Fotografias

A ideia desse texto foi sugestão da Cláudia.

Dias atrás, durante uma ida nossa a São Borja, ficamos olhando os álbuns de fotografias de meus pais, que são casados há mais de 40 anos. E nesse grande acervo também continham fotos minhas, de minha irmã e de outras pessoas, especialmente familiares e amigos dos meus pais.

Essa coisa de registrar os acontecimentos que se passaram com meus pais, principalmente o período entre o casamento deles e o nascimento de minha irmã e eu, são muito engraçados, em especial a magreza deles nesse tempo (meu pai lembrava o Seu Madruga, de tão magro). As fotos minhas e de minha irmã quando mais novos também são algo de se ver e achar uma graça (como dizem por aí, “pena que depois crescem”).

Não, este não é um trabalho de memória fotográfica, não é esse o propósito inicial (outra hora, quem sabe, eu o faça). O propósito mesmo desse texto é fazer uma breve análise de como a fotografia e a maneira de fotografar mudou muito de uns tempos pra cá, eu diria que num espaço de 10 anos.

E aí uma coisa se diferencia nesse tempo: o advento da câmera digital, a qual não necessita o uso de filme fotográfico para posteriormente fazer a revelação em um laboratório fotográfico (quem ainda revela fotos?), bastando somente “descarregar” as fotos de seu cartão de memória para um computador e imprimi-las logo após.

Aí começa um problema que considero preocupante: a qualidade cada vez pior do papel fotográfico usado na “revelação” (nesse caso, as aspas são uma ironia). Já ouvi relatos de pessoas que, após realizarem esse processo, as fotos, depois de pouco tempo guardadas, começaram a perder a cor, a se deteriorarem. Muito diferente das fotos coloridas antigas que, por exemplo, meus pais têm em casa há mais de 40 anos e que não perderam a cor. E isso também se estende às fotografias em preto e branco que eles possuem, que não desbotaram nesses anos todos.

Acredito que esse processo de piora na qualidade do papel se dê também pelo fato de que o preço da revelação das fotos também tenha reduzido drasticamente nesses 10 anos. Lembro que revelar uma foto de filme custava até mais de 1 real, dependendo da quantidade de fotos contidas no mesmo. E que as mesmas eram feitas para durar uma vida. Coloco na conta da piora da qualidade do papel o fenômeno atual da sociedade conhecido como “obsolescência programada”, onde as coisas não são feitas para durar muito tempo, e isso inclui, infelizmente, aquelas que deveriam ser eternas.

Claro que a foto digital tem suas vantagens, especialmente no que diz respeito à sua armazenagem. Um DVD-R vendido em qualquer loja (muitas vezes custando menos de 1 real) tem capacidade de mais de 4 gigabytes de memória, dá para guardar inúmeras fotos nele e guardar em um envelope, espaço mínimo em uma gaveta. E quando dá vontade, coloca-o no computador ou em um leitor de DVD e olha em uma televisão. Mas a magia que existe em um álbum palpável, onde tu folheias as páginas e espera ansioso para ver como ficou a próxima foto, desapareceu.

Outra coisa bem lembrada aqui é a artificialidade das fotografias de hoje. Depois da invenção do aplicativo Photoshop ou editor de imagens, não existe mais a naturalidade ou espontaneidade nas fotos. O que se vê hoje em dia é um “mundo cor de rosa”, onde tudo é lindo, perfeito, sem rugas, sem linhas de expressão, onde as pessoas não envelhecem, tem closes perfeitos, ninguém sai de olho fechado ou de boca aberta, o que era interessante (e, com certeza, motivo de muitas risadas) de ver nas fotografias reveladas.

Enfim, perdeu um pouco daquela magia que existia.

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O massacre catalão e a decadência cada vez mais visível do futebol brasileiro

Cá estamos nós novamente, após um longo período de hibernação criativa…

Sim, encerrei o ano letivo essa semana, tenho ainda uma semana de trabalho e depois o retorno em fevereiro, mas sobre isso falo outra hora

Hoje pela manhã assisti a um verdadeiro massacre em 90 minutos de jogo, e todos vocês devem ter visto o mesmo: o Santos, clube brasileiro campeão da última Libertadores, levou um sonoro 4×0 do Barcelona, clube espanhol campeão da última Liga dos Campeões da Europa.

