O fim do mito do PMDB diferente no RS

Este artigo foi publicado no site "Brasília Confidencial" (http://www.brasiliaconfidencial.inf.br), escrito por Ayrton Centeno, republicado no Vermelho e "rerepublicado" neste humilde blog…
Interessante opinião acerca do PMDB gaúcho.

O fim do mito do PMDB diferente no RS
Nós, os gaúchos, temos uma predileção especial pelas mitologias.
Fervilham criaturas lendárias no nosso rico folclore: salamanca,
negrinho do pastoreio, mãe do ouro… Nossa própria História está
impregnada pelo além do real. Basta ver a recriação mítica do tipo do
gaúcho. De vagamundo, peão ou mesmo ladrão, metamorfoseou-se em ícone
de bombachas. Aos fins-de-semana, mansos bancários, comerciantes ou
barnabés lotam os centros de tradições, trajando-se de acordo com o
figurino do herói ancestral. Este gosto pelo mitológico também espichou
suas raízes para a política.

Um dos mitos mais acalentados pela gauchidade é de que, no Rio Grande
do Sul, os partidos políticos são diferentes. A palavra diferente aqui
oculta outro sentido, o de melhor. E o partido que mais diferente se
julgava da sua seção nacional sempre foi o PMDB. Tanto que, muitas
vezes, distinguia-se com o apêndice RS, para deixar claro que o assunto
não se referia exatamente à sigla de Orestes Quércia, Newton Cardoso,
Jáder Barbalho e outras figuras das quais a seção estadual queria
distância. Era o PMDB diferente. Os artífices desta construção mental
foram, claro, os peemedebistas locais com a ajuda valiosa da mídia.

Hoje, o PMDB/RS continua querendo ser diferente mas as evidências
marcham no rumo oposto. A principal referência deste culto à alteridade
regional é o senador Pedro Simon. Como solista do PMDB/RS é ele quem
canta, mesmo que implicitamente, a diferença de José Sarney ou Renan
Calheiros. Simon não cultiva apenas a distinção geográfica — os bons e
éticos aqui, os maus e corruptos lá. Além do espaço, há a dimensão do
tempo. Com sua verve tradicional, evoca com frequência “o MDB velho de
guerra”. Quase sempre, sua intenção é enaltecer o papel desempenhado na
trincheira contra o arbítrio. Embora produzido no laboratório do regime
militar — depois da extinção das 13 siglas existentes em 1965 através
do AI-2 — para abrigar uma oposição consentida, o “MDB velho de guerra”
de Simon causaria dissabores aos generais batendo-os nas urnas e
ajudando a pavimentar o caminho da abertura. É uma tirada recorrente
que explicita um travo de desencanto com a trajetória do atual PMDB,
uma confederação de caciques regionais interessada nos seus próprios
interesses.

Mas o mal-estar passa tão logo o senador adentra o território gaúcho, o
que revela as insuspeitadas virtudes terapêuticas do clima sulino.
Bafejado pelo vento minuano e os odores do pampa, Simon parece perceber
o PMDB/RS como algo à parte, como se fosse, talvez, “o MDB velho de
guerra”. Ardente crítico da corrupção que grassa – segundo seus
discursos no Senado — no resto do Brasil, tão logo põe os pés no chão
riograndense o bravo parlamentar recolhe-se a um monastério imerso em
piedoso silêncio quando se trata dos descaminhos da legenda no Sul. O
grande problema, porém, é a fragilidade do mito no confronto com a
percepção pura e simples das coisas.

A ópera não se resume à participação do PMDB/RS em um governo devastado
por denúncias de corrupção como o da tucana Yeda Crusius, do qual Simon
é fiador. Tampouco tem a ver com a sofreguidão da bancada peemedebista
para livrar a cara da governadora tucana ante qualquer investigação no
Legislativo. Nem mesmo se refere ao fato do PMDB/RS ser acionista
majoritário na débâcle do Estado – empobrecido e desprestigiado
politicamente – pelo fato de ter governado o Rio Grande do Sul em 10
dos últimos 14 anos. Há outros e graves senões.

O PMDB diferente tem três deputados estaduais e um deputado federal – o
secretário-geral do partido Eliseu Padilha, ex-ministro dos transportes
de Fernando Henrique Cardoso — investigados nas operações Rodin e
Solidária, ambas da Polícia Federal, que rastreiam o destino de R$ 340
milhões aspirados dos cofres públicos.

Nas interceptações telefônicas realizadas pela PF com autorização
judicial, o PMDB diferente mostra-se igual. Talvez diferente – não para
melhor, mas para pior — somente na vulgaridade e na baixeza do
palavreado que algumas fitas expõem. Porém, o senador que os gaúchos
tantas vezes honraram com o seu voto, aparentemente não se dá conta de
que sua consciência crítica também faz falta ao PMDB/RS e ao Estado que
representa. O PMDB diferente do Rio Grande do Sul hoje é tão crível
quanto um boitatá. Parece mesmo um fogo-fátuo com sua luz bruxuleante,
ardendo na noite em cima de uma coxilha para iluminar um tempo que não
existe mais.

—–
Um bom final de semana pra todos!
Abs

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Notícias e política

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s