A tragédia da TAM e a tragédia do jornalismo

Existem fatos relevantes na história de tragédias aéreas que poderiam ser analisados pelos meios de comunicação se eles estivessem interessados em informar sobre os possíveis motivos da explosão do avião da TAM em São Paulo. Mas falta à “grande imprensa” elementos básicos ao exercício do jornalismo — como caráter e espírito democrático.

Por Osvaldo Bertolino

As ruínas do prédio da TAM destruído pelo Airbus que explodiu em Congonhas ainda serão exploradas até o tutano pela “grande imprensa”. Isso ocorre porque a essência deste tipo de jornalismo é a falta de caráter, a ausência de valores básicos que deveriam ser preservados sob quaisquer circunstâncias. Chamo de caráter a capacidade de manter princípios, independente da situação e do momento. O contrário disso é o casuísmo — quando o sujeito troca de premissas, de opinião e de ponto-de-vista ao sabor daquilo que está acontecendo ao seu redor naquele instante. Casuísmo, como está claro, é um dos aspectos da falta de caráter.

Outro valor fundamental da civilização é a democracia. Esse deveria ser um alicerce inegociável na construção de cada um de nós. No entanto, é de assustar o quanto a democracia anda frágil no convívio jornalístico. Estamos vendo isso ao vivo e em cores na tragédia de Congonhas — traduzido na sordidez da “grande imprensa” ao tentar arrastar o governo Lula para o centro das ruínas da tragédia.

Reposição não garantida

O cenário é propício para este tipo de jornalismo. Desastres aéreos são espetaculares. Há fogo. Há explosão. Há corpos destroçados. Há histórias tristíssimas. E há — sobretudo — a constatação inelutável dos limites do homem: por mais que se tenha progredido desde Santos Dumont, os aviões continuam caindo. Na verdade, entre tantos horrores este desastre aéreo deveria estimular até os últimos limites a discussão da segurança nos ares. O desfile de estatísticas deveria cair para segundo plano e ceder lugar a considerações práticas sobre o que, exatamente, se pode fazer para reduzir riscos. E levantar muitas outras questões a respeito da segurança aérea.

Uma questão relevante é o crescimento gigantesco do comércio paralelo de peças de aviões. A revista Business Week dedicou há algum tempo uma reportagem de capa ao tema. Segundo a publicação, as autoridades aeronáuticas norte-americanas preocupam-se especialmente com empresas que utilizam aviões de modelos mais antigos. Uma falha na manutenção, causada pelo uso de peças de reposição não garantidas pelo fabricante, pode ter causado o acidente com o DC-9 da norte-americana ValuJet que matou 110 pessoas nas proximidades do Aeroporto de Miami em maio de 1996.

Peças piratas no avião

A suspeita de uso de peças piratas no avião surgiu em decorrência dos maus antecedentes da companhia. Meses antes, o motor de um outro DC-9 da ValuJet explodira no Aeroporto de Atlanta. Descobriu-se que a última manutenção do avião fora feita por uma oficina na Turquia. Sim, na Turquia, bem longe dos olhos vigilantes das autoridades norte-americanas. A troca das oficinas dos Estados Unidos por uma outra na Turquia se baseou num cálculo de custo.

A peça mais importante do controle de velocidade de um jato intercontinental custa 100 mil dólares no mercado legal. No mercado paralelo, a mesma peça sai por alguma coisa entre 10 mil e 20 mil dólares. Um comerciante desonesto pode comprar uma lâmina para o compressor do motor a jato por 1 dólar num ferro-velho, lixá-la, revesti-la, colocar uma etiqueta falsa e depois revendê-la por 1.200 dólares.

As suspeitas sobre as razões da queda do Boeing 747 da TWA que explodiu no ar com 230 pessoas a bordo, em julho de 1995, apontam para defeitos em cascata nos componentes e para problemas de desgaste nos tanques de combustível. Nos últimos anos, muitas empresas passaram a utilizar peças de reposição piratas — mais baratas e obviamente menos seguras — em seus aviões. De acordo com informações oficiais, peças sem garantia foram detectadas em cerca de 166 acidentes ou panes sérias registrados nos Estados Unidos entre 1973 e 1993. Meio milhão de peças defeituosas é instalado a cada ano nos aviões norte-americanos.

