Duzentos anos da Argentina vistos pelo andar de baixo

Buenas pessoal!

Faz tempo que não publico nada por aqui, os mesmos motivos de sempre…
Só que neste período consegui concretizar um artigo escrito em conjunto com o colega de graduação Charles Ketzer, que estarei postando aqui amanhã. Ele foi postado no site Ijuhy.com, mas sofreu algumas edições que deixaram ele meio desconexo. Prometo que esta semana irei solucionar isso com o site.
Outra coisa que aconteceu, essa muito triste, muito triste mesmo, foi o falecimento do meu grande amigo e irmão de AKADIMIA Alessandro Mello Valadares, o Beiço, no dia 7 de maio. Casualmente eu fui à São Borja neste dia, seu enterro foi no dia seguinte. Para homenageá-lo, postarei um texto em breve, ainda me é difícil neste momento, mesmo passado uma semana de sua perda, escrever algo a seu respeito…

Mas o que postarei hoje aqui no blog é um artigo que foi publicado pelo site Carta Maior que me ajudou a esclarecer uma grande dúvida que tinha e que não foi abordada durante a minha graduação em História: o fato de quase não existirem negros na Argentina.

Acho que ajudará vocês também.

Duzentos anos da Argentina vistos pelo andar de baixo

A
historiografia tradicional construiu vários mitos ao redor do processo
da independência da Argentina. É uma narrativa repleta de silêncios e
lacunas. Nos conflitos internos e externos, os negros, os índios,
mestiços e mulatos sempre foram bucha de canhão. Em 1810, por exemplo,
havia uma paridade entre homens e mulheres negras na Argentina. Em
1822, os homens negros adultos tinham desaparecido. No primeiro censo
moderno da República Argentina, em 1868, os africanos e seus
descendentes representavam apenas 9% da população total de Buenos
Aires. Após a primeira epidemia de febre amarela, no censo de 1887,
restaram só 1,8%. O artigo é de Carlos Abel Suárez.

Carlos Abel Suárez – SinPermiso

Recordando Dora Coledesky e Ángel Fanjul

“Quando
cheguei a Córdoba, o general San Martin estava numa estância, a quatro
léguas da cidade, sempre se dizendo enfermo. Estive a visitá-lo com
outras pessoas, ele nos recebeu muito bem e conversou largamente sobre
nossa revolução. Entre outras coisas, disse: ‘Esta revolução não parece
de homens, mas de carneiros”; para prová-lo, lembrou que nesse mesmo
dia tinha vindo um dos peões da fazenda queixar-se de que o mordomo,
que era espanhol, havia lhe dado pancadas por faltas que tinha cometido
no serviço. Com isso, exclamou: ‘que parece a vocês, depois de três
anos de revolução, um maturrango se atreve a levantar a mão contra um
americano! Esta é – repetiu – uma revolução de carneiros”!

Memórias do General José María Paz

Na
América se está celebrando os 200 anos da Independência da Espanha.
Para o que hoje chamamos de República Argentina se trata da Revolução
de Maio. Exatamente em 25 de maio de 1810 começou o longo e tumultuado
processo de uma organização política autônoma da coroa espanhola. Estão
programados atos, discursos, inaugurações, notas nos jornais, ensaios e
um mercado de produtos comemorativos.

A próspera Argentina do
Centenário já conheceu estas pompas em maio de 1910. A Princesa Isabel
de Bourbon e sobrinha de Alfonso XIII, conhecida também como “a Chata”,
ou Georges Clemenceau, entre as numerosas personalidades convidadas,
desfilaram por Buenos Aires, uma das cidades do mundo que valia à pena
visitar naqueles dias de abundância, ao menos para alguns.

