Veja ensina como editorializar uma reportagem, Por Luiz Antonio Magalhães em 12/12/2006

A revista Veja consegue se superar a cada edição. A capa desta semana 
foi para a eleição do venezuelano Hugo Chávez, reeleito para mais um mandato
de 6 anos. O lide da "matéria" segue abaixo e poderia ser utilizado nas escolas
de comunicação como exemplo do que jornalistas não devem fazer. Senão vejamos:

"Com o cubano Fidel Castro no leito de morte, o coronel Hugo Chávez, ditador
eleito da Venezuela, está se apresentando como o novo farol da esquerda
revolucionária na América Latina. `Ninguém vai me impedir agora de construir o
socialismo´, disse Chávez, na semana passada, depois de reeleito para mais seis
anos no poder. Ninguém impediu Fidel. Deu no que deu. Cuba tornou-se hoje uma
nação pária no mundo, com uma população faminta, despreparada para os rigores da
economia globalizada e, mesmo que alfabetizada no jargão marxista, iletrada nas
questões que determinam a riqueza das nações. Aparentemente, ninguém vai impedir
Chávez de continuar sua tarefa de construção do socialismo na Venezuela. Tanto
em Cuba quanto na Venezuela – e de resto em todos os outros lugares onde a
experiência foi testada – a construção do socialismo coincide sempre com a
destruição dos países nos quais o sistema é implantado. Cubanos e venezuelanos
são hoje povos com horizonte menor do que tinham antes de ser submetidos a
ditaduras socialistas."

Em primeiro lugar, Veja qualifica o presidente venezuelano de "ditador
eleito", o que não chega a ser uma contradição em si, pois de fato há ditadores
que forjam eleições (além dos eleitos indiretamente, como os generais-presidentes brasileiros).
O problema é que Chávez venceu uma eleição acompanhada de perto por mais de 400 observadores
internacionais, que atestaram a legitimidade do pleito. Chávez, portanto, não pode ser
qualificado de "ditador eleito".

Estudo de caso
Não bastasse isto, o lide da "reportagem" continua em um tom editorializado,
fazendo a condenação do regime socialista de forma tão peremptória que o
leitor ou descarta o texto de imediato, se tiver um mínimo de senso crítico, pois o
contrabando ideológico é evidente; ou segue em frente, se tiver simpatia pelas
idéias expressas pela revista.

A verdade é que Veja optou por se fechar cada vez mais em torno desta
fórmula: um anticomunismo tosco e obsoleto que permeia praticamente todas as
reportagens sobre assuntos políticos e até as que nada têm a ver com
política. Há um público que gosta, acha válido o "combate" dos cruzados que se
encarregam de escrever a revista contra as "forças do mal". No futuro, a revista vai
ser estudada nas faculdades como um exemplo de panfleto ideológico de
extrema-direita que conseguiu ser bem-sucedido e vender mais de 1 milhão de
exemplares. Porque Veja hoje é exatamente isto: um panfleto e como tal
deve ser tratado.

Fonte: http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=411CIR002

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