre aquele que foi um dos piores dias dos meus 28 anos. É uma crônica em primeira pessoa, da qual não vou omitir os nomes das pessoas envolvidas…

É um pouco extensa, mas acho que gostarão.

Há um ano

Eu e todos os amigos sabíamos que o estado de saúde do Beiço havia piorado bastante desde o início do ano. Tosse constante era o sinal de que algo não estava bem. Mas para quem já lutava contra tumores desde os treze anos e contra diversas complicações de saúde, acreditávamos que ele iria sair de mais essa tranquilamente. Mesmo sofrendo bastante, nunca deixou transparecer isso, sempre dizendo estar bem, fazendo piadas e sorrindo sempre. Difícil vê-lo de mau humor.

A última vez que o vi foi quando fui a São Borja, durante o Carnaval: tomamos umas cervejas, conversamos um pouco, mas não deu pra fazer muita coisa, bem diferente da grande reunião do início de ano. Não imaginava que esse encontro seria o nosso último…

No mês de abril, seu estado de saúde piorou bastante e teve de ir para Porto Alegre com os seus pais. Mas sempre que eu ligava para ele, a mesma conversa de estar tudo bem. Mas quando chegou maio, ainda estava pelo hospital, e no final de semana do dia das mães, eu consegui uma carona com uns tios que moram aqui em Ijuí. Eles iriam dia 7, sexta-feira, de manhã.

Por uma coincidência insólita, Persio havia perdido seu avô no começo daquela semana do dia 7. Quando ele vai ao trabalho do Rodrigo conversar sobre isso, comenta que veio pro velório do avô e que iria ficar mais um pouco, para o do Beiço… Sinistro isso sim, mas como Persio estava para se formar em Medicina deveria saber o que estava por vir.

Fechado esse parêntese, no dia 7 eu consegui folga do meu trabalho (somente no fim do mês eu iria entrar na escola, como professor). Um dia antes, liguei para o Beiço, que estava no hospital. Seu João (pai do Beiço) atendeu e disse que ele não poderia falar comigo naquele instante. Inconscientemente, eu fiz um ritual preparatório para o pior: recarreguei os telefones, botei na mochila roupas pretas e na manhã do dia 7 eu tinha dentista, ao qual cancelei e uma prova para realizar no campus, a qual fiz em 20 minutos (não repitam isso, classificavam-se 3 e eu fiquei em 4°) e fui ao encontro dos meus tios que me esperavam na saída da prova, para irmos rumo a São Borja.

Era um dia bem estranho: amanheceu nublado e caía uma garoa durante a viagem, quase todo o trajeto foi sobre uma chuva fina. Pouco antes do meio-dia cheguei na casa de meus pais.

Almocei e fui levar minha irmã à escola e minha mãe ao trabalho. No caminho, encontrei o Rodrigo de carro, me fez sinal para conversarmos mais tarde. Nunca encontro ele nesse horário. Deixei o carro em casa e fui caminhar um pouco, como sempre faço quando chego a minha terra natal. Passei no trabalho do Charles pra dar um oi e ao sair eu tinha duas opções: ou dobrava pra ir à casa do Beiço ou para ir ao mercado. Escolhi a segunda opção. Inconscientemente, uma sábia decisão…

Sábia, pois entrei no mercado, peguei algo que não lembro mais e fui em direção ao Museu João Goulart. Ao entrar na recepção, meu telefone toca: o Charles me ligando para eu voltar lá, que o Rodrigo estava lá me esperando. Muito estranho, mas dei meia-volta e fui…

Ao chegar lá, os dois na frente do escritório e o Rodrigo com os olhos marejados… Prontamente pergunto o que houve e de sopetão, ele me responde: “O Beiço morreu”.

“O quê?” – respondi de imediato.

“Agora de tarde, depois que te encontrei, o Cristian chegou ao meu trabalho pra me dar a notícia”.

Isso era umas 3 da tarde.

Sabe aquele momento que você fica com a sensação de estar perdido, sem chão? Foi o que senti naquele instante, um nervosismo inexplicável, e comecei a ligar pras pessoas próximas a nós para dar a notícia. A primeira que dei a noticia foi minha esposa, a qual não conseguia acreditar no que eu disse. E segui ligando para meio mundo para dar a infeliz notícia…

Logo depois, seguimos para o trabalho dos pais de Humberto, os quais eu havia avisado por telefone. Ao chegar por lá, encontramos Persio e logo depois chega o Leandro. Nisso eu ligo pra minha mãe para dar a notícia, e ela tem a mesma reação da maioria: espanto. Persio vai para casa e Rodrigo, Leandro e eu seguimos para dar o recado para mais outros amigos e por fim paramos num posto para tomar uma cerveja e relaxar um pouco. Nisso chegou o Marcos, a qual só consegui avisar por SMS.

Já eram 6 da tarde e então cada um foi pra casa tomar banho e esperar a chegada do corpo; decidimos fazer uma vigília na casa do Rodrigo, para esperar a chegada do corpo.

