A Febre Amarela e o fim da CPMF: Perverso, por Adib Jatene

Ainda não tinha achado nenhum texto mais esclarecedor sobre a febre amarela, essa epidemia que a mídia acabou por tornar uma histeria coletiva.
Mas fuçando um pouco mais, achei este artigo do médico e ex-Ministro da Saúde dos governos Collor, Itamar e FHC Adib Jatene.
Apesar de ter sido ministro durante um período composto por presidente entreguistas, ele conseguiu escrever um artigo esclarecedor sobre esse fato recente do nosso país que transcrevo aqui para vocês.
Abraço e boa leitura.

A FEBRE AMARELA E O FIM DA CPMF: "PERVERSO"

por ADIB D. JATENE

NO PERÍODO em que estive à frente do
Ministério da Saúde, tomei conhecimento da importância da relação entre
dengue e febre amarela silvestre e o eventual risco da reurbanização
desta última.

Desde 1942, não ocorreu nenhum caso de febre amarela urbana.
Entretanto, persiste, e é impossível eliminar, sua forma silvestre.

É por essa razão que o Ministério da Saúde vem vacinando
sistematicamente toda a população das áreas de risco, onde há
ocorrência de casos humanos, adquiridos sempre nas áreas de mata. Já
vacinamos, nos últimos 12 anos, mais de 60 milhões de pessoas.

Nas matas, existe alta concentração de mosquito transmissor e animais,
principalmente macacos, portadores do vírus. Daí o risco de pessoas não
vacinadas incursionarem em regiões com alta concentração de mosquito,
onde alguns estão contaminados e, por isso, são capazes de transmitir a
doença. Assinale-se que, nos últimos 12 anos, tivemos 349 casos
confirmados, com 161 óbitos, todos adquiridos por pessoas não vacinadas
que freqüentaram áreas de mata.

A incidência desses casos variou de ano a ano. Tivemos anos com apenas
três casos, enquanto em outros, como 1999, 2000 e 2003, ocorreram,
respectivamente, 76, 85 e 64 casos, com mortes de 29, 40 e 23 pacientes.

Por que com essas três centenas e meia de casos, em doze anos, não
tivemos transmissão urbana, já que, nas cidades, existe o Aedes
aegypti, transmissor da dengue e da febre amarela?

As razões são três: em primeiro lugar, o número de doentes com febre
amarela silvestre no mesmo espaço urbano e ao mesmo tempo é muito
pequeno, o que reduz significativamente a chance de infectar o mosquito
Aedes aegypti; em segundo lugar, é preciso alta concentração de
mosquito, ao redor de 40% de infestação, o que corresponde a 40
habitações em cada 100 com a presença do mosquito, segundo a OMS, para
que seja possível a transmissão da febre amarela; e em terceiro lugar,
porque temos altos índices de cobertura vacinal na área endêmica,
portanto, sem susceptíveis em número suficiente para sustentar uma
transmissão.

A concentração do Aedes aegypti nas cidades brasileiras onde ocorre a
dengue não ultrapassa, em média, 5 domicílios infestados em cada 100,
suficiente para transmitir a dengue devido ao número alto de doentes,
mas absolutamente insuficiente para transmitir a febre amarela urbana.

Os que retornam às cidades afetados pela febre amarela silvestre são
hospitalizados e têm desenlace, seja para cura, seja para óbito, em
prazo relativamente curto.
Não há, portanto, nenhuma razão para vacinar as pessoas que não residem
em área endêmica nem pretendem adentrar a mata dessas áreas.

Vi na televisão pessoas que sempre residiram na cidade de São Paulo e
que não pretendem viajar desesperadas, em filas para se vacinarem,
alegando que tinham direito. Certamente não tinham necessidade e se
expõem aos efeitos adversos de uma vacina com vírus vivo.

Nos últimos quatro anos, foram registrados pelo sistema de informação
de efeitos adversos pós-vacinação 478 casos (muito mais que os 349
casos de febre amarela registrados em 12 anos), desde reações simples
até exantemas generalizados, febre alta e, em dois casos, meningite.

Em relação à vacina contra a febre amarela, a Fiocruz é, praticamente, a única produtora em todo o mundo.

Há só um outro laboratório privado no exterior, produzindo cerca de 5
milhões de doses por ano, enquanto a produção da Fiocruz é o dobro.

A corrida pela vacina por pessoas que não precisam dela reduz sua
disponibilidade para os que efetivamente têm necessidade.

Diante da imunização da quase totalidade da população de áreas de
risco, o que vem sendo feita há décadas, as recomendações do Ministério
da Saúde são suficientes, ratificadas por especialistas e pela própria
OMS, para garantir que o país não corre risco de reintrodução de febre
amarela urbana, o que seria catastrófico.

Em um país em que freqüentemente se busca desmoralizar iniciativas
governamentais, disseminando desconfiança na palavra oficial, que se
preserve a seriedade com que são tratados assuntos como a febre amarela.

Nunca é demais ressaltar a luta por recursos para o setor, seriamente
afetada pela decisão – inegavelmente democrática, mas, sem dúvida,
perversa – que permitiu retirar R$ 40 bilhões destinados a atender a
população de baixa renda e entregá-los a empresas e parcelas da
população mais bem aquinhoadas, causando sério risco ao esquema
financeiro para o setor.

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Informação

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s