A violência no trânsito e as perplexidades inúteis

Via "RS Urgente"
Artigo muito interessante do Marco Weissheimer que publico aqui tbm.
Abs

A violência no trânsito e as perplexidades inúteis

O massacre diário protagonizado por nossos bravos motoristas é tema
de freqüentes editoriais indignados com a violência no trânsito.
Indignados, hipócritas e inúteis. A indignação, é claro, fica por conta
da legítima revolta contra mortes absolutamente estúpidas, vítimas de
imprudência e imperícia. Já a hipocrisia é a marca da íntima parceria
entre as indústrias automobilística e midiática. Os mesmos meios de
comunicação que produzem os tais editoriais indignados e fazem campanhas
de conscientização pela segurança no trânsito faturam milhões de reais
todos os anos com propagandas que, freqüentemente, fazem a apologia da
velocidade, da potência, do individualismo e da erotização do automóvel.
Talvez essa não seja a causa principal das mortes, mas o culto
erótico-religioso ao automóvel não ajuda muito no florescimento da
prudência.

O Rio Grande do Sul atingiu esta semana a marca dos mil mortos no
trânsito. Façanha atingida apenas no ano de 2010. A essa altura, o
recorde macabro já foi quebrado. Sirvam nossas façanhas de modelo a toda
terra, não é mesmo. O povo culto e politizado do Rio Grande dando mais
um exemplo ao país. E tome editoriais bradando por urgentes providências
das autoridades. É o mesmo Estado que assistiu, há alguns anos, a uma
intensa campanha contra os “pardais faturadores”. Virou tema de
campanha, encarnado pelo deputado Luiz Fernando Zachia (PMDB), ganhando
muita repercussão e simpatia na mídia nativa. Hoje, diante da crescente
carnificina nas estradas, não se fala mais em pardal faturador. Quem
está faturando são as oficinas de ferro velho e as funerárias.

Vivemos assolados por perplexidades inúteis. Meu Deus, quantas mortes
no trânsito! Quando isso vai parar? Vai parar (ou diminuir), como parou
(diminuiu) em outros países que adotaram uma rígida legislação de
trânsito e não tiveram contra si campanhas midiáticas criticando a
“fúria arrecadatória” e punitiva do Estado. Quem viaja pelas estradas do
Rio Grande do Sul tem a oportunidade de assistir a regulares
demonstrações de imprudência e irresponsabilidade. Ultrapassagens em
lugares proibidos, excesso de velocidade, pneus carecas, etc. O cardápio
do terror é variado. Muitas vezes, são os mesmos homens e mulheres de
bens que, mais tarde, já em suas casas (quando chegam) manifestam toda
sua indignação contra a corrupção dos políticos e contra a decadência de
valores morais.

A hipocrisia tem vários braços. As mesmas empresas de comunicação que
faturam milhões de reais todos os anos em publicidade de automóveis,
que saúdam as fábricas de automóveis como expressão da modernidade, que
não fazem uma campanha sequer valorizando a importância do transporte
público (a não ser em anos eleitorais para retomar a eterna promessa do
metrô) em detrimento do transporte individual, lançam periodicamente
campanhas de conscientização para os motoristas. E as mortes seguem
acontecendo, denunciando a inutilidade e o fracasso desse tipo de
programa. O número de veículos individuais nas cidades não pára de
crescer. Jornais, rádios e TVs seguem faturando seus milhões em
publicidade e, volta e meia, quando o número de mortos “sobe demais”,
publicam um editorial de alerta e preparam uma nova campanha. Enquanto
isso, a violência no trânsito custa R$ 28 bilhões por ano ao país. Isso
para não falar do “custo” em vidas, que é incalculável. É uma indústria
da morte, mais uma, que se apresenta como expressão de desejo, potência e
poder. Para derrotá-la, será preciso muito mais do que repetir
perplexidades inúteis.

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Sem categoria

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s