O jornalismo medieval de “Veja”

Olá!
Já se passaram quase cinco meses desde que postei o último artigo, mas estou bem.
Esta faltando um pouco de inspiração pra escrever algo novo aqui, mas em breve sairá…
Enquanto isso posto um artigo publicado no "História em Projetos", por Conceição de Oliveira, sobre a tentativa desesperada da Veja tentar deturpar métodos e educadores que se oponham a seu pensamento neocon.
Abraço a todos, e dia 05/10 Piaia 65 Prefeito!!

Aí vai:

O jornalismo medieval de "Veja"

E quem nos livrará do jornalismo das trevas de Veja?

por Conceição Oliveira, no História em Projetos

Esta semana Veja reedita a cruzada iniciada por Kamel em
setembro de 2007 contra os autores de livros didáticos de História.
Desta vez, a revista símbolo dos neocons tupiniquins inclui em seus
processos inquisitoriais travestidos de reportagens os professores de
História e Geografia concluindo que são todos uns ‘incompetentes’,
passadistas ultrapassados e maus-caráteres por ‘incutir ideologias
anacrônicas e preconceitos esquerdistas nos alunos’.

Não há nada de novo na matéria de Veja que Kamel já não tenha feito e seus asseclas dado continuidade em matérias publicadas na Época, Estadão, Folha e afins em 2007.

Na reedição de Veja estão presentes as mesmas estratégias
que buscam validar o antiesquerdismo doentio de seus editores neocons
travestidas de ‘verdades científicas’; ‘jornalismo de isenção’ e outras
inverdades que a grande mídia neoconservadora deseja incutir na mente
dos leitores.

Pergunto-me como os professores Romano, Villa e Schwartzman ainda se prestam a falar para Veja.
Não está suficientemente claro para esses intelectuais que esta revista
símbolo do anti-jornalismo buscará encaixar as opiniões acadêmicas
(sempre retirando-as de seus contextos) para legitimar a caçada de Veja contra tudo o que se opõe ao seu projeto ‘arremedo de liberalismo’?

Dentre tantas bobagens, repletas de juízos de valor, tão ideologizadas quanto a crítica que Veja
pretende fazer a seus opositores, destaco um trecho no qual a revista
acusa os professores brasileiros de idolatrarem figuras que, segundo
ela, não trouxeram nenhuma contribuição significativa ao país e/ou
humanidade:

    "Ou idolatram personagens arcanos sem contribuição efetiva à
civilização ocidental, como o educador Paulo Freire, autor de um método
de doutrinação esquerdista disfarçado de alfabetização. Entre os
professores brasileiros ouvidos na pesquisa, Freire goleia o físico
teórico alemão Albert Einstein, talvez o maior gênio da história da
humanidade. Paulo Freire 29 x 6 Einstein. Só isso já seria evidência
suficiente de que se está diante de uma distorção gigantesca das
prioridades educacionais dos senhores docentes, de uma deformação no
espaço-tempo tão poderosa que talvez ajude a explicar o fato de eles
viverem no passado."

Como levar a sério uma revista que tem a pretensão de qualificar
pejorativamente de ‘arcano’ um dos pensadores mais significativos do
século XX , cujas contribuições para a filosofia da educação são
reconhecidas entre seus pares no mundo todo?

Como levar a sério um periódico que obriga seus leitores a escolherem
(sob pena de serem taxados de ultrapassados e equivocados) entre um
educador e um físico teórico e que, excetuando o que a revista denomina
de ‘civilização ocidental’, não reconhece humanidade no resto do
planeta?

Como levar a sério uma revista que sequer se dá ao trabalho de conhecer
a vasta produção de Paulo Freire e a reduz a ‘um método de doutrinação
esquerdista’?

