As árveres somos nozes…

Dias atrás, a Zero Hora (sempre ela) mostrou uma série de reportagens mostrando os "benefícios" que a platanção de eucaliptos trouxe para as pessoas que aderiram a esse tipo de cultura.
Sabendo das intenções ideológicas da ZH, não me surpreendo…
Mas recebi email repassando um artigo do escritor e jornalista Flávio Tavares sobre o assunto e repasso a vocês.
Abraço.

Aí vai:

Outro Rio Grande?, por Flávio Tavares*

O rosto do Rio Grande vai mudar. Também o corpo. Pernas e braços serão
outros, não sei se mais livres ou em calabouços, se mais ágeis ou mais
frágeis. O plantio extensivo de eucalipto vai mudar a fisiografia do
pampa, afetar nossa geografia e o que somos no fundo da alma. Outra
será a terra. Se isso emperra e todo mundo berra, ou se é o futuro sem
nenhum furo, ainda se debate e estar atento nunca é demais.

Ao
ler neste jornal, dias atrás, a magnífica série de reportagens sobre a
transformação de áreas agropastoris em bosques artificiais de
eucaliptos, estremeci. Ali se descrevia o dia-a-dia dos exércitos de
trabalhadores levados ao campo (de batalha) em ônibus: “A rotina é
estafante – chutar torrões de terra nas linhas de plantio, abrir um
buraco, atirar a muda pelo tubo de PVC, dar mais chutes para fechar o
sulco, enterrar a planta e repetir tudo dois metros à frente. E ainda
outras 1.400 vezes ao dia, por pessoa”.

A descrição não deixa
dúvidas: muda a feição do campo, mas – além de tudo – a sabedoria
agrícola é que desaparecerá. O agricultor de ontem, íntimo da natureza,
da flora e da fauna, será mudo robô atirando mudinha num buraquinho no
solo.

***
Qual o impacto no meio ambiente do plantio
extensivo dessa árvore oriunda das zonas úmidas da Oceania? Aqui,
sabe-se que seca mananciais como nós respiramos, por necessidade da sua
fisiologia vegetal!

Nossos mais lúcidos pesquisadores
científicos, como o professor Ludwig Buckup, do Instituto de
Biociências da UFRGS, foram chamados a opinar? E, ao opinarem, foram
tomados a sério ou ignorados?

Nos anos 1970, virou moda o Pinus
elliotis, do Hemisfério Norte, rápido no crescer. Deselegante,
desbancou nossa belíssima mas lenta araucária. Até hoje, porém, nenhum
passarinho nele pousa ou faz ninho.

Nos bosques de eucalipto, já
formados, este jornal encontrou algo ainda mais tétrico: “Debaixo das
árvores, um mundo à parte onde reina o silêncio. Não há barulho de
pássaros ou de outros animais silvestres. A falta de sol impede crescer
a vegetação rasteira”.

***Tudo isso, para quê? Para árvore virar
papel, num processo industrial hoje simples, mas ainda perigosamente
poluente e poluidor. O papel foi, sempre, algo nobre, condutor de
sabedoria pelos livros, cadernos de escola e jornais. Hoje, no
dia-a-dia da era eletrônica, cada vez se escreve menos em papel, ainda
que ele seja insubstituível nas coisas perenes do saber.

O
grande consumo, agora, está na área do descartável rápido. Dos
sofisticados papéis para presente (que rasgamos ao abrir e jogamos no
lixo) ao saquinho de supermercado (em substituição ao plástico) ou às
caixas que envolvem a sedutora parafernália de eletroeletrônicos do
século 21, essa é a área da grande produção.

Para isso alteramos
a natureza a esmo, fazendo a mudança incidir em férteis terras
agrícolas? Ou o desafio está em resolver o problema atenuando o choque?

***Chama a atenção, também, a mudança no regime
de propriedade rural provocada pelo plantio extensivo de bosques
artificiais. Dos grandes aos pequenos produtores, desaparecem os
proprietários rurais. Grandes empresas, todas de longe e estrangeiras
algumas, assumem o controle da terra produtiva, substituindo cultivos e
pastoreio por eucaliptos.

Nos anos 1960, os conservadores
atrasados deram um grito no Rio Grande e no Brasil: os “perigosos
comunistas” do governador Leonel Brizola e do presidente João Goulart
iam “terminar com a propriedade rural”. As idéias de reforma da
propriedade agrária não pregavam a expropriação a galope. Ao contrário,
os proprietários improdutivos teriam de receber indenização prévia e em
dinheiro…

Mas o grito foi pretexto para o golpe de Estado de
1964. Agora, por ironia, o alto capitalismo concentrador é que, de
fato, começa a extinguir o regime de propriedade rural…

*Jornalista e escritor

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