Carta a Geraldo Vandré

Bom , o que eu vou postar agora eu retirei do Jornal Correio Serrano de 14 de Dezembro de 1968, página 6.
Achei muito interessante para a disciplina de História do Brasil V, da profe Ana Colling.
Trata a respeito da resposta de um oficial do Exército Brasileiro à canção composta por Geraldo Vandré, "Pra dizer que não falei das flores".
Leiam e dêem a sua opinião.
 

Carta a Geraldo Vandré

            Do Cadete Basto. Forte Coimbra, 1° de Outubro de 1968.

 

            Caro Geraldo Vandré

            Achei muito interessante a sua música, deste último festival. Mesmo aqui, tão longe, soube da enorme publicidade em torno da melodia.

            Discordei, porém, da letra em alguns pontos e resolvi, por bem, escrever-lhe esta carta, para quando respondidas minhas dúvidas, melhor aprecia-las e compreende-las.

            Em primeiro lugar, o que você entende de Pátria, para dizer que nos quartéis se vive sem razão? Que mais você já fez nessa vida sem ser em troca de lucro, alguma coisa que o beneficiaria? O que é viver sem razão?

            Andar sertão adentro, sabendo que seu esforço é anônimo? E fazer isso por saber que é necessário, embora não se ganhe nada a mais?

            Será uma vida sem razão a dos homens que neste momento, como eu, em terras longínquas, ensinam sobre a cor da bandeira brasileira?

            Não será inútil a esse colosso se nesse momento, enquanto você canta a desordem, a anarquia e o derramamento de sangue de irmãos, alguém ensina a esses mesmos irmãos que – este lado do rio é nosso, não deixaremos ninguém atravessa-lo – perdido na imensidão da Selva Amazônica?

            E que há anos abrem estradas, seguindo em barracas e prosseguindo a obra, sacrificando suas vidas em meio ao terreno hostil, às doenças? Esses que ensinam os homens a ler, onde nenhum professor quer lecionar, vivem sem razão?

            Todos que passam uma, duas, três noites em claro, muitas vezes com o risco de vida, visando ao bem-estar comum, sem nada receberem a não ser o justo soldo, sem nenhum acréscimo a não ser o sentimento do dever cumprido, viverão também sem razão?

             Fazer do adolescente um homem útil à Pátria: transforma-lo de um contraído, muitas vezes subnutrido em um homem convicto de suas possibilidades. Faze-lo cidadão, em verdadeiro patriota, um guerreiro se for o caso – armas da paz e da ordem sob o sol escaldante, sob chuva torrencial, no frio das noites, das madrugadas, enfim, de todos os lugares onde a presença do Exército Brasileiro se fizer necessária. Fazer isso é viver sem razão?

            Aqui estou em Forte Coimbra, acho que você nunca ouviu falar deste lugar: mas certamente conhece Guarujá, Castelinho, Arpoador e vários bares onde você se inspira para dizer que o povo passa fome.

            Quero só pedir-lhe um favor: cante o que quiser, mas não coloque nada de Pátria no meio. Você não sabe o que é isso.

            A sua Pátria deve ser um copo de cerveja servida enquanto “bola” uma nova música, tentando desmoralizar os que, em silêncio, criam a tranqüilidade, a liberdade, mantém a democracia onde você fala o que quer.

            Num outro regime, você estaria, talvez, numa pedreira “dando duro” porque lá ninguém fica à toa cantando e vivendo na madrugada, na boêmia, sem nada produzir a não ser para si próprio.

            Você passará. O povo esquece depressa. Sua música causa sensação, mas está esquecida. Duvido, porém, que meus soldados me esqueçam. Duvido que esqueçam, as horas duras que passamos eu e eles, produzindo juntos para o Brasil.

            Você é a cigarra e eu sou a formiga. Creio que isso dispensa comentários.

            Voltando ao começo, seria melhor que você se explicasse, pois assim entenderei melhor sua composição musical.

            Por enquanto, parece-me que existe alguém entre nós dois que vive sem razão, e este alguém é você.

            Agora, despeço-me, pois tenho muito o que fazer.

            Continuaremos a formar homens para o Brasil. Homens que como eu, se for preciso, verterão seu sangue, pelos ideais que muitos, pelos séculos, desse mesmo Exército, verteram, sob os lemas de: Liberdade, Integridade e Paz.

            E, em nossos quartéis, continuaremos ensinando, se preciso, morrer pela Pátria, porque assim não viveremos sem razão.

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3 Comentários

Arquivado em Estudos

3 Respostas para “Carta a Geraldo Vandré

  1. Paulo

    Há quinze anos eu pude ler esta carta, então passei a ver com outros olhos a canção.
    Não tem comentário, a carta diz tudo.

  2. Paulino

    Quando assistir um programa na Globo News sobre Geraldo Vandré, percebi que ele tinha uma opinião diferente da sua geração que lutaram pela “democracia brasileira”, inclusive da própria imagem que tinham disseminado sobre ele. A carta é perfeita, discordo apenas do derramamento de sangue, mas faz parte das forças armadas (pq se ñ seria desarmada).
    Um dia farão a comparação entre o Brasil da “ditadura” e a do “democrático”. Vejo erro dos 2 lados, mas o atual é pior para o povo brasileiro e melhor para os artistas q estão com os bolsos cheios de dinheiro produzindo merda para o país

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