As
bandeirolas e o espumante não foram compartilhados por todos. Os
anarquistas tinha convocado uma greve geral em protesto contra a brutal
e sistemática repressão desencadeada um ano anos, desde a manifestação
do 1° de Maio de 1909. Nas vésperas do Centenário, o Congresso decretou
o estado de sítio, em 13 de maio. A medida não deteve os “grupelhos”
dos senhorios ultranacionalistas que assaltaram, destruíram e
incendiaram as gráficas de La Vanguardia e La Protesta,
os jornais socialista e anarquista. Essas gangues foram protegidas pelo
chefe de Polícia, o então coronel Dellepiane que, já como general com
maior experiência, dirigiu mais tarde a repressão na chamada Semana
Trágica de 1919. Retornando às crônicas dos atos não previstos no
protocolo do Centenário, a política chegava aos locais quando as chamas
já haviam feito seu trabalho, e contam que, quando entraram no local
que antes fora a gráfica do La Vanguardia, encontraram seu diretor, Juan B. Justo, que detiveram para averiguação de antecedentes criminais.

Esses
“grupelhos”, que ao longo da história argentina tomaram outros nomes –
Liga Patriótica, Alianza Nacionalista, CNU ou Triple A, etc – não se
limitaram a atacar às imprensas socialistas ou anarquistas. Aos gritos
de “Viva a Pátria, viva a Polícia”, assaltaram e incendiaram o circo
popular de Frank Brown, o palhaço da cidade, atacando com particular
sanha os judeus e os centros culturais de outros imigrantes (que nesses
dias superavam 40% dos habitantes da cidade de Buenos Aires) e várias
escolas identificadas com o laicismo. Em 27 de maio de 1910, como chave
de ouro dos festejos pátrios, o Congresso votou a Lei de Defesa Social,
que ampliava e aprofundava a bestial Lei de Residência, a 4144, pela
qual se podia expulsar do país qualquer estrangeiro que perturbasse a
segurança nacional ou a ordem pública. Esta lei racista esteve em vigor
durante grande parte do século XX. Foi derrogada há pouco, por Arturo
Frondizi, em julho de 1958, em parte porque já havia instrumentos
repressivos mais eficientes, como a Commoción Interior ou o Plano
Conintes, que foram maciçamente aplicados.

Mas voltemos ao
princípio. A historiografia tradicional construiu vários mitos ao redor
do processo da independência. Necessários, por certo, para maquiar as
origens das classes dominantes, que além de algumas poucas baixas,
manteve sua hegemonia durante esses 200 anos. Classe dominante com
instantes fugazes de assumir o papel de uma classe dirigente. De todo
modo, seus fantasmas se podem encontrar nos homens das ruas,
especialmente nas da cidade de Buenos Aires.

A propósito do
Bicentenário se reciclam velhas polêmicas e se instalam outras, porque,
como advertia o grande historiador britânico Edward H. Carr: “a
história é um diálogo sem fim entre o presente e o passado”. De modo
que a revolução de Maio e a Independência podem nos dar algumas pistas
de como chegamos até aqui. Porque, embora com todas as desventuras e
desigualdades galopantes das últimas décadas, o que se tornou a
República Argentina ainda figura no pelotão que encabeça o índice de
Desenvolvimento Humano da ONU.

Historiadores de todas as
correntes corroboram, com bons argumentos, o processo que começou no
Vice-reinado do Rio da Prata em maio de 1810, com o antecedente da
reconquista das invasões inglesas, em 1806 e 1807, como parte do mesmo
fenômeno independentista que tomou conta de toda a América Hispânica
nesses mesmos anos. Sem embargo, foram as particularidades que
determinaram o rumo definitivo de cada região e de cada país, inclusive
do Brasil, na geopolítica do capitalismo do século XIX (Ver entrevista com Tulio Halperín Donghi).

Ainda
restam cinzas dos debates apaixonados sobre o caráter da revolução
independentista. Na tradição da esquerda, muitos foram os que buscaram
adaptar os conhecimentos e os atores aos esquemas de um marxismo
simplificado, quando não tergiversado. Havia de se demonstrar o caráter
“democrático-burguês” da Revolução de Maio. Assim, batizou-se como
“jacobino” a Mariano Moreno, José Castelli e Bernardo Monteagudo, entre
outros, não pelas relações sociais e pelas idéias que expressavam, mas
pela necessidade de uma história de acordo com esse esquema
supostamente clássico, sem importar a sincronia dos acontecimentos.

