Queima de arquivo?

Sexta-feira que passou foi assassinado em Porto Alegre, na saída de um culto evangélico, o secretário de Saúde de Porto Alegre, Eliseu Santos. Eliseu já foi deputado estadual e vice-prefeito de Porto Alegre anteriormente. E, coincidentemente, foi assassinado um dia após depor na Polícia Federal, que investiga desvio de dinheiro do Programa Saúde da Família em Porto Alegre. Segundo algumas fontes, esse valor é de aproximadamente 9,5 milhões de reais. No ano passado ele já havia estado envolvido em outra polêmica na Secretaria de Saúde, e vinha recebendo ameaças de morte desde então. Por isso o fato de, na noite de seu assassinato, estar armado e reagir à investida de seus executores.
O estranho nisso tudo é nossa mídia guasca já encerrar o assunto dizendo que se tratava de latrocínio (roubo seguido de morte). Ora, mas não roubaram nada material dele, então como vem com esse papo?

A empresa Reação, que prestava serviço de segurança para a Secretaria
da Saúde, denunciou que o ex-coordenador da assessoria jurídica da
Secretaria, Marco Antônio de Souza Bernardes, do PTB, teria exigido
dinheiro para prorrogar o contrato com a empresa. Segundo o diretor
administrativo da empresa, Renato Mello, Bernardes teria cobrado, em
nome do secretário Eliseu Santos, valores entre R$ 10 mil e R$ 30 mil,
dinheiro que seria utilizado na campanha do secretário a deputado
federal. Bernardes negou as acusações, mas foi exonerado logo após a
denúncia. O secretário Eliseu Santos também negou, dizendo que iria
processar criminalmente quem tivesse usado seu nome para “justificar
uma falcatrua”.
(Fonte: RS Urgente)

Reproduzo abaixo artigo de Adão Paiani, também publicado no RS Urgente:

Chicago, RS

Longe do Rio Grande, a notícia da execução do Secretário de Saúde de
Porto Alegre, ex-Vice Prefeito da capital dos gaúchos, Eliseu Santos,
choca, mas não surpreende. É somente mais um episódio de uma saga que
vem assolando o Estado de forma avassaladora; em especial nos últimos
quatro anos. Um desdobramento natural de tudo aquilo que temos
presenciado e que muitos têm procurado alertar às cabeças ainda
pensantes dessa terra, sem grande sucesso. Pelo menos por enquanto.

Uma coisa é certa: nunca, em momento algum da nossa história, os
gaúchos puderam presenciar situações tão desavergonhadamente explícitas
de banditismo político como as que vemos agora. Sejamos francos;
ninguém, em sã consciência, pode ter a pretensão de encontrar, para o
mais recente assassinato, outro motivo que não seja um acerto de contas
típico de quadrilhas mafiosas; como as que assolavam Chicago, nos anos
30 do século passado. E a analogia não se resume a isso.

Vivemos um processo acelerado de degradação político-institucional
que atacou as estruturas do Estado, através de uma quadrilha
especializada e constituída empresarialmente para saquear os cofres
públicos e que, consciente da impunidade, garantida pela extensa rede
de relacionamento de seus agentes; hoje dá as cartas no Rio Grande. E
não se preocupa mais em blefar.

Essa quadrilha, da qual fazem parte elementos facilmente
identificados; onipresentes nas diferentes esferas de poder e em todos
os episódios de sangria dos cofres públicos, denunciados nos últimos
anos, têm a seu favor uma bem calculada morosidade na ação daqueles a
quem caberia coibir esse tipo de prática.

Contam também com a apatia de parcela significativa da população,
anestesiada por uma mídia cúmplice, que comprova seu grau de
infiltração tentacular e invasiva. Uma verdadeira cleptocracia; com a
qual poucos segmentos da sociedade riograndense não estão
comprometidos. Essa é a realidade, a qual somente poderá ser superada
na medida em que compreendermos seus mecanismos e, a partir daí, a
combatermos.

As balas que vararam o corpo do Secretário da Saúde de Porto Alegre,
na saída de uma Igreja, na frente de sua mulher e filha, são a versão
cruenta de outras que tem atravessado, impunemente, o que resta da
consciência cívica de um povo. Seja sob a forma de uma CPI da
Corrupção, impedida de apurar denúncias graves de desvios de dinheiro
público; na manutenção e prestigiamento, dentro da administração
pública, de agentes notoriamente envolvidos com irregularidades e na
impunidade generalizada observada em todas essas situações.

O crime da Rua Hoffmann somente se concebe num ambiente em que todos
os limites foram ultrapassados. Onde se presencia a lentidão de uma
Justiça em julgar e responsabilizar as aves de rapina do erário, que
mesmo denunciados, continuam a flanar, solenes, tanto em cerimônias
públicas quanto nas colunas sociais.

Onde dirigente de instituição financeira pública, apontado por
irregularidades, aguarda o salvo conduto de uma indicação a vaga de
Magistrado. Onde as estruturas da segurança pública são utilizadas com
finalidades políticas, monitorando, perseguindo e coagindo tanto
aliados de ocasião como adversários políticos. Onde as ações
legislativas são pautadas pela cumplicidade com aqueles a quem deveria
fiscalizar; e por uma covardia explícita, somente justificada pelo medo
dos próprios pecados praticados.

Onde o dirigente máximo de Tribunal responsável por fiscalizar as
contas do Estado, flagrado em conversas indecentemente comprometedoras,
sai ileso para a aposentadoria. Onde membro do Legislativo, indicado ao
mesmo Tribunal; mesmo tendo demonstrado tanto absoluta incapacidade
técnica quanto falta de condições morais para tal, assume vaga de
Consiglieri da mesma corte. Tutti in Famiglia.

Somente em um canto de mundo onde coisas assim sejam possíveis é que
se admite o assassinato, em via pública de grande movimento, mesmo
naquele horário, de uma autoridade. Somente a certeza absoluta de
impunidade é capaz de justificar ato tão audacioso.

Às vésperas de um processo eleitoral, o que se espera, mais do que
promessas vãs, típicas da politicagem tradicional, é quem vai ter a
coragem suficiente de enfrentar e derrotar esse establishment criminoso
e resgatar ao menos o pouco da vergonha que ainda nos resta. Sem o que,
vamos continuar com a notória fanfarronice gaudéria, decantando nossas
duvidosas virtudes, vestindo nossas pilchas esfarrapadas.

Ou encontramos alguém com coragem suficiente de ser nosso Eliot
Ness, ou é melhor nos acostumarmos com execuções em via pública,
restaurantes, barbearias. Como na Chicago de Al Capone.

————————————
Boa semana para todos!

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