Correrias e Copa

Buenas pessoal!
Ando sumido aqui do Spaces, mas o tempo ultimamente está bem corrido. Mas sem me incomodar com isso.
Trabalhar quase 60 horas semanais como tenho trabalhado ultimamente não é moleza…
E é a primeira Copa do Mundo que acontece e que estou trabalhando, e isso pra mim é um conquista importantes, das últimas três Copas eu estava sem trabalho…
E ontem, após mais uma vitória brasileira, o técnico Dunga deu umas alfinetadas violentas em um jornalista da TV Rio (Globo). Isso deu mais repercussão do que a vitória convincente contra Costa do Marfim e a consequente classificação para as oitavas-de-final.
Mas daí tem uma coisa: a imprensa pode xingar um treinador, mas o treinador xingar a imprensa é atentar contra a "liberdade de expressão"… assim até eu viro jornalista né?
E na Copa surgem comentários sobre diversos assuntos que a gente nem imagina…
Posto aqui um artigo do jornalista Azenha sobre alguns comentários racistas que surgiram de "comentaristas" durante a Copa.

E depois ainda dizem que Dunga é o “atrasado”

por Luiz Carlos Azenha

“O negro é cientificamente mais forte”, disse um ilustre
comentarista, em tom de elogio, a respeito da seleção da Costa do
Marfim. Um narrador chegou a sugerir que sobra força física mas falta
inteligência aos times “africanos”, razão que estaria na base do suposto
fracasso das seleções do continente em avançar para a segunda fase.
Bem-vindos à cobertura da Copa do Mundo da África do Sul.

Curiosamente, nos dois casos, provavelmente sem saber os
“profissionais” reproduziram teorias cujo objetivo era fornecer
justificativa intelectual para a ocupação física da África pelo
colonialismo europeu.

Resumindo grosseiramente, essas teorias pregavam a superioridade natural
dos europeus brancos sobre os nativos, que seriam “fortes”, mas
“preguiçosos”, “lascivos” e “intelectualmente inferiores”. Essas
constatações serviam, naturalmente, para justificar as ações europeias
na África: o controle das terras, dos recursos naturais e a utilização
dos negros “fortes” como mão-de-obra escrava ou semi-escrava.
Justificavam, inclusive, o controle das rebeliões da mão-de-obra com o
uso de métodos violentos (no Congo, os agentes do rei belga Leopoldo
cortavam as mãos dos trabalhadores que não cumpriam as cotas de extração
de borracha natural).

Os negros, afinal, não eram apenas atrasados. Eram bárbaros,
representavam com sua “lascividade” uma ameaça física às mulheres
brancas, símbolo máximo da “pureza” da civilização europeia,
especialmente na era vitoriana. Vem daí o mito do superpoder sexual dos
homens negros (assim como, na Segunda Guerra Mundial, a propaganda
americana espalhou o mito de que os orientais são sexualmente pouco
dotados em termos de centimetragem).

Para justificar a barbárie, surgiram pseudociências como a
frenologia, que pretendia comprovar que as características de um ser
humano podiam ser definidas pelas formas da cabeça. Os “cientistas”
passaram a se dedicar, por exemplo, a medir o tamanho da cabeça de
brancos e negros, encontrando nestes desenhos cerebrais que eram “prova
definitiva” de sua inferioridade. Quando os alemães ocuparam as terras
do povo herero, no que hoje é a Namíbia, por exemplo, provocaram uma
rebelião que foi esmagada com uma guerra de extermínio e a implantação
de campos de concentração para a população civil. Destes campos sairam
dezenas de cabeças de prisioneiros mortos, remetidas para a Alemanha
para “estudos científicos”.

Assim como os campos de concentração foram primeiro implantados na
África (pelos britânicos, na guerra contra os bôer, pelo controle do que
hoje é a África do Sul), as teorias que mais tarde seriam aplicadas por
Josef Mengele em Auschwitz foram “testadas” pelo pai da eugenia, o
médico e antropólogo alemão Eugen Fischer, na África.

Dizer, hoje em dia, que todos os africanos são fortes a partir do
exemplo de 11 jogadores da seleção da Costa do Marfim é o mesmo que
presumir que todos os estadunidenses são gigantes a partir da observação
de um jogo de basquete entre os Lakers e os Celtics. Embora os
brasileiros dominem há anos as competições de vôlei masculino, não há
nenhuma razão para acreditar que sejamos “naturalmente dotados” para a
prática do vôlei.

O que os nossos comentaristas, narradores e “jornalistas” deveriam se
perguntar é razoavelmente óbvio: por que a seleção da Costa do Marfim é
musculosa assim? Será que os africanos nascem com aqueles biceps e
triceps “naturalmente” desenvolvidos?

Talvez eles encontrassem explicação no fato de que os jovens
jogadores de futebol de alguns países da África — Camarões, Gana e Costa
do Marfim, por exemplo — mal fazem estágio em equipes locais antes de
ir para a Europa. Muitos destes jogadores são recrutados na
pré-adolescência por caça-talentos que servem a escolinhas de formação
de jogadores. No caso de Costa do Marfim, por exemplo, a escolinha mais
importante do país vende um jogador jovem (18 a 21 anos de idade) para
times de segunda ou terceira divisão da Europa por cerca de 600 mil
dólares. Como o contato físico no futebol europeu é tido como uma
característica do jogo, é apenas natural que tantos os preparadores
quanto os próprios atletas trabalhem para “bombar” o físico. Não é
diferente com jogadores brasileiros (vide a transformação física do
Ronaldo, por exemplo). Muitas vezes um bom jogador brasileiro, como o
Neymar, é tido como “muito franzino” para enfrentar o rigor do futebol
europeu. E tome musculação, para não falar em hormônios e outros métodos
clandestinos.

Pessoalmente acredito que essa é uma tendência suicida para o futebol
arte: a produção em massa, em todo o mundo, de super-atletas destinados
a suprir as necessidades de mão-de-obra das ligas europeias, jovens
precocemente “bombados” e com pouco domínio dos fundamentos básicos do
futebol (notem a qualidade bisonha dos chutes a gol na Copa do Mundo da
África do Sul). Mas isso é outro assunto.

O que espanta, mesmo, é ver gente com alto poder de influência sobre o
grande público repetir, em pleno século 21, preconceitos que nasceram
de teorias racistas do século 19. São, afinal, apenas dois séculos de
atraso.

PS: Em seu notável “The Lords of Human Kind”, em que
trata especialmente da expansão imperialista, o historiador V. G.
Kiernan nota com sarcasmo que os indígenas das Américas não entenderam,
para seu próprio bem, que era “vantajoso” para eles o trabalho escravo
nas propriedades dos brancos recém-chegados; razão pela qual foram
dizimados e substituídos pelos escravizados negros, trazidos de outro
continente, que distantes de suas culturas, seus povos e suas famílias
não tinham para onde correr. Foi o mesmo princípio que guiou a
importação de mão-de-obra chinesa para construir ferrovias britânicas na
África do Sul ou mão-de-obra indiana para as lavouras de cana de açúcar
na região de Durban (os coolies, de triste memória): longe de casa, os
trabalhadores ficavam completamente à mercê dos patrões.

——

Boa semana para todos, prometo colocar esta estrovenga aqui funcionar mais frequentemente…

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