Em defesa de Rubens Barrichello

Muitos de vocês não sabe, mas sou um aficcionado por Fórmula 1 desde a minha infância, aonde assistia às corridas de Ayrton Senna com muita empolgação.
Gostava de folhear as revistas Quatro Rodas da década de 70 e 80 que meu pai tinha guardadas em algumas gavetas da sua oficina.
Chorei muito no dia e nos dias seguintes à morte de Senna, para mim foram alguns dos piores dias de minha vida ver o meu ídolo de infância sendo velado e enterrado. Eu tinha onze anos quando isso aconteceu. Fiquei algum tempo sem olhar F1, mas logo depois voltei a olhar.
Lembro muito bem que foi feito todo um trabalho, especialmente da Globo, para tentar alavancar Rubens Barrichello a ídolo brasileiro na F1, mas este sempre andava em carros bem piores que os de ponta, quase sempre quebrando durante as provas e virando chacota de muitos de nós. Depois veio o Felipe Massa e pude ter um pouco mais de vontade de assistir F1 e confesso que esse acidente que ele sofreu, que acabou afastando ele do resto da temporada 2009 (uma semanda depois do filho do campeão Mundial de F1 de 1964 John Surtess, Henry, morrer ao ser atingido pela roda de um adversário na F2), me assustou muito. Mas havia o Rubens na disputa do título e com chances, para orgasmo da Globo e sua tentativa de colocar o Rubens no Olimpo. Não critico Barrichello, piloto extremamente respeitado lá fora e menosprezado por aqui.

Mas o que quero colocar aqui é um artigo do jornalista Flavio Gomes, que tem um blog sobre carros e automobilismo (http://colunistas.ig.com.br/flaviogomes/) e escreveu um artigo defendendo Rubens e criticando com uma clareza muito boa a cobertura midiática da F1 no Brasil, em especial da Vênus Platinada.
Aí vai:

De todas as pessoas que encontrei hoje, ouvi: “Esse Rubinho é um
cagado, mesmo”, “Puta azar deu o Rubinho”, “Esse Rubinho é muito ruim”,
“O cara é muito azarado, tinha de furar um pneu?”, “Esse cara é muito
ruim, não vai ser campeão nunca”, “Quando a gente mais espera dele, faz
isso”.

E algumas variáveis sobre o mesmo tema.

Eu já tinha dessa impressão, mas depois deste fim de semana, tenho
certeza. O problema de Barrichello não é ele, não são seus carros, não
são seus companheiros de equipe. O problema de Barrichello é a TV Globo.

E por que a Globo, e não toda a mídia? Porque não se deve ter
nenhuma ilusão. A imensa maioria das pessoas no Brasil só se informa
sobre F-1 pela Globo. “Se informa” é um eufemismo, melhor corrigir.
Digamos que a cultura de F-1 que a imensa maioria das pessoas tem no
Brasil vem daquilo que a Globo diz.

E a Globo só diz besteira. A cultura de F-1 do brasileiro médio é zero, talhada pelas cascatas globais.

Barrichello não fez nada de errado ontem, não errou ao tentar a pole
com o carro mais leve, não teve azar nenhum, não foi cagado. Mas a
histeria global, martelada dia após dia — e quando a corrida é no
Brasil, e ele está na pole, chega a ser quase uma lavagem cerebral, uma
lobotomia —, faz com que o público aqui acredite que Rubinho do Brasil
tem a obrigação de ganhar, e se não ganhar, das duas uma: ou sacanearam
com ele, ou é um cagado que não tem mais jeito.

As pessoas veem uma corrida de F-1 aqui com zero de informação
honesta. Ontem, depois de dez voltas já era possível afirmar que Rubens
não venceria a prova. Simples: não abria de Webber e iria parar cinco
voltas antes nos boxes. Cinco voltas, com um carro mais rápido e cada
vez mais leve, seriam mais do que suficientes para Webber voltar à sua
frente do pit stop. E Kubica, também. Ambos passaram.

Rubens apostou no clima instável de São Paulo, no que fez muito bem.
Larga na pole, pula na frente, vai que chove no início, todos têm de
parar, a vantagem do carro mais pesado é anulada. Ou, ainda: acontece
alguma merda atrás dele, Webber se enrosca, Kubica bate, fica para
trás, e a vantagem é igualmente anulada.

Mas há uma desonestidade editorial clara naquilo que a Globo faz,
alimentando uma expectativa que não poderá ser cumprida. Porque corrida
de carro é muito mais do que essa gritaria de “Vâmo, Rubinho!”, “Não
erra agora, Rubinho!”, “Acelera, Rubinho!”. Corrida de carro tem
lógica, é matemática, e quem mostra um evento desses a milhões de
pessoas tem a obrigação de ser honesto.

Porque se não for, as pessoas não têm elementos para entender a
derrota. E se amparam na explicação que está à mão: o cara é cagado, dá
azar, não vai ganhar nunca. Ou, ainda: furaram o pneu dele de propósito.

E, aí, vai-se criando a fama, dia após dia, de perdedor, azarado,
cagado. Uma farsa, uma mentira. A TV mente o tempo todo. Foi assim nos
anos pós-Senna, em que Barrichello, de Jordan ou Stewart, não tinha a
menor chance de ganhar uma corrida, embora a TV dissesse o contrário.
Porque corria contra Williams, Ferrari, McLaren, Benetton. Depois, na
Ferrari, a venda de ilusões baratas era igualmente cruel, porque contra
um piloto como Schumacher, Barrichello jamais seria campeão. Não seria
porque Schumacher era muito melhor. Se eu for companheiro de
Barrichello numa corrida de qualquer coisa, não terei chance alguma de
andar na frente dele. Deem um kart para ele e outro para mim, e ele vai
chegar na frente todas as vezes. Entreguem um Lada igualzinho ao meu, e
não vou ser mais rápido que ele nunca, em nenhuma volta.

Mas a Globo vende a esperança, porque acha que as pessoas só vão se
interessar por seu evento se houver a chance de um brasileiro vencer,
mesmo se for uma mentira deslavada, como na maioria das vezes. É um
engodo, e uma sacanagem com o piloto. A expectativa que se cria por
seus resultados é criada na TV. OK, muitas vezes Rubens embarcou na
onda, mas é o menor dos culpados.

Se a TV não se dedicasse tanto a iludir seus telespectadores
tratados como otários, Barrichello não seria zoado como é há anos, pela
Globo inclusive. Poderia conduzir sua carreira com mais tranquilidade e
serenidade. Ele não tem a obrigação de vencer por ninguém, pelo povo,
pelo país. Tem obrigação de trabalhar direito para quem lhe paga, e por
ele mesmo.

Um dia depois de uma corrida normal, na qual fez o que podia fazer
dentro dos limites de seu carro e de seu talento, o coitado tem de
aguentar um tijolo a mais nessa construção de uma imagem que não
corresponde à realidade. Barrichello pode não ser o melhor piloto do
mundo, está longe disso, mas é um dos bons dos últimos anos, como
outros tantos. Nem muito mais, nem muito menos. Não estaria há tanto
tempo correndo se não tivesse qualidades.

Quando parar, muito provavelmente sem ter sido campeão, terá para
sempre colado na testa o rótulo de cagado, azarado, lento, o que for.
Pode agradecer à TV por isso. Foi ela que, nesses anos todos, disse ao
Brasil que Rubens era algo que nunca foi. Talvez ele nunca entenda
isso, até porque adora ser bajulado pela Globo, com seu
pseudo-jornalismo esportivo meloso, ufanista e cascateiro. Mas é assim.

Abraço a todos!

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