No
caso de Robespierre praticaram sem recato a falsificação histórica que
o qualificou como o sanguinário da Revolução Francesa, uma espécie de
terrorista de Estado (1). E nessa comparação se catalogou a Moreno e a
Castelli, por não terem hesitado em exercer a violência e os
fuzilamentos contra seus adversários. Com efeito, essa leitura de
segunda ou terceira mão da Revolução Francesa levou algumas autores,
como hoje a seus seguidores, a ficarem com a idéia de que a Revolução
Francesa nada mais foi do que uma clássica “revolução burguesa”. E aqui
se dividem as opiniões, entre quem afirma o caráter
“democrático-burguês” do 25 de Maio, dado o seu caráter popular,
buscando os sans-culottes crioulos e aqueles que rechaçam essa idéia,
que sustentam que não havia burguesia local capaz de assumir essas
tarefas. As duas versões, porém, coincidem na ignorância de que o ódio
que Robespierre despertou, a demolição e demonização de seu papel,
enfim, pelo que perdeu sua cabeça na guilhotinha, deveu-se à defesa
sustentada por ele da abolição da escravatura nas colônias; e o
programa dos jacobinos que representava a plebe, o povo simples.

“De
todos os direitos, o primeiro é o de existir. Para tanto, a primeira
lei social é aquela que garantiria a todos os membros da sociedade os
meios para existir. Todas as demais leis estão subordinadas a esta lei
social”
(2), é por causa da defesa dessas idéias que Robespierre foi difamado.

Por
sua parte, Moreno, advogado de Martin de Álzaga, o principal traficante
de escravos do Rio da Prata, foi o autor da “Representação dos
fazendeiros”, ou seja, um militante consequente e tenaz do livre
comércio, de pôr o fim no monopólio comercial que atava Buenos Aires ao
Reino de Espanha. Moreno, ademais, segundo Vicente Fidel López, era um
“católico exagerado, que chegava à devoção de passar semanas em
exercícios espirituais, dando chicotadas em si mesmo”. Há que forçar em
demasia para encaixá-lo no retrato dos jacobinos.

Contudo, a
geração da Independência – Moreno, Castelli, Belgrano, San Martin e
outros – sequer chegaram a se pronunciar pela República e defendiam o
livre comércio. Em consequência, mantiveram a bússola orientada para
Londres, a meca da avassaladora Revolução Industrial. Essas coisas não
merecem interesse histórico e político para os acontecimentos [e a
historicidade] da Independência e de seus protagonistas.

Foi o
peruano José Carlos Mariátegui que qualificou, já na metade do século
XX, como “falsa república” ao Peru, que se tinha constituído sob as
classes dominantes, deixando ao lado os povos originários. O conceito
podia ser aplicado a outras partes da América Latina.

Em que,
porém, o caso argentino é igual? A literatura sobre as diferenças de
civilizações que a colonização espanhola encontrou no Peru e no México,
dos territórios quase despovoados e do que mais tarde foi o
Vice-Reinado do Rio da Prata abunda.

Foi uma necessidade
especificamente geopolítica que impulsionou a idéia de instalar uma
burocracia colonial em Buenos Aires: o Vice-Reinado. Não foram os
recursos naturais e a existência de civilizações e cidades com grande
densidade de população, que os colonizadores se encarregaram
rapidamente de explorar e integrar às correntes comerciais do
capitalismo em desenvolvimento. No caso das Províncias Unidas do Sul
não é tão evidente a correspondência de seu desenvolvimento econômico,
político e social com a tese de falsas repúblicas, de Mariátegui. Falta
investigar, explorar sob a superfície dos sucessos e do movimento
social. Para isso é fundamental recorrer a importantes contribuições
acadêmicas de Halperin Donghi, Sergio Bagú, Aldo Ferrer, Alberto J.
Pla, José Luis Romero e outros que, sem ser acadêmicos, deram boas
pistas para não nos perdermos nos jardins mortos dos velhos e novos
pós-modernos.