Freire afirma que a pedagogia do oprimido, como pedagogia humanista e
libertadora, é feita de dois momentos distintos: o primeiro, ‘em que os
oprimidos vão desvelando o mundo da opressão e vão comprometendo-se na
práxis, com a sua transformação; o segundo, em que, transformada a
realidade opressora, esta pedagogia deixa de ser do oprimido e passa a
ser a pedagogia dos homens em processo de permanente libertação’. E o
pensador complementava que em qualquer um destes momentos, fosse nos
trabalhos educativos como parte do processo de organização dos
oprimidos ou na educação sistemática como projeto político educacional
de uma sociedade revolucionária, ‘será sempre a ação profunda, através
da qual se enfrentará, culturalmente, a cultura da dominação". (FREIRE,
1968: 44)

Não podemos afirmar que uma revista tão desinformada e capaz de
subverter tanto os fatos e valores é um representante genuíno da
‘cultura de dominação’ da qual falava Freire e diante da qual os
educadores comprometidos com a transformação da realidade opressora
deveriam se opor. Veja não pode ser associada à cultura de espécie alguma, nem mesmo à dominante, pois o que esta revista produz é lixo cultural.

Veja sequer tem um pensador conservador à altura capaz de
debater com um pensamento de esquerda do naipe da produção de Paulo
Freire. Esse arremedo de revista nem é original em suas acusações a
Freire: repete as mesmas falas dos ditadores e censores do período
militar dirigidas ao educador libertário, reproduz a mesma ladainha
preconceituosa contra a pedagogia freiriana que recentemente alguns
procuradores ultraconservadores do MP-gaúcho que desejavam criminalizar
o MST produziram. Veja só se dá ao trabalho de papagaiar tudo que existe de mais retrógrado no país, incluindo aí o jornalismo kameliano.

Não há debate no mundo de Veja, não há conflitos de interesses e projetos políticos que se opõem. Em Veja existe
o dicotômico e tedioso mundo do ‘bem contra o mal’, do ‘liberalismo
estereotipado versus o esquerdismo estereotipado’, do Brasil ‘ame ou
deixe-o’, dos ‘cristãos versus os infiéis’. O mundo de Veja é
um binômio irreal, sem graça e sem importância no qual somos obrigados
a escolher entre a filosofia da educação de Paulo Freire e teoria da
relatividade de Albert Einstein. Não podemos buscar conhecer as
diferentes contribuições destes dois importantes homens do século XX.

Talvez seja por isso que ao comemorar 40 anos, Pedagogia do Oprimido
segue viva e original estimulando historiadores e educadores a
refletirem sobre as contribuições e os limites da extensa e rica
produção freiriana e Veja
(que também faz quarenta anos) no máximo servirá aos historiadores
interessados em pesquisar a capacidade de degradação de um veículo de
comunicação: ao longo de quatro décadas quais diferenças existem entre
a época áurea sob direção de Mino Carta e a era dos bobos da corte
feito os Reinaldos e Mainardis, arremedos mal feitos dos neocons? Quem
tiver paciência que faça a análise.

O que é patente aos leitores críticos que Paulo Freire ajudou a formar é que na atualidade Veja não
faz jornalismo, ela arroga a si o direito de julgar produções,
personalidades, projetos, políticas públicas e insiste em nos enfiar
goela abaixo a sua visão pobre e restrita e deturpada do mundo.

Veja, tal qual os velhos senhores feudais encastelados que
dominavam o governo, o poder de legislar e o poder de Justiça em suas
possessões, sequer chegou ao século XIX onde ela julga estarem
estagnados os professores que critica. A revista parou na Idade das
Trevas seja qual for esse tempo-espaço (façam suas escolhas, qualquer
um serve, desde que tenha sido uma era de truculência, intolerância e
sectarismo bem ao estilo Veja – inquisição moderna, o terror, a ditadura, o fascismo, o nazismo, o macarthismo ou a era Bush de Guantânamo e Abugrai).

O que Veja ainda não descobriu é que os professores,
proprietários de escolas e pais cada dia mais sabem distinguir o
jornalismo medieval do estilo Veja do bom jornalismo produzido por profissionais menos subservientes e ignorantes. Veja precisa
entender que quarenta anos de Pedagogia do Oprimido fizeram diferença
positiva em nosso país, que grande parte da população pouco a pouco
briga por sua cidadania, pelo direito de pensar, opinar, refletir e se
recusa a permanecer na Idade das Trevas sob a batuta do tribunal
arrogante de Veja. Pais e professores cada vez mais abrem mão, de bom grado, do jornalismo medieval produzido por Veja.

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