Paradoxos

O que era pra ser quatro dias acabou virando dezesseis. Era pra eu cuidar de um operado, acabou sendo o operado me cuidando.
Dia 06 fui para São Borja ver meu pai, que havia feito uma cirurgia de catarata três dias antes. Minha pretensão era voltar no dia 10 para Ijuí, mas no dia 09, depois de doze dias agüentando uma dor do lado direito do quadril, tive que ir fazer uma consulta e no fim das contas acabaram descobrindo que eu estava com um caso de apendicite aguda. Dia 10 passei pela cirurgia de retirada do apêndice, cirurgia essa um pouco complicada, devido ao apêndice haver se deslocado para trás do intestino e a operação durou mais de duas horas. No fim das contas, acabou dando tudo certo e dia 13 recebi alta do hospital. Dia 21 retirei os pontos e dia 22 pude retornar para Ijuí e retomar minhas atividades.
Nesses dias em que fiquei em casa, comecei a remexer nos materiais que adquiri durante os últimos anos e dentre eles, havia uma revista chamada "Movimento", de autoria da UNE, do mês de janeiro de 2003, onde estava publicado um artigo do jornalista Eduardo Galeano (autor que tenho um apreço enorme) intitulado "Paradoxos". Achei muito interessante e resolvi socializa-lo com vocês no meu MSN Spaces.
Espero que vocês gostem.
Em breve postarei alguns texos de minha autoria aqui
Abraço
 
"Paradoxos"
A metade dos brasileiros é pobre. Muito pobre. Mas o país de Lula é o segundo mercado mundial das canetas Montblanc, o nono comprador de automóveis Ferrari, e as lojas Armani de São Paulo vendem mais que as de Nova York.
 
Pinochet, o verdugo de Allende, prestava homenagem à sua vítima toda vez que falava do "milagre chileno". Ele nunca confessou, e nem tampouco o fizeram os governantes democráticos que vieram depois, quando o "milagre" se converteu em "modelo": o que seria do Chile se a viga mestra da economia, o cobre, não fosse chileno? Pois foi Allende que o nacionalizou, e nunca mais foi privatizado.
 
Foi na América e não na Índia que nasceram nossos índios. O peru e o milho também nasceram na América, e não na Turquia. A língua inglesa chama o peru de turkey e a língua italiana chama o milho de granturco.
 
O Banco Mundial elogia a privatização da saúde pública no Zâmbia: "É um modelo para a África. Já não existem filas nos hospitais". O Jornal The Zambian Post completa a idéia: "Não existem mais filas nos hospitais porque as pessoas morrem em casa".
 
Há quatro anos o jornalista Richard Swift chegou aos campos do oeste de Gana onde se produz cacau barato para a Suíça. Na mochila o jornalista tinha umas barras de chocolate. Os cultivadores de cacau nunca tinham provado chocolate. Ficaram encantados.
 
Os países ricos que subsidiam sua agricultura em um ritmo de um bilhão de dólares por dia, proíbem os subsídios à agricultura dos países pobres. Colheita recorde às margen do rio Mississipi: o algodão estadunidense inunda o mercado mundial e derruba o preço. Colheita recorde nas margens do rio Niger: o algodão africano vale tão pouco que nem vale a pena recolhê-lo.
 
As vacas do norte ganham o dobro que os camponeses do sul. Os subsídios que recebe cada vaca na Europa enos Estados Unidos duplicam a quantia de dinheiro que, na média ganha, por um ano inteiro de trabalho, cada granjeiro dos países pobres.
 
Os produtores do sul apresentam-se desunidos ao mercado mundial. Os compradores do norte impõem preços de monopólio. Desde 1989, com a morte da Organização Internacional do café e o fim do sistema de cotas de produção, o preço do café está lá embaixo. ultimamente, pior ainda: na América Central quem semeia café colhe fome. Porém, não baixou nem um pouquinho, pelo que eu saiba, o preço que se paga ao bebê-lo.
 