Os negros no Rio da Prata
“Ninguém luta por uma multidão, nem se abandona a uma choradeira fúnebre perante a lápide de uma abstração”
Mike Davis

O
cirurgião Juan Caytenao Molina, um dos precursores do sanitarismo no
Rio da Prata, liderou uma das primeiras batalhas entre a saúde pública
e os interesses privados. Martín de Álzaga, como já dissemos, homem de
poder político e econômico e traficante de escravos, recebia em
Montevidéu seu barco, El Joaquín, com um carregamento de negros
procedentes de Moçambique. Molina, que estava a cargo de uma junta
sanitária que devia inspecionar os navios negreiros no porto de
Montevidéu, diagnosticou um surto de varíola que tinha provocado
numerosas mortes no El Joaquín durante a travessia, pondo a embarcação
em quarentena. Aquelas alturas, a varíola tinha provocado estragos,
especialmente entre os negros que chegavam debilitados e com imunidade
baixa – pela ausência de enfermidades no meio natural onde foram
caçados e embarcados. Álzaga rechaçou a quarentena e manobrou
judicialmente, usando seu poder econômico e sua influência política
para pôr em dúvida a competência científica de Molina. O sanitarista
aproveitou a oportunidade para replicar, embora tenha perdido sua
causa, e pôde qualificar de execrável o tráfico negreiro, recordando,
ademais, que a varíola tinha provocado a morte de quase 2000 pessoas
(principalmente escravos) em 1793, em Buenos Aires.

“Com os
progressos da produção capitalista durante o período manufatureiro, a
opinião pública da Europa perdeu os últimos vestígios de pudor e
consciência que ainda lhe restavam”
, disse bem Karl Marx, no capítulo XXIV (Sobre a Acumulação Originária) de O Capital.

Marx acrescenta que: “Em
1730, Liverpool dedicava 15 barcos ao comércio de escravos; em 1751 já
eram 53; em 1760, 64; em 1770, 96; em 1792, 132 (…). Enquanto
implantava a escravidão infantil na Inglaterra, a indústria algodoeira
servia de incentivo para converter o regime mais ou menos patriarcal de
escravidão dos EUA num sistema comercial de exploração. Em geral, a
escravidão escondida dos trabalhadores assalariados na Europa exigia,
como pedestal, a escravidão sans phrase no Novo Mundo”
(3).

Até
1739 a Real Companhia da Inglaterra, com quase cinquenta súditos
britânicos trabalhando na sucursal de Buenos Aires, tinha a quase
exclusividade do negócio negreiro no Rio da Prata. Isso é a mostra
evidente dos vínculos comerciais muito consolidados com a Inglaterra,
ainda antes da constituição do Vice-reinado, em 1776.

Os
milhares de negros que ingressam por Buenos Aires, em sua maioria não
ficam na região. Era vendidos e trasladados para trabalhar na
exploração das minas no Peru, via Chile. Ainda não havia como fazer com
que o capital se reproduzisse na planície pampeana.

Embora se
calculasse que o tempo médio de vida de um escravo fosse de 7 anos,
desde que chegava a seu destino (o qual requeria a fortaleza
sobrehumana de suportar o cativeiro na viagem), nem todas as relações
entre os proprietários e escravos eram brutais. Também houve as
relações de tipo patriarcal. Por exemplo: os padres Agostinianos
possuíam em Mendoza uma das maiores bodegas da região, onde escravos
negros e índios trabalharam durante muito tempo fabricando vasilhames
onde se transportava o vinho para outras regiões. Segundo testemunhos,
com os anos se formaram em artesões habilidosos e conseguiram, antes de
1810, condições de trabalho um pouco mais leves que as de uma linha de
montagem numa fábrica fordista. Sem falar das atuais fábricas no setor
informal de nossas economias.