O primeiro tempo encerrado em 3×0, fora o baile, parecia uma dessas brincadeiras roda de bobinho, onde você tem que ficar com a bola e não deixar que o bobo retome ela. Já no segundo tempo, o Santos até tentou alguma coisa, quase chegando a marcar gol, mas acabou levando mais um e perdendo o jogo definitivamente.

Ver Neymar, jogador santista tão badalado aqui no Brasil, garoto propaganda de N marcas, admitir que hoje haviam aprendido a jogar bola, é o retrato mais fiel de quão bobos fomos levados pela “grande” mídia a crer que poderíamos ser páreo ao Barcelona…

O que colocarei aqui são alguns comentários postados no artigo do excelente (e um de meus ídolos do jornalismo) Flávio Gomes, intitulado “A lição do Japão”. Eu não colarei o artigo todo, mas vai o link aqui do lado: A Lição do Japão, por Flavio Gomes

Mas colarei aqui os comentários e os nomes(ou pseudônimos) de quem os citou, que são excelentes complementos ao seu artigo (perdoem-me se der algum erro no copiar-colar aqui, mas vocês entenderão o processo):

Emílio Baraçal disse:

R.I.P. FUTEBOL BRASILEIRO

Li e ouvi, logo após o embate (?) entre Santos e Barcelona neste último domingo que o Santos foi humilhado. Eu acho que ocorreu uma situação pior. O futebol brasileiro foi humilhado. Veja bem, o Santos é o atual melhor time do Brasil, tem os dois grandes craques do futebol brasileiro e é a atual pérola da América. Se o que temos de melhor toma uma goleada histórica dessas, fico muito triste pelo nível dos outros times brasileiros. Me chame de exagerado, me chame do que quiser, mas o dia 18/12/2011 ficou marcado na história como a morte do outrora glorioso futebol canarinho.

Essa sensação é algo que venho tendo desde a performance brasileira no mundial de 2006. Porém, eu ficava pensando que talvez fosse apenas uma leve impressão minha. E o Barcelona mostrou que não era. Olhando no Futstats e outros sites de números de partida, vemos algo monstruoso. O Barcelona teve 75% de posse de bola (o que significa um tempo e meio de jogo com a redonda nos pés) e mais da metade do time simplesmente não errou um único passe. Todos, sem excessão alguma, marcavam quando estavam nos raros momentos sem a bola. O Barcelona mostrou que, para ser um time vencedor basta, apenas, jogar futebol.

Falei besteira? Não, não falei e é nas entrelinhas que devemos prestar atenção. Enquanto jogadores brasileiros se preocupam em qual mulher-fruta irão pegar, em qual carro irão chegar a uma festa, em aumento de salários e planos de carreira, o jogador do Barcelona, qualquer um deles, faz o que tem que fazer: jogar. Isso é resultado da política ridícula que temos neste país. O Brasil, com sua mania de tomar mais do que dá, de não dar condições dignas de vida ao brasileiro, faz com que quase todo menino sonhe em jogar futebol para ser alguém na vida. Parece que é a única maneira honesta de vencer na vida dentro do país dos impostos. Isso cria um individualismo (como se o brasileiro já não fosse o suficiente) exacerbado em jovens que deveriam ter como noção primordial o fato de estarem em um esporte coletivo. E coletividade é um dos segredos do Barcelona. A partir do momento que até sua estrela vai ajudar o companheiro na marcação, podemos ter o talento que for em um time brasileiro, não será o suficiente.

O resultado de ontem mostra que falta tudo em nosso futebol atual. Não temos categoria de base. Os fundamentos não são treinados com a meninada. Pior: treinador de base que tenta é esculachado pelos empresários dos garotos, afinal, querem grana na mão o mais rápido possível. Não há tempo para fundamentos, o resultado precisa vir logo. Pura consequência da combinação dos clubes terem virado empresa e do futebol ter virado comércio. Tudo tem que ser pra ontem. E por que essa constatação? Simplesmente nove dos titulares do time catalão jogam juntos há quase vinte anos, desde moleques. Não é à toa que possuem um entrosamento praticamente extraterrestre. Há trinta anos que o Barcelona mudou a mentalidade de comprar jogadores para a mentalidade de investir (corretamente, não como aqui) nas categorias de base.