Ao chegar em casa, me desandei no choro, incontido, quase sem controle. O dia que vocês perderem alguém pelo qual mantiveram uma amizade forte por mais de década, vocês entenderão…

Mais tarde, na casa do Rodrigo, quase todos reunidos: eu, Persio, Marcos, Leandro, Charles, Rogério. Todos olhando no computador fotos de momentos que passamos junto do Beiço. Tantas boas lembranças, tantas coisas inacreditáveis vividas, coisas que contando ninguém acredita. Tudo isso regado a muito vinho, pois era uma noite muito fria. Todo mundo com os olhos inchados ou avermelhados.

Logo o vinho acaba. E partimos ao mercado mais próximo. No caminho uma surpresa: encontramos-nos com a irmã mais velha do Beiço, a Alessandra, que acabava de chegar de viagem com o marido e a filha recém-nascida. Uma coincidência sem explicação.

Resumindo a noite, Persio me deixou em casa, eu estava muito mal, cheguei em casa, deitei e dormi chorando. Pelos relatos na manhã, alguns foram afogar as mágoas numa boate, fazendo coisas que há tempos não faziam, mas que pela ocasião em si, foram perdoadas.

Sábado, ainda de ressaca, acordo cedo e vou para a casa do Rodrigo para irmos à funerária. O corpo do Beiço só chegou de manhã cedo de Porto Alegre. Minha mãe vai mais cedo que eu no velório, pois tinha de trabalhar. Nós chegamos logo depois, todos de ressaca e ao chegar à funerária e nos depararmos com o Beiço no caixão, sendo velado, parecia que estávamos numa outra dimensão, como se não fosse ele quem estivesse ali. Muita gente veio, pessoas que eu não via há muitos anos, ex-colegas de escola, amigos de Carnaval, outras pessoas que eu não devia ver desde que tinha ido embora de São Borja. Só fui em casa para almoçar.

O Persio tinha ônibus marcado para a tarde e não pôde ficar para o enterro. Muitos que chegavam não se continham em ver o velho guerreiro caído, e em muitos casos eu tinha que consolá-los, só que havia momentos em que eu consolava e era consolado pelo meu pai (meu pai, aliás, ficou quase todo tempo comigo, muito impressionado com o que havia acontecido: o pai era amigo dos pais do Beiço há muito tempo, bem antes de eu nascer).

Três e pouco da tarde começou o momento de deslocar o caixão para o cemitério. Uma última oração, muitas lágrimas mais e seguimos ao local do enterro (a funerária era em frente ao cemitério, então era rapidinho). O caixão foi levado num carro elétrico (igual aos carros-maca dos estádios de futebol), mas chegou num ponto onde não passava mais e teríamos de carregar o caixão. A princípio era para os familiares do Beiço levar o caixão, mas um de seus cunhados então falou a eles:

“Deixa os guris carregarem: afinal, eles estavam sempre juntos dele”.

E eu, Rodrigo, Charles, Marcos, Leandro, Cristian e meu pai ajudamos a carregar o caixão nos metros que faltavam. Essa seria nossa última homenagem naquele instante ao amigo. Então foi colocado no túmulo, foi feita uma oração, mais lágrimas incontidas dos amigos e nesse instante eu pego o telefone e ligo pro Humberto, que não conseguiu ônibus de Porto Alegre para cá:

“Mosca, a gente sempre te ligava na madruga enquanto estávamos fazendo alguma borracheira, agora te ligo para dizer que acabamos de enterrar o Beiço”, lembro de ter dito. Daí passei o telefone pro Rodrigo e o Leandro, que falaram mais um pouco com ele.

Na saída, combinamos de nos reunir na casa do Rogério para fazer uma janta e tomar umas cervejas na noite. Todos foram embora de carro e eu quis seguir até minha casa caminhando, sozinho; eu precisava daqueles minutos pra refletir sobre o que aconteceu, sobre como foi nossa amizade durante todos esses anos, onde passamos por momentos bons, ruins, engraçados, tensos e coisas que serão inesquecíveis…

Mais tarde, na casa do Rogério, nos reunimos, mas não havia muito clima; mesmo assim valeu a pena este momento, isso nos fez acordar para que sempre que possível estejamos reunidos, mesmo que seja para coisas banais da vida. Não nos estendemos muito, pelo fato da noite anterior ter sido longa.

Domingo à tarde, retornei a Ijuí. O pior disso tudo é saber como há pessoas maldosas, que não conhecem a realidade e ficam inventando coisas absurdas acerca da morte do Beiço; na semana que seguiu, fui informado de dois boatos absurdos: um que contavam que ele havia morrido de AIDS e outro de que havia sido por causa de overdose.

E assim encerro este relato de um fim de semana que era pra ser só para ser um Dia das Mães, mas que acabou sendo algo de não muito boas lembranças.

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