Os dados sobre o número de
escravos negros que ingressarem pelo Rio da Prata não são precisos;
para alguns pesquisadores, desde a chegada dos espanhóis até 1813,
somando os que foram registrados e os contrabandeados, esse número
havia superado a casa dos 2 milhões. Tampouco estão documentados todos
os fatos que determinaram a diminuição da proporção de negros
existentes no começo do século XIX, em relação com a população local,
com a de cem anos depois.

A pesquisadora Marta Goldberg,
precursora no estudo do tráfico negreiro no Rio da Prata, estima que a
população negra constituía 18% do total, em 1774. Passou a 25% em 1778
e a 30% em 1807. Em 1810, durante a independência, uma terça parte da
população era escrava, e em Córdoba, durante esses anos, a metade era
mulata (4). Há dados que nos dão um indício do porquê que essa relação
não se manteve na composição da população argentina: enquanto que em
1810 havia uma paridade entre homens e mulheres negras, em 1822 os
homens negros adultos haviam desaparecido. No primeiro censo moderno da
República Argentina, em 1868, os africanos e seus descendentes
representavam apenas 9% da população total de Buenos Aires, e depois da
primeira epidemia de febre amarela, no censo de 1887, restaram só 1,8%.

A leva da guerra de Independência, das guerras civis e da guerra contra o Paraguai, mais as pestes tinham feito seu trabalho.

San
Martin, em Mendoza, formou toda a infantaria do Exército dos Andes com
negros, pardos e mulatos, quase todos escravos, que o Estado comprou a
seus proprietários, com bônus que dificilmente foram cancelados.

Nos
conflitos internos e externos, os negros, os índios, mestiços e mulatos
sempre foram bucha de canhão, no período colonial e posteriormente, nas
guerras independentistas e civis. À frente dessas levas, onde se
prometia liberdade ou melhores de vida esteve o conquistador Pedro de
Cevallos. Para quem lida com esse conceito tão ambíguo, o “populismo”,
este seria um dos primeiros populistas destas terras. Em 1777 Ceballos
desajolou os portugueses da estratégica cidade da costa oriental do Rio
da Prata, Colônia de Sacramento, com tropas formadas por escravos
negros e pardos. Prometeu-lhes a liberdade depois da vitória, claro.
Uma promessa que não cumpriu. Aplicou a mesma metodologia na ocupação
para a coroa espanhola de Santa Catarina, no Brasil. Outro especialista
nessas lidas foi o “herói” da Reconquista, e depois vice-rei, Santiago
de Liniers, mais tarde fuzilado por Castelli sob a acusação de
conspirar contra o primeiro governo pátrio. Liniers, segundo a crônica,
era muito popular entre os negros, em que pese ter sido um dos
negociantes com autorização da Espanha para comercializar escravos.

Durante
muitos anos os manuais escolares argentinos ensinaram que a Assembléia
do ano XIII tinha posto fim à escravidão. Mais tarde soubemos que, na
realidade, os representantes de algumas das províncias tinham decretado
o ventre livre e suprimido o tráfico de escravos. Isso significava que
o filho de uma escrava deixava de ser propriedade do amo apenas quando
chegasse à maioridade, não antes.

Essas medidas chegaram com
dois anos de atraso, pois nos territórios espanhóis, já em abril de
1811, se havia proibido o tráfico de escravos, quer dizer, não se
autorizava mais a lucrativa atividade dos navios negreiros. Mesmo
assim, as Cortes de Cádiz, em maio de 1812, estabeleceram “que todo
escravo era livre só pelo direito de pisar em território espanhol”.

Esse
critério também foi adotado aqui em Buenos Aires pela Assembléia do ano
XIII. Ainda assim se seguiu comprando e vendendo seres humanos ao menos
até logo após a entrada em vigor da Constituição de 1853. Nas sucessões
e declarações de bens figuravam os escravos como parte dos direitos de
propriedade. Também houve formas refinadas de escravidão. Por exemplo,
Rosas, que tinha escravo negros em suas fazendas, trouxe agricultores
galegos, que só se tornavam livres quando tinha pago com trabalho os
gastos de seu traslado e subsistência.