Faltam também dirigentes e não os fanfarrões que temos aqui, que se preocupam com o jogo da soberba na mídia, vendo quem troca as melhores acusações. Isso tem nome, queridos: infantilidade. Falam tanto de amor ao clube que ao invés de ficarem calados, trabalhando para que seu respectivo clube seja um rolo compressor, ficam se olhando no espelho e ajeitando o cabelo enquanto uma câmera é apontada para seus rostos.

Falta noção para a imprensa esportiva brasileira, que endeusa qualquer um que consegue um chapéu e um gol no ângulo. Isso também é fator para o deslumbramento das jovens “promessas”.

O Durval falhou no primeiro gol? Falhou. O esquema tático usado pelo Muricy foi (provavelmente) equivocado? Sim, mas (quase) ninguém tem culpa da performance do Peixe. Aconteceram outros problemas dentro e fora do campo? Com certeza. Essa apresentação é culpa do que o futebol brasileiro se tornou. Na época de ouro, não nos preocupávamos com dinheiro, puxa-saquismo, representar produtos na televisão, entre outras coisas. Nos preocupávamos em jogar bola. E foi assim que o Brasil se consolidou como o titã que era. Acusamos os argentinos de serem arrogantes, mas nós, usando das glórias de décadas atrás, nos julgávamos inalcançáveis. Só que o tempo foi passando e os estrangeiros foram aprendendo, aprendendo e aprendendo. E nós fomos relaxando. Aos poucos, a coisa toda mudou. Os sinais estavam aí. Não é de hoje que falam que atualmente não há mais cachorro morto no futebol. Os mexicanos aprenderam, os japoneses aprenderam, os africanos aprenderam e os europeus se superaram. Quem estacionou ao ficar se vangloriando de jogadas que não eram suas? O jogador atual do futebol brasileiro, que calcado nos feitos de Pelé, Tostão, Garrincha e outros, sobem no pedestal. Nós passamos décadas ensinando o futebol ao mundo. Vimos o mundo aprender e a demos tapinhas nas costas deles falando “Que gracinha!” enquanto ao invés de treinarmos, enchemos a cara em botecos e churrascadas regadas a muita cerveja, pagode e mulheres seminuas.

Particularmente, o time do Santos fez o que pode. Não teve culpa de encontrar pela frente um time com trabalho sério, ao contrário da postura dentro e fora de campo de qualquer time brasileiro. O que o Santos sofreu foi consequência dessa acomodação nefasta que tomou conta dos jogadores e das falcatruas dos cartolas de norte a sul do Brasil. Jogar contra um time que dá espaço é fácil ser craque. Difícil é jogar contra um time onde todos os jogadores ajudam uns aos outros como deveria ser em um esporte coletivo. Fácil ser valente e raçudo contra um Santo André. Ter a mesma postura sempre é que é difícil, como o Barcelona faz, que trata todo adversário igualmente é que é difícil. Fácil sobrar num campeonato (e ser apontado como revelação) cujo nível agora ficou evidentemente medíocre e começar a pedir aumento de salário e revisão de carreira, né? Difícil é grasnar diante de Messi, Xavi e companhia.

É, acho que tinha que ter levado o Pelé mesmo, o presidente estava certo. Descanse em paz, futebol brasileiro. Obrigado por tudo, foi bom enquanto durou, o último que apague a luz, por favor.

elipe disse:

Sobre o jogo e o contexto todo, algumas coisas que me chamaram a atenção:

1) Não precisa comprar meio mundo nem montar uma seleção internacional pra fazer time. O Barcelona entrou em campo com 9 jogadores formados na sua base, 8 deles espanhóis (exceção de Messi, que é argentino, mas mora lá desde guri. E o Thiago, ok, não nasceu na Espanha, mas futebolisticamente falando é espanhol – joga pela Espanha)

2) Claro que não basta pegar 9 guris da base e botar pra jogar. Tem um trabalho de formação, de filosofia, como dizem, e respaldo pra esses caras jogarem no time principal. Dá nisso que temos visto nos últimos anos.

