Os arquivos do mal

Olá, transcrevo aqui no blog artigo do jornalista Fávio Tavares:

Os arquivos do mal, por Flávio Tavares*

A
Argentina sempre nos antecedeu em termos políticos. Os argentinos
conquistaram a independência em 1810, nós em 1822. Tentaram a
democracia republicana antes de nós e, nela, tiveram caudilhos e
mandões antes de nós. Precoces, viveram sob ditaduras antes de nós.

Após
os anos 1960-80 (em que o militarismo de direita vicejou no continente
sob auspício e proteção de Washington), o triunfo de Raul Alfonsín na
eleição presidencial de 1983 fez a Argentina aparecer à frente da onda
de redemocratização da América Latina. Aqui, só em 1986 tivemos governo
civil e, mesmo assim, sob as injunções da eleição indireta.

Até
a organização social e urbana lá começou antes. No século 19, Córdoba
fez a reforma universitária e instituiu o ensino público. Buenos Aires
já era metrópole madura, com trem subterrâneo e telefones, cem anos
atrás, quando Rio e São Paulo eram apenas imensas aldeias.

Agora, a Argentina abriu oficialmente os arquivos das Forças Armadas e policiais
durante os anos da ditadura militar
concluída em 1983.

***

Enquanto,
no Brasil, o governo nos condena a desconhecer a História e ignorar a
verdade dos 21 anos ditatoriais, na Argentina tudo se abre ao público
pela terceira vez.

Em 1985, no julgamento dos generais,
almirantes e brigadeiros das Juntas Militares, 2 mil testemunhas (dos
sobreviventes aos carrascos) reconstituíram o horror dos campos de
extermínio, onde “desapareceram” 25 mil presos políticos. Assisti como
jornalista a todas as audiências do juízo, que levou o general Jorge
Videla e o almirante Emílio Massera à prisão perpétua, com penas
menores a outros três oficiais. Esse arquivo vivo tornou presente o
horror pela primeira vez.

***

Depois, em 1995, o general
Martín Balza, comandante do Exército, em pronunciamento pela TV, pediu
“perdão à nação” pelos sequestros, prisões, torturas e assassinatos
cometidos pelos militares. E, ainda, pelo golpe militar que depôs a
presidenta Isabelita Perón. Dias após, os comandantes da Marinha e
Aeronáutica o imitaram, para surpresa do presidente Menem, que de nada
sabia.

Abria-se à História a segunda janela: o passado surgiu como deformação nojenta e cruel, a não repetir-se jamais.

Tal
qual na Alemanha (onde descobrir e julgar algozes nazistas busca, até
hoje, erradicar o vírus ditatorial), na Argentina a abertura oficial
dos arquivos militares tenta completar o ciclo de maturidade.

***

Esta
terceira janela pública do horror talvez não traga nada inédito. Na
repressão argentina, tudo foi clandestino e duvido que os militares
tenham documentado o terror do extermínio, dos milhares de corpos
cremados nos fornos da Escola de Mecânica da Armada, em Buenos Aires,
ou em La Perla, em Córdoba. Ou dos presos (alguns vivos e sob sedativo,
outros mortos) atirados de aviões em alto-mar. O terror não se
documenta. O autor sabe que é crime vergonhoso e o esconde.

Morei 18 anos na Argentina, presenciei o caos dos últimos 18 meses de
Isabelita Perón e os dois primeiros anos da ditadura da
Junta Militar. Vivi sob o terrorismo de Estado, que atuava escondido, sem a mínima formalidade.

Isto
os diferencia da nossa ditadura, mais longa mas menos cruel, sempre
guardando ou simulando formalidades, permitindo discursos nos
parlamentos sobre “o alto preço do chuchu”, enquanto isso não alterasse
os porões da tortura aos presos políticos. Não há, porém,
“torturômetro” e o crime, crime é. Não se mede em toneladas, como soja.

Se lá foi mais brutal, isso não nos exime de conhecer, aqui, o terror dos “menos brutais” e nossos benignos arquivos do mal.

* Jornalista e escritor


E por aqui
ainda criam o termo "ditabaranda"…
Bom final de semana a todos

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