Nos necrológios pode se encontrar pérolas como esta:

“Félix
Urioste de la Campa, nascido em Santurce, senhorio de Vizcaya, Espanha,
passou pelo Rio da Prata, radicando-se na cidade de Buenos Aires; um
importante fazendeiro dos Arrecifes, membro do diretório do banco da
Província e do Banco Nacional, membro da primeira sociedade mineira,
delegado provincial para a negociação da célebre empresa da Casa Baring
Brothers, faleceu assassinado “desgraçadamente” em 27 de maio de 1835,
quando pegou de surpresa no campo cinco de seus escravos carneando uma
cabeça de gado, sem autorização. Levados a juízo, o Juiz de Paz de
Arrecifes ordenou que os acusados fossem executados".

Em
todo caso, desde a Assembléia do ano XII não houve registro do ingresso
de novos contingentes de escravos africanos. Ao contrário, o tráfico
seguiu sendo próspero nas colônias portuguesas. De acordo com alguns
estudos, só no mercado do Rio de Janeiro se havia arrematado um milhão
de escravos negros entre 1800 e 1850

Dos que viviam aqui desde tempos remotos

Em relação aos índios, a Assembléia, na seção de 12 de março de 1813 declarou extintos os tributos, a mita, as encomiendas,
o yaconazgo e o serviço pessoal. Já na metade do século XVIII essas
figuras da encomienda já haviam desaparecido, e as “missões” terminaram
com a expulsão dos jesuítas.

Quando José Castelli chegou a
Chuquisaca em 1811, editou uma proclama em castelhano e em quéchua,
onde eliminava o mayorazgo e os tributos. Essa era uma forma de pôr os
índios a favor da Junta de Buenos Aires. Os espanhóis, porém, também
usaram a mesma política, instrumentalizando uma resolução do Conselho
de Regência que beneficiava os índios. Como sempre, palavras não
honradas.

Mesmo assim, a Assembléia do ano XIII reconheceu aos
índios “como homens perfeitamente livres, em igualdade de direitos com
todos os demais cidadãos”.

Entre seus atos soberanos, a
Assembléia resolveu cunhar novas moedas de ouro e prata, abandonando os
símbolos do antigo regime das moedas anteriores, para substituí-los
pela pica e pelo gorro frígio. Segundo as crônicas da época, no ato
realizado para celebrar o terceiro aniversário da Revolução de Maio, em
consonância com o ambiente republicano que campeava na Assembléia,
aparecem as autoridades da cidade de Buenos Aires e os cidadãos e mesmo
algumas mulheres, com uma “boina vermelha”, no lugar de seus
tradicionais sombreiros. O republicanismo havia entrado na moda, mas
não convencia então a todas as cabeças.

Assim como no México e
no Peru, os colonizadores desses territórios chegaram exterminando os
povos originários que não puderam submeter. O grau de desenvolvimento
econômico e a geografia operaram para que os conquistadores ficassem
com as áreas litorâneas, até descobrirem as possibilidades a terra lhes
oferecia. Mas isto aconteceu algum tempo depois; nesse período as
tribos sobreviventes já haviam aprendido a utilidade do cavalo para
defender seus próprios territórios. Os colonizadores, que não eram
apenas burocratas ou comerciantes-contrabandistas; foram se convertendo
em estancieiros. Uma oligarquia crioula estava nascendo e, para ter um
lugarzinho no mundo, já capitalista, deveria abandonar uma economia
auto-suficiente e proceder a uma grande apropriação de terras. Não era
suficiente recolher os couros, mercadoria de exportação, que aos
milhares começaram a ser vendidos; chegava a um milhão de peças anuais
no começo do século XIX. E o negócio se amplia com a charque das carnes.

Para
expandir as fronteiras de suas propriedades e de seus negócios, essa
oligarquia nascente tinha de eliminar os índios e também o gaúcho, esse
personagem não enquadrado. Desde 1815, com toda clareza o governo
estabelece que quem não tivesse “papeleta de conchavo”, ou seja, que
não tem patrão vai preso ou se incorpora às fazendas, por um tempo
indefinido. Acabou aquela coisa de andar cavalgando livremente, comendo
e coureando vacas para viver. Os campos, as vacas, os cavalos e os
alagados têm de ter proprietários.