Carlos Magno, criador da primeira grande biblioteca da Europa, era analfabeto.
 
Joshua Slocum, o primeiro homem que, sozinho, fez a primeira volta ao mundo navegando, não sabia nadar.
 
No mundo há tantos famintos como gordos. Os famintos comem lixo nos depósitos de lixo; os gordos comem lixo no MacDonald’s.
 
O progresso incha. Rarotonga é a mais próspera das Ilhas Cook, no Pacífico Sul, com assombrosos índices de crescimento econômico. Porém, mais assombroso é o crescimento da obesidade entre seus jovens. Há 40 anos, 11 entre 100 habitantes da ilha eram gordos. Agora, todos são gordos.
 
Desde que a China se abriu a esta coisa que se chama "economia de mercado", o cardápio tradicional de arroz com verduras foi rapidamente substituído pelo hambúrguer. O governo chinês não teve outra solução a não ser declarar guerra à obesidade, convertida em epidemia nacional. A campanha de propaganda difunde o exemplo do jovem Liang Shun, que emagreceu 115 quilos no ano passado.
 
A mais famosa frase atribuída a Dom Quixote – "Ladram, Sancho, sinal que cavalgamos" – não aparece na novela de cervantes; e Humphrey Bogart não dia a frase mais famos atribuídaà película Casablanca – "Toque outra vez, Sam".
 
Contrariamente ao que se crê, Ali Babá não era o chefe dos quarenta ladrões, mas seu inimigo; e Frankestein não era o monstro, mas seu involuntário inventor.
 
À primeira vista parece incompreensível e à segunda vista também: onde mais avança o progresso, a gente trabalha mais horas. A enfermidade por excesso de trabalho conduz à morte. Em japonês isso se chama karoshi. Agora os japoneses estão incorporando outra palavra ao dicionário da civilização tecnológica: karojatsu é o nome dos suicídios por hiperatividade, cada vez mais freqüentes.
 
Em maio de 1998, a França reduziu a semana de trabalho de 39 para 35 horas. Essa lei não somente se tornou eficaz contra o desemprego como, além disso, deu um exemplo de rara sensatez neste mundo que perdeu um parafuso, ou vários, ou todos: para que servem as máquinas, se não reduzem o tempo humano de trabalho? Porém, os socialistas perderam as eleições e a França retornou à atual normalidade de nosso tempo. A lei que tinha sido ditada já está se evaporando pelo senso comum.
 
A tecnologia produz melancias quadradas, frangos sem penas e mão-de-obra sem carne nem osso. Em vários hospitais dos Estados Unidos os robôs cumprem tarefas de enfermagem. Segundo o jornal The Washington Post, os robôs trabalham 24 horas por dia, mas não podem tomar decisões, porque não têm senso comum: um involuntário retrato do perário exemplar no mundo que virá.
 
Segundos evangélicos, Cristo nasceu quando Herodes era rei. Como Herodes morreu quatro anos antes da era cristã, Cristo nasceu pelo menos quatro anos antes de Cristo.
 
O Natal, em muitos países, se celebra com estampidos de guerra. Noite de paz, noite de amor: o foguetório enlouquece os cachorros e deixa surdos as mulheres e os homens de boa vontade.
 
A cruz suástica, que os nazistas identificaram com a guerra e amorte, tinha sido um símbolo da vida na Mesopotâmia, na Índia e na América.
 
Quando George W. Bush propôs destruir os bosques para acabar com os incêndios florestais, não foi compreendido. O presidente parecia um pouco mais incoerente que de costume. Mas só estava sendo conseqüente com suas idéias. São seus santos remédios; para acabar com a dor de cabeça, é preciso decapitar o paciente; para salvar o povo do Iraque, vamos bombardeá-lo até que se torne um purê.
 
O mundo é um grande paradoxo que gira no universo. Neste passo, daqui a pouco os proprietários do planeta proibirão a fome e a sede para que não faltem nem o pão nem a água.
 
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