3) Craque também marca e corre. Messi tá aí pra não me deixar mentir. Mão na cintura não existe, Ganso.

4) O Barcelona não faz concentração e ganha todos os títulos. Precisa de exemplo maior pra mostrar o quão inútil é a concentração quando se tem profissionais conscientes de seus deveres?

5) Vou discordar do Flávio em um ponto. O Barcelona faz faltas. Fez o mesmo número de faltas que o Santos, mesmo tendo o triplo de posse de bola. E faz faltas no meio-campo, pra matar contra-ataque e dar tempo de sua defesa se organizar. Faz parte da estratégia. O Santos só assistia o Barcelona jogar e pedia desculpas quando cometia falta. Os jogadores do Santos pareciam mais tietes dos barcelonistas que adversários.

6) O Santos nem foi pro jogo nem defendeu-se. Não sabia o que queria. Isso é fatal. O Inter de 2006 era pior que o Barcelona, mas sabia o que tinha que fazer: defender-se e sair no contra-ataque. Ganhou o jogo assim. Não é feio fazer isso, faz parte do jogo. Feio é tomar de 4×0, fora o baile.

7) Pela enésima vez, um time brasileiro ganha a Libertadores, passa o segundo semestre inteiro se arrastando, se “poupando”, chega no Mundial e perde (Grêmio/95, Cruzeiro/97, Vasco/98, Palmeiras/99, Inter/10, mesma coisa). Alguns até jogaram bem, como Grêmio, Vasco e Palmeiras, e perderam no detalhe ou porque jogaram contra timaços. Mas perderam. Em 92/93, o São Paulo disputou o Mundial em meio a jogos decisivos do Paulista e Brasileirão. Então, pergunto: pra que diabos ficar se poupando se isso não ajuda em nada?

Por enquanto, é isso. Num texto tão grande, não há como se concordar com todas as linhas, mas bela análise, Flávio.

Piloto de carrinho de supermercado disse:

Realmente, um massacre. O time do Barcelona parecia uma manada de elefantes maníacos, esmagando as formiginhas santistas, sem dó nem piedade. Fizeram de tudo para criar uma rivalidade Neymar x Messi, disseram que, apesar de o Barcelona ser melhor, o Santos tinha boas chances de vencê-lo, por causa do talento do Neymar e do Ganso, da inteligência e capacidade de improviso do Muricy… Puro marketing? Não sei se é exatamente assim. O marketing “levanta” a bola, mas tem que ter alguém para “cortá-la”… Hoje não teve. Seguindo mais ou menos a linha do que disse o Flavio Gomes no Twitter, o Neymar hoje deve ter acordado daquele conto de fadas criado nos últimos meses, de ser o melhor do mundo jogando no Brasil, de estar em uma equipe que faça frente a qualquer time do mundo, praticamente um novo Santos de Pelé…
Klaus disse:
Falou tudo. Infelizmente o ultimo PROFESSOR digno do nome foi o finado Telê Santana. Depois dele só essas estrovengas tipo o Muricy. Esse caboclo enfiou no traseiro duas libertadores pelo São Paulo e agora um mundial pelo Santos pelo mesmo motivo: ao invés de botar o time pra jogar pra valer, botou em campo uma galera pra perder de pouco. Aí é titulo pro ralo mesmo.
 disse:
“Neymar, coitado, ótimo jogador, virou marketing puro”
É o nível do mkt do futebol. Uma pesquisa básica na Paulista perguntando o que é BMG mostra que nem lá sabem o que é.
rgomes disse:

E ainda temos que aturar a midia nacional enganando os trouxas e falando que o campeonato brasileiro é o maior campeonato do mundo. Os jogos são sofriveis de assistir, com gols ridiculos em que mais de 90% são mais por falhas do que por virtudes. No ultimo brasileiro o campeão teve quase igualado o numero de pontos perdidos com o numero de pontos ganhos. A toda rodada o 1o. perdia do ultimo colocado.