O grande empreendimento de
ampliar o domínio sobre a planície pampeana, desalojando os povos
originários, começou com Juan Manuel Rosas em 1833 e culminou com Julio
Roca, nos 80. Os procedimentos, a hipocrisia, o grau de brutalidade e
as justificações não diferem em demasia dos processos de dominação
territorial na América do Norte e em outras partes.

Os exércitos
de ocupação se formavam com as levas de trabalhadores forçados. Uma
ordem firmada por Rosas em 1831 estabelecia que cada partido devia
enviar a cada 15 dias dois escolhidos entre os “homens prejudiciais por
sua conduta e sem nenhuma ocupação”. (5)

Em "La Hidra de la
revolución" [A Medusa da Revolução], o estupendo livro de Peter
Linebaugh e Marcus Rediker (6), demonstra-se como o capitalismo
universalizou os métodos de submissão. Também encontramos um paralelo
nas formas também universais da resistência e da rebelião.

Em
muito poucas décadas, a perversidade do capital exterminou os onas ou
selk ‘nam, que tinham levado uns 12 000 anos para chegar do estreito de
Bering até a Ilha Grande da Terra do Fogo, onde pensaram que tinham
encontrado seu lugar no mundo. Nos últimos anos do século XIX foram
exterminados, de maneira planejada, por alguns recém chegados. Primeiro
pagavam por uma orelha, mas quando os pagadores advertiram que alguns
índios andavam sem orelhas, tinha de se levar toda a cabeça para
receber o pagamento.

E esses genocídios, escamoteados ou
banalizados no relato oficial da história argentina, não terminaram com
a entrada no século XX.

Em 19 de julho de 1924, na localidade
chaqueña [relativa a Chaco, no norte da Argentina] de Napalpi, tropas
do exército e da polícia atacaram o acampamento El Aguará, onde quase
um milhão de tobas, mocovies e campesinos brancos correntinos resistiam
ao acosso dos latifundiários locais. O massacre no então território
nacional do Chaco foi recentemente denunciada em 1987, na Fundação Juan
B. Justo, durante uma coletiva de imprensa de que participaram o
pesquisador José Picciuolo Valls e o historiador e jornalista Emilio J.
Corbière.

Quando os tobas da região se deram conta da
importância do cavalo, dominaram outras etnias chaqueñas e ofereceram
resistência aos colonizadores, até que foram derrotados militarmente na
segunda metade do século XIX. As melhores terras foram repartidas entre
as classes dominantes, os triunfadores; os índios foram reduzidos às
“reservas”. Qual foi o motivo da matança de 1924? Os índios começaram a
trabalhar nas terras que lhes deixaram, numa economia de subsistência,
negando-se a trabalhar para os latifundiários que cercaram seus antigos
territórios. Segundo Picciulo, a resistência não teve uma
característica religiosa de tipo “messiânico”. Os latifundiários
asseguraram que essa economia de subsistência era um “foco” subversivo
e convenceram o governador, Fernando Centeno, que era preciso
exterminá-los. Assassinaram a todos e, como troféus de guerra, cortaram
orelhas, testículos e pênis, que depois foram exibidos como mostra de
patriotismo na localidade próxima a Quitilipi.

Os métodos
primitivos do governador Centeno (delegado do governo radical de
Marcelo T. de Alvear) e dos latifundiários chaqueños não tinham a
paciência britânica nem a potência da revolução industrial nas costas,
para cercar os campos e “persuadir” os índios a respeito da necessidade
de trabalhar. Por exemplo, em 1785, o escritor britânico William
Towsend fundava sua crítica ao sistema de ajuda aos pobres nos
seguintes termos:

