A nova Direita

Publico aqui, artigo do jornalista Leandro Fortes, do blog "Brasília, eu vi" (http://brasiliaeuvi.wordpress.com/2010/05/24/a-nova-direita/)
Espero que gostem

A
NOVA DIREITA

Por Leandro Fortes, do blog Brasília,
eu vi
.
Três eventos
distintos, separados em períodos esparsos, definiram nos últimos meses o
arrazoado doutrinário e os modos da nova direita brasileira, remodelada
em forma e conteúdo, mas não nas intenções, como era de se esperar.
Aterrissaram em sua pista dourada intelectuais do calibre de Fernando
Gabeira, Ferreira Gullar, Nelson Motta e Arnaldo Jabor, grupo ao qual se
agregou, para estupefação do humor, o humorista Marcelo Madureira, do
abismal Casseta & Planeta. Essa nova direita, cheia de cristãos
novos e comunistas arrependidos tem no DNA um instinto de sobrevivência
mais pragmático, gestado nos verdadeiros interesses em jogo, não mais na
espuma do gosto popular. Não por outra razão, se ancora menos na ação
parlamentar e mais na mídia, onde mantém brigadas de colunistas, e onde
também atua, nas redações, de cima para baixo, de modo a estabelecer um
padrão único de abordagem sobre os temas que lhe dizem respeito:
dinheiro, liberdade irrestrita de negócios, dominação de classe,
individualismo, acúmulo de riqueza e concentração fundiária.
Os três eventos aos
quais me refiro causaram um razoável revertério na estratégia de
comunicação social bolada por esse grupo neoconservador tupiniquim
montado na rabeira da história dos neocons americanos. Senão, vejamos:
A surpreendente confissão de
Maria Judith Brito, presidente da Associação Nacional dos Jornais (ANJ)