Aí está o resultado. Passa vergonha. Há poucos dias foi mostrado na televisão como o Barcelona trata as suas divisões de base. Coisa séria e competente. Nada a ver com o que temos aqui.
Aqui fica um monte de moleque aprendendo a ser esperto, malandro e a midia enchendo a bola desses caras.

Alexandre Werner disse:

Ta certo Flavio. Mas eu acredito na premissa “Não há marketing que sustente um blefe”. O que os times brasileiros fazem está muito longe de ser marketing… É no máximo publicidade via exposição exaustiva na mídia.

O Marketing como ciência administrativa se preocupa com tudo, desde as categorias de base do time até o torcedor gordão sentado no sofá que quer ver futebol de verdade.
Qualquer filosofia diferente disso não é marketing, é fraude.

Francisco Libânio disse:

Vivemos um embate em nossa imprensa esportiva. De um lado os globolizados que vêem qualquer perna de pau brasileiro como melhor que os melhores do mundo e de outro os que colocam o futebol europeu nas alturas. De tudo, tiro três conclusões.

1) Muricy disse que bom mesmo é quem ganha o campeonato brasileiro que é equilibrado, tem vários candidatos ao título, blablablá. Lorota. O campeonato brasileiro é equilibrado, sim, mas nivelado por baixo uma vez que na primeira janela, times vendem seus “produtos” por qualquer três reais e ficamos com o restolho aqui. O Santos evoluiu nesse ponto mantendo Neymar e Ganso (esse mais por desinteresse dos outros que esforço próprio). De resto, os times brasileiros ficam com maus jogadores e, diante da mediocridade de quatro ou cinco , um tem que ganhar.

2) O futebol europeu é desnivelado. Espanha, Portugal tem dois times hiperfortes contra equipes de nível quase amador. Inglaterra, Alemanha e Itália tem três ou quatro, mas o desnível ainda é o mesmo. Seja como for, as poucas potências desses países seriam campeãs no Brasil, na Argentina, no Chile com a mesma facilidade que são em seus países. O contrário não aconteceria. O Corinthians campeão desse ano não seria campeão inglês nunca.

3) Europa não é sinonimo de organização. Lá como cá, técnico também roda com o humor do presidente, presidente também manda despoticamente. Fergussons na Europa são poucos.

Conclusão final – O Barcelona não é o que é porque é europeu ou porque joga contra galinhas mortas, mas porque é resultado de trabalho sério que começou há anos e só tende a evoluir. Seguindo essa receita, o Barça será campeão espanhol, europeu, mundial, intergaláctico e seria campeão brasileiro, da Libertadores, de Botsuana, de onde fosse. Que a lição que o Santos tomou hoje não fique apenas nas quatro linhas. Fora dela, muita coisa precisa ser aprendida.

Marcus Pequim disse:

Flávio, concordo com sua ideia geral. O Neymar falou que tivemos uma aula de futebol. bem, esta aula está toda semana nas telas da ESPN. espero que ele aprenda que não precisa chamar atenção pelo cabelo ridículo, por aparecer nas festas VIPS e, creio, que ele aprendeu que para ser jogador considerado de verdade, tem que jogar no exterior. (segundo o Cosme Rimoli e jornal inglês) ele já é do Barça. Agora, o Barça é muito superior mesmo à Europa. porém, há que se pensar que estes jogadores (maioria) jogam juntos desde as bases do Barça, daí o maravilhoso toque de bola, jogadas, etc. O Santos foi covarde, pequeno, principalmente no primeiro tempo, mas acho que nenhum time da América faria muito diferente.

Na verdade, acho que o time do Santos acreditava que o Barça só existia no video game…

—–

E se vocês não concordam com isso, vão comemorar gol imitando João Sorrisão, vão…

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Ah, as pessoas…

Voltando aqui, como sempre digo, manter uma assiduidade nesse espaço é complicado, esse sábado poderia ter sido inspirado, mas me envolvi nos serviços aqui em casa, e aí não deu…

Mês de novembro iniciando e confesso estar ansioso pra que chegue logo dezembro, estou contando os dias pro encerramento das aulas, esse ano passou rápido (ah, todo mundo, quando chega por novembro, diz isso…) e logo vem Natal e Ano Novo.

