Os Marinho se reinventam como “fiadores da harmonia”

por Luiz Carlos Azenha

Outro dia vi no Jornal Nacional um dos herdeiros de Roberto
Marinho, com aquele ar de compungido dos
todo-poderosos-mas-não-é-chique-aparentar, falando alguma platitude
sobre a defesa da democracia e da liberdade de imprensa no evento de 30
anos da Associação Nacional dos Jornais (ANJ). Logo depois apareceu um
Sirotski nos alertando para o perigo da combinação entre televisão,
política e religião.

Não notei o primeiro nome de ambos. Não faz diferença. Pertencem, ambos, a famílias "de bem" do Brasil.

Nenhum dos dois corou ao discursar.

Marinho e democracia. Quem é que suporta vez essas duas palavras
juntas? Não foi o patriarca um dos grandes açuladores do golpe de 1964?
Não fez isso por escrito? Dado o golpe, não foi Marinho o maior beneficiário civil do regime que estuprou a democracia? O que fez a ANJ em defesa de Lúcio Flávio Pinto, um dos melhores repórteres do Brasil, que é atacado por oligarcas regionais que sustentam o império dos Marinho?

Não foram os Marinho que promoveram o padre Marcelo Rossi, uma
versão anódina e mauricinha do catolicismo, que afasta as massas de
frases e palavras perigosas como "oprimidos", "comunidades eclesiais de
base" e "teologia da libertação"? Não fizeram isso por motivos
políticos e econômicos usando uma concessão de TV?

Não foram os Marinho que instalaram Antonio Carlos Magalhães no
Ministério das Comunicações durante o governo de José Sarney — antes
que os Marinho descobrissem que Sarney é Sarney –, promovendo a
distribuição ampla, geral e irrestrita de concessões responsável pela
ampliação do mandato de Sarney para cinco anos?  Não foram os Marinho,
portanto, fiadores desse modelo em que a política, a mídia e o
Congresso se combinam para concentrar poder e, portanto, propriedade e
renda?

Os Marinho se desfizeram de suas alianças regionais com José Sarney
no Maranhão ou Fernando Collor de Mello, em Alagoas, ambos
retransmissores dos sinais da TV Globo? Ou continuam sendo as
principais fontes de sustentação política e econômica desses oligarcas?

Outro dia, lendo a resenha de um livro recém-lançado sobre Lula, me
diverti com a descrição que o principal ideólogo da Globo fez do
presidente brasileiro:

"Um brasileiro médio, mais ou menos crente em Deus e que se vê
como o proponente de uma sociedade capitalista onde haja mais harmonia
entre os pobres e ricos".

É a versão "cordial" de Lula, que promove "harmonia" entre "pobres e
ricos", nessa sociedade sem classes em que os Marinho, obviamente,
estão por cima.

Eles agora se reinventam como fiadores dessa "harmonia social", numa
sociedade em que negros politizados são "baderneiros", em que não há
racismo, em que antes de reivindicar os miseráveis devem "se educar",
frequentando os museus da Fundação Roberto Marinho (financiados com
dinheiro público), assistindo ao Telecurso e, para os católicos,
celebrando a vida com Marcelo Rossi. Qualquer alternativa que não passe
pelo bolso dos Marinho não é recomendável.

Nesse admirável mundo novo não só as classes sociais foram abolidas.
Não existe imperialismo. A solução é simples: deixamos os Estados
Unidos "nos ajudarem com o pré-sal" em troca deles nos armarem. Deixa eu ver se eu entendi o que querem os Marinho: os
gringos ficam com parte do pré-sal e ainda nos vendem as armas para
defender o pré-sal doado a eles!!! Até um americano se envergonharia de
tamanha bajulação…

Ah, e nesse mundo de "harmonia", em que brasileiros e americanos "se
ajudam", é preciso amar a natureza e "preservar a Amazônia". Para, quem
sabe lá adiante, depois do pré-sal esgotado, convidar os americanos
para "explorá-la conosco", em troca de um segundo carregamento de armas
para usar nas guerras contra a Bolívia, o Paraguai e a Igreja Universal.

E ai de você se quiser alterar esse estado de coisas. Será declarado
uma "ameaça à democracia". E, sem outra saída, em defesa da ordem e da
civilização cristã, os Marinho serão praticamente forçados a dar outro
golpe de estado. Quem mandou provocar?

Para se justificar, publicarão em O Globo

Vive a Nação dias gloriosos. Porque souberam unir-se
todos os patriotas, independentemente de vinculações políticas,
simpatias ou opinião sobre problemas isolados, para salvar o que é
essencial: a democracia, a lei e a ordem. Graças à decisão e ao
heroísmo das Forças Armadas, que obedientes a seus chefes demonstraram
a falta de visão dos que tentavam destruir a hierarquia e a disciplina,
o Brasil livrou-se do Governo irresponsável, que insistia em arrastá-lo
para rumos contrários à sua vocação e tradições.

PS: A direitona sabe muito bem o que quer em 2010: manter o
controle de poucos sobre a terra, a mídia e o subsolo (pré-sal e
minérios). A esquerda é que parece não saber quem é o adversário.

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