“A
liberdade de imprensa é um bem maior que não deve ser limitado. A esse
direito geral, o contraponto é sempre a questão da responsabilidade dos
meios de comunicação. E, obviamente, esses meios de comunicação estão
fazendo de fato a posição oposicionista deste país, já que a oposição
está profundamente fragilizada. E esse papel de oposição, de
investigação, sem dúvida nenhuma incomoda sobremaneira o governo.”
Judith, autora da
fala acima, primeira mulher a assumir a presidência da ANJ, é
diretora-superintendente do Grupo Folha da Manhã, responsável pela
publicação do diário “Folha de S.Paulo”. Disse o que disse porque, como
chefe da entidade, tinha como certo de que não haveria outra
interpretação, senão à dos editoriais dos jornais que representa, todos
favoráveis ao papel da imprensa anunciado por ela. Em suma, Judith
Brito, embora não seja jornalista, representa bem um dos piores vícios
da categoria, sobretudo no que diz respeito à cobertura política: falar
exclusivamente para si e para os seus pares de ofício, prisioneira em um
círculo de giz no qual repórteres escrevem para outros repórteres,
certos de que uns irão repercutir os outros, escravos de uma fantasia
jornalística alheia à realidade do mundo digital que está no cerne, por e
xemplo, da decadência e no descrédito dos jornais impressos – não por
acaso, fonte do poder e da autoridade de Judith Brito.
O
acordo nuclear com o Irã, capitaneado por Luiz Inácio Lula da Silva e
pelo primeiro-ministro da Turquia, Recep Tayyip Erdogan
O sucesso da
diplomacia brasileira nesse episódio criou um paradigma de atuação
profissional do Itamaraty até então considerado impossível. De forma
pacífica e disciplinada, a operação que resultou no acordo foi conduzida
com extrema leveza, a caminhar sobre os ovos de aves agourentas
distintas que se odeiam desde as primeiras luzes. Incorporou à biografia
de Lula essa aura dos que lutam pela paz, requisito fundamental para a
seleção dos premiados do Prêmio Nobel da Paz. Mas, antes que isso
aconteça, a mídia brasileira vai finalmente descobrir que o milionário
Alfred Nobel inventou a dinamite.
O resultado concretamente político
dessa ação no Oriente Médio, apesar da bem sucedida pressão da
extrema-direita americana sobre Barack Obama a favor de sanções contra o
Irã, foi a desconstrução do discurso conservador da diplomacia
brasileira, todo ele montado sobre as teses de alinhamento automático
aos Estados Unidos, reação acrítica de atos de barbárie cometidos por
Estados ocidentais e a submissão pura e simples às regras financeiras
ditadas pelas nações ricas. Nesse aspecto, a história do chanceler Celso
Amorim será extremamente mais relevante do que a de seus antecessores,
torcedores vibrantes pelo fracasso do ministro com ampla visibilidade
nas matérias e programas de entrevista da velha mídia nacional. Entre
eles, Celso Lafer, o ministro das Relações Exteriores de FHC que acatou a
ordem de tirar os sapatos no aeroporto de Washi ngton, em 2002, para
entrar nos EUA. Agora, Lafer acusa Lula de ter montado um palanque
eleitoral no Itamaraty e encabeça a turma de ressentidos com a nova
imagem do órgão, incomodado com a natural comparação entre tempos tão
próximos. A ele se juntaram os diplomatas Sérgio Amaral, ex-porta-voz de
FHC, e Rubens Barbosa, embaixador nos Estados Unidos à época em que
Lafer se entregou à cerimônia do lava-pés da alfândega americana.
Também perfilado com
eles está Luiz Felipe Lampreia, que odiava, com razão, ser chamado de
“Lampréia”, nome de uma enguia sugadora com boca de ventosa. Isso
significa que o ex-chanceler de Fernando Henrique deve estar também
irritado com a reforma ortográfica, já que “lampréia” virou “lampreia”
mesmo. Além de secar a gestão de Amorim, Lampreia se apresenta como “um
dos 100 melhores palestrantes do Brasil” no site “palestrantes.org”.
Justiça seja feita, trata-se de uma lista plural e, aparentemente,
preparada a partir de parâmetros profissionais estabelecidos pelo site.
Interessante,
contudo, é descobrir que Lampreia se apresenta, entre outros títulos,
como membro dos conselhos consultivos de multinacionais e firmas de
interesse ostensivamente americanos como Coca-Cola, Unilever, Council on
Foreign Relations de Nova York, Inter-American Dialogue de Washington, e
Kissinger MC Larty Associates, escritório de consultoria política
montado pelo ex-secretário de Estado Henry Kissinger, primeiro chefe da
comissão de investigação sobre os atentados de 11 de setembro de 2001,
nomeado por George W. Bush. O outro sócio, Mack MacLarty, foi
chefe-de-gabinete de Bill Clinton, na Casa Branca. A banca de Kissinger e
MacLarty é filiada ao Council of the Americas, uma agremiação de defesa
da livre iniciativa intimamente ligada ao movimento neoliberal e
neoconservador que tanto sucesso ainda faz entre tucanos e os liberais
do DEM.
Fica fácil, portanto, de entender a birra de
Lampreia com a política sul-sul, independente dos EUA, encabeçada por
Celso Amorim. Da mesma maneira que ficou fácil entender por que, com
Amorim, passamos a nos apresentar ao mundo de cabeça erguida, apesar de
manchetes em contrário.
A adequação do Bolsa
Família ao discurso da oposição e o refortalecimento do Estado
O PSDB apelidou o
Bolsa Família de “bolsa esmola” por duas razões. A primeira, por
vingança, porque “bolsa esmola” era justamente o apelido dado pelo PT ao
programa “Bolsa Escola”, do governo Fernando Henrique Cardoso, que dava
15 reais por filho matriculado na escola, no limite de três por
família. Atingiu, entre 2001 e 2003, cerca de cinco milhões de famílias.
Era, de fato, uma merreca. A partir de 2003, o Bolsa Escola foi
incorporado ao Bolsa Família, assim como outros programa assistenciais
da confusa burocracia tucano-pefelista. Desde então, virou um programa
de transferência de renda centralizado no Ministério do Desenvolvimento
Social, condicionado à freqüência escolar e ao cuidado com a vacinação
de crianças e adolescentes. Os pagamentos variam de 22 reais a 200 reais
e beneficiam perto de 13 milhões de família, ou um quart o de todas as
famílias brasileiras. Daí, a segunda razão do apelido: despeito.
O potencial eleitoral
do Bolsa Família está intrinsecamente ligado ao poder de transferência
do prestígio e da popularidade de Lula à candidata do PT, Dilma
Rousseff. A oposição percebeu isso muito cedo, mas nada pôde fazer.
Simplesmente, não combina com a doutrina neoliberal a intervenção do
Estado de forma tão ostensiva no combate à pobreza e à miséria. Além
disso, o movimento tectônico de classes sociais provocado pelas
intervenções estatais na economia incomoda em demasia o establishment,
trazendo para a classe média uma população até então tratada como
escória pela mesmíssima classe média. Sem falar nessa história de pobre
andar de avião e comprar geladeira.
De uma hora para outra, as
críticas ao Bolsa Família sumiram. O emblema dessa nova postura da
oposição foi a reação nervosa do candidato tucano José Serra à pergunta,
feita por um repórter da TV Brasil, sobre o futuro do Bolsa Família em
um eventual governo do PSDB. Desconfortável, Serra não consegue
responder a essa pergunta de forma direta e convincente. Jamais vai
conseguir. Confrontado, apela para o despiste, assume um comportamento
rude com os repórteres e passa a responder fazendo perguntas, um
expediente tão primário quanto constrangedor. Infelizmente, às vezes dá
resultado: a presidente da Empresa Brasileira de Comunicação, Teresa
Cruvinel, pediu desculpas (!) a Serra pela pergunta e prometeu um manual
para cobertura das eleições. Eu pergunto, então, duas coisas:

1) Será vedado aos
repórteres da EBC (TV Brasil, Agência Brasil e Rádio Nacional) perguntar
ao candidatos sobre o Bolsa Família? Sob que argumento?

2) O que fazer com o
Manual de Jornalismo da Radiobrás (atual EBC) lançado, em 12 de julho de
2006, pelo então presidente da empresa, Eugênio Bucci? Trata-se de um
livro de 245 páginas construído em dois anos de trabalho com a
participação de dezenas de grupos temáticos compostos por todos os
funcionários da estatal. Esse manual perdeu a validade? E o protocolo de
conduta da Radiobrás para eleições que ficava disponível na página da
empresa na internet? Onde está?

E eu, ingênuo, pensei
que José Serra é que devia desculpas ao repórter da EBC.

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