Tráfego aéreo particular

E no Brasil? No universo das grandes empresas brasileiras, esse é um problema não investigado. O caso mais parecido aconteceu em 1992 com a Vasp. Na época, a empresa usou peças de aviões encostados em outros que estavam em operação. A esse procedimento dá-se o nome de canibalização. O Departamento de Aviação Civil (DAC), que fiscaliza as empresas aéreas brasileiras, apertou o cerco e a Vasp se enquadrou.

Alguém ouviu ou leu algo a respeito na “grande imprensa”? Ou a respeito de outros problemas, como o excesso de tráfego aéreo particular em Congonhas? Ou a respeito de problemas relacionados aos trabalhadores do setor? Eu não. Mas o desfile de “comentaristas” mal-educados — verdadeiros “doutores” em aviação —, atribuindo o desastre ao governo Lula, está sendo uma constante. Isso se deve a prática comum de desrespeitar o direito do outro — uma barbaridade que, embora recorrente, ou talvez exatamente por isso, nem sempre aparece com clareza.

Manchetes sensacionalistas

Falta para essa gente que comanda a “grande imprensa” civilidade, que poderia vir como resultado de leis mais duras e mais plenamente aplicadas. Não se pode admitir a presunção de culpas e nem a exploração inescrupulosa da dor das pessoas que perderam seus entes queridos — por meio de depoimentos habilmente colhidos e impiedosamente manipulados na busca de manchetes sensacionalistas. Num conceito mais elevado de justiça, tal prática poderia ser considerada criminosa.

Liberdade de expressão não é um direito hierarquicamente superior aos demais direitos e garantias individuais e coletivas. Na Constituição está no mesmo patamar o direito à intimidade, à vida privada, à honra e à imagem das pessoas. Todos igualmente invioláveis e indispensáveis. É preciso haver um equilíbrio entre eles. A defesa da liberdade de expressão exige protegê-la contra abusos como estes. Na democracia, são tarefas conciliáveis. Fora disso, a “liberdade de imprensa” não passa de balela.

A serventia da democracia

Essa civilidade poderia ser também fruto de uma sociedade mais madura do que a nossa, em que a democracia seria de fato um valor essencial, cravado mais fundo na nossa alma. Seria fruto de uma sociedade com a consciência de que existem regras mínimas de convivência que se não forem levadas a sério acabam levando ao caos social e à guerra entre concidadãos. Numa palavra: falta a essa gente levar a sério a serventia da democracia.

Democracia é, acima de tudo, reconhecer os direitos do outro. No meio jornalístico da “grande imprensa”, costuma-se pensar em democracia como garantia para seus abusos. Mas um ambiente verdadeiramente democrático começa pela outra ponta: pelo reconhecimento dos nossos deveres, como jornalistas, e do respeito que devemos ter em relação aos direitos alheios. Só então, vencido esse estágio, é que podemos exigir a contrapartida dessa nossa correção — exigir que os outros, principalmente os governos, também cumpram seus deveres e respeitem os nossos direitos.

O direito à voz do outro

Outro aspecto da fragilidade dos valores democráticos no jornalismo da “grande imprensa” é o fato de que, podendo, ele cassa os direitos dos seus adversários — como ocorre em relação ao governo Lula. Como se uma situação de confronto ou de disputa permitisse, possivelmente por algum direito divino, a esse tipo de jornalismo abrir mão de todos os parâmetros de conduta ética. O direito à voz do outro, ao contraditório, à visão oposta é uma prerrogativa fundamental do jornalismo — mesmo que este outro esteja dizendo algo que nos pareça um absurdo, uma sandice.

Não raro, esse é o primeiro direito do outro que a “grande imprensa” revoga unilateralmente. Podendo calar o oponente, em nome de vencer no grito ou de encerrar mais rapidamente uma discussão que não lhe interessa, esse tipo de jornalismo o faz. Ao abdicar do princípio ético, ele abdica da democracia. E, por conseguinte, da própria civilização. Ao agir assim, a “grande imprensa” induz a sociedade à barbárie, à regra louca do cada um por si, do não reconhecimento do outro, da incivilidade que termina em socos, tiros e facadas. Qualquer semelhança disso com o caminho que estamos trilhando como sociedade no Brasil não é mera coincidência.

 

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