“A fome pode amansar até os animais mais
ferozes e tornar decentes e famigerados, submissos e obedientes, até os
mais perversos. Comumente o único que pode induzí-los e estimulá-los ao
trabalho é a fome; mas…eis que nossas leis estabeleceram que eles
nunca passarão fome. Mas temos de admitir também que, por outro lado,
as leis dizem que poder-se-á obrigá-los a trabalhar; só que esse
recurso à força legal acarreta muitas dificuldades, violência e
escândalo: origina má vontade e não pode jamais fazer render um
trabalho bom e aceitável. A forme, ao contrário, não só é uma questão
pacífica, silenciosa, implacável; senão que, sendo o mais natural dos
motivos que há para pôr-se a trabalhar, consegue produzir os mais
vigorosos rendimentos, além de que, uma vez que os famintos se
satisfaçam graças à liberdade alheia, resta neles uma semente
perdurável e segura de boa vontade e gratidão” (7).

A classe
dominante argentina, contudo, insiste em seus métodos. Um documentário
que estreou no último Festival Internacional de Buenos Aires (BAFICI,
2010), "Octubre Pilagá, Relatos sobre el silencio", dirigido por
Valeria Mapelman, resgata outro massacre similiar ao de Napalpi,
ocorrido 23 anos depois desse, em pleno apogeu do mercado interno e da
indústria substitutiva de exportações.

A algumas centenas de
quilômetros ao norte de Napalpi, num lugar chamado Rincón Bomba,
próximo a Las Lomitas, em Formosa, há sobreviventes que podem contar o
que aconteceu. Em outubro de 1947, durante o primeiro governo Perón,
uns 2000 pilagás haviam se reunido para escutar a um líder carismático.
Antes, a comunidade tinha formulado uma série de demandas às
autoridades locais. No filme, os sobreviventes contam os horrores
vividos naquela tarde daquele 10 de outubro, em que começou o
fuzilamento levado a cabo pela polícia, uma matança que não poupou nem
velhos nem crianças, nem as mulheres se salvaram das violações que
estão nos manuais dos escritos dos exércitos de ocupação de todos os
tempos. Por vários dias continuaram buscando e matando a todos os que
tinham escapado, com o propósito de não deixar um só testemunho. Disso
se faz a transcendência desse documentário que põe luz sobre estes
fatos até agora ocultos.

Por outro lado, a coincidência nas
formas religiosas em que se expressam os protestos e a rebeldia, em
Napalpi e dos pilagá, não é uma novidade. Como Linebaugh e Rediker o
recordam muito bem, com dezenas de exemplos, as dezenas de rebeliões de
todos os proscritos da terra, o que nos remete também ao incomparável
relato de Euclides da Cunha, nos Sertões, sobre a guerra de Canudos.

(1)
Ver Joaquín Miras, 2005; em Republicanismo Y Democracia, María Julia
Bertomeu et all, (Buenos Aires, Miño y Dávila); também Antoni Domènech,
El eclipse de la fraternidad: una visión republicana da tradición
socialista (Barcelona, Crítica, 2004).

(2) Citado por Daniel Raventós, em Las condiciones materiales de la libertad (Barcelona, El Viejo Topo, 2007).

(3) Karl Marx, O Capital, Tomo I, cap. XXIV (Buenos Aires, Cartago, 1969).

(4)
Marta Goldberg, “La población negra y mulata de la ciudad de Buenos
Aires, 1810-1840” (Buenos Aires, Desarrollo Económico, Vol. 6 n.61,
1976).

(5) Citado por Luis Franco, De Rosas a Mitre (Buenos Aires, Astral, 1966).

(6)
Peter Linebaugh e Marcus Rediker, La Hidra de la Revolución; Marineros,
esclavos y campesinos en la historia oculta del Atlántico (Barcelona,
Crítica, 2005).

(7) Citado por Edward H. Caar, La Nueva Sociedad (México, FCE, 1969).

Carlos Abel Suárez é membro do comitê de redação de SinPermiso

Tradução: Katarina Peixoto

Fotos: Trabalhadores rebeldes da Patagônia identificados pela polícia (Autor desconhecido)

———-
Um bom domingo a todos

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Informação

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s