Sei que ando de saco cheio de um monte de coisa, hipocrisia, falta de interesse, comodismo, pessoas que têm tudo e só sabem reclamar da vida. Vontade de mandar tomar naquele lugar não me falta, mas… é preciso cautela nas palavras, na maior parte do tempo, pra não ser mal-interpretado, pois já viu, quando tu não se torna incompreendido, sai da frente…

Eu não deveria me preocupar com o que as pessoas fazem, mas há vezes que me “contorço por dentro”. Mas vamos seguindo por aqui, minha intenção pra esse sábado à noite é compartilhar um texto com vocês, bem curto, mas bem direto, pra faze-los pensar um pouco no que fazem e pensam. Aliás, pensar não é algo que as pessoas andam fazendo muito ultimamente, tudo se deixam levar pela onda, muito maria-vai-com-as-outras…

Chega de papo, o texto é de Isaías Almada, intitulado “O inferno são os outros”

O inferno são os outros, por Isaías Almada

Segunda-feira: A Dra.Henriqueta acaba de atender a mais um de seus pacientes. Ela é pediatra e goza de prestígio na profissão. O paciente, um bebê de um ano de idade, deixa a sala no colo da mãe, que com expressão feliz prepara-se para pagar a consulta. “Quanto é?” pergunta a mãe. “A senhora vai precisar de nota?” dispara a secretária com seu ar profissional. “Vou” respondeu a mãe. “Com nota é setecentos reais e sem nota é quatrocentos e cinqüenta” “Nossa! E por quê essa diferença toda?” “É por causa do imposto de renda”… “Ah!”, exclamou a mãe.

Terça-feira: Reimilson é jornalista formado há pouco mais de três anos e conseguiu, até mais cedo do que pensava, trabalhar na redação de uma revista semanal, a Veja. Abriu uma ME em Cotia para pagar menos ISS nas notas fiscais que dava ao empregador pelo que recebia “oficialmente” como salário registrado em carteira. Recebia a diferença por fora.

Quarta-feira: dona Martha era separada do marido e tinha uma filha que se preparava para o vestibular. A pensão do marido não era suficiente para as despesas mensais. A filha ajudava com seu salário de secretária numa empresa de publicidade. Dona Martha, subsíndica do prédio em que morava, acertou com o porteiro fazer um “gato” para usar a internet do prédio sem que precisasse pagar a conta, uma economia de meio salário mínimo.

Quinta-feira: O senhor Robson Altamirano tornou-se comerciante no bairro do Brooklin, onde administra uma papelaria considerada a melhor da redondeza. Conseguiu montar dois esquemas em que tem dois tipos de notas fiscais para clientes que solicitam ou não a Nota Fiscal Paulista. Um deles, com a ajuda de um técnico, é acoplado à máquina registradora. O outro é na emissão de notas frias de um talonário que manda imprimir numa gráfica em Cotia.

Sexta-feira: Pedro é estudante universitário. Invariavelmente, a sexta à noite saía com amigos para uma cervejinha. Na última, já passada a meia-noite, foi surpreendido numa batida policial. Ligeiramente alcoolizado, lembrou-se do truque que aprendera com um dos colegas da faculdade: carregava sempre duas notas de cem reais junto aos documentos do carro. Não deu outra: o policial olhou para Pedro, olhou para o lado e, rápida e discretamente devolveu os documentos ao jovem. “O senhor pode ir embora”.

Domingo: Avenida Paulista, em frente ao Museu de Arte de São Paulo. Um grupo de pouco mais de quinhentas pessoas faz uma manifestação contra a corrupção no país. Cinco deles seguram uma faixa onde se lê: ABAIXO A CORRUPÇÃO NO GOVERNO. São eles exatamente a Dra. Henriqueta, o jornalista Reimilson, dona Martha, o comerciante Robson e o universitário Pedro.

E se combatêssemos também a hipocrisia, a ignorância e a má fé de milhares de cidadãos que repetem como papagaios muitas das mentiras espalhadas pela mídia venal e comprometida com o atraso?

Bom final de semana a todos

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Obsolescência Programada

TV de Plasma > TV de LCD > TV de LED > TV 3D

Tá, por que eu coloquei essa sequencia na introdução do texto que posto hoje, depois de tanto tempo?

Para lembra-los que, da TV de Plasma até a TV 3D, atual objeto de desejo de muita gente, especialmente da classe média, não se passaram mais do que 10 anos. Aí fico me questionando: o que virá depois da 3D? E quem gastou uma nota preta pra comprar a “moderna TV de Plasma” há 10 anos atrás (lembro que valia uns 6 mil a mais barata)?

Outro exemplo que posso citar aqui são os telefones celulares. Há no máximo 4 anos atrás, o ápice dos celulares era o Nokia N95. Hoje o “top top” é o iPhone, seja lá qual for sua versão (3G, 3GS, 4, 5 ou o escambal). Tá bom, eu tenho um N95, mas comprei usado, afinal, quando lançaram ele, era só um objeto de desejo, um preço astronômico na época de seu lançamento. Ele não deve nada pra muito celular mais moderno que existe hoje, mas já não é topo de linha…

Analisando os dois exemplos acima, pode-se chegar a uma conclusão interessante: vivemos a pleno vapor a era da Obsolescência Programada. Como assim? Simples, meus caros: tudo tem um tempo de vida útil, um tempo pré-estabelecido de existir, de ser o mais moderno, para depois vir outra versão um pouco melhorada e a primeira versão se tornar “ultrapassada, obsoleta, que tem que jogar fora”.

Mas aí surge a questão ambiental da coisa toda: onde vai parar todo esse equipamento que foi descartado por não ser mais “o mais moderno”? Claro que aí tem de se acrescentar a questão dos computadores também, mas isso vocês veem todo o tempo acontecendo. Enfim, o planeta já está bem saturado de tanto lixo. E tem a questão populacional. Já estamos ali assim para chegarmos aos 7 bilhões de habitantes. Haja planeta!

Saindo um pouco da questão tecnológica, antes que saia algo mais moderno que o notebook o qual estou usando para escrever esse post (mas já existe algo mais moderno: o netbook e o iPad. Ai meu Deus, preciso comprar um iPad urgente #ironiaOn), eu pulo para uma questão da obsolescência programada que também acho interessante: os sucessos musicais.

“Ih, lá vem o Italo criticar os hits do momento!” Ok, no momento são os hits, mas em no máximo 10 anos vocês nem vão lembrar dos hits, ou então pensarem: “Putamerda, eu ouvia essa porcaria e achava o máximo!”.

Dias atrás, num exercício de puxar da lembrança coisas que ouvia há 10 anos me veio dois exemplos que eram sucessos. Alguns lembrarão: P.O. Box, grupo pop brasileiro, que fez relativo sucesso, aparecia em tudo quanto era programa de TV dominical e depois sumiram. Outro exemplo, dessa vez estrangeiro: os Hanson, três irmãos cabeludos, loiros, dos EUA.

O primeiro exemplo tocava seguido nas rádios. Quem aqui lembra de “Papo de Jacaré”? Lembro até que assisti ao show desses caras em 2000, no Recreativo São-borjense, lembro do chão do clube tremendo de tanto a multidão que lotava o salão pular no início do show. E eu lá, bem contente da vida. Putz, como pude? Mas fazer o quê, era o que tinha pra se curtir na época… Que fim deu esse grupo?

Já o segundo exemplo, as “loirinhas cabeludas” dos Hanson. Seu mais famoso hit chamava-se Mmmbop (ou coisa parecida com isso): “Umba, dip dap dap diuba, dirapa diuba, dip dapa diu, yê yé”, dizia o refrão, mais ou menos assim (Estou explodindo de rir enquanto faço essa “tradução” do refrão). Que fim deu? Pelo que sei, parece que um ainda segue cantando, os outros dois irmãos casaram e são pais de família hoje em dia… Não, eu nunca gostei dos Hanson, só estou usando como exemplo mesmo…

Tá, mas o que isso tem a ver com o que está aí hoje? Hoje vejo fazendo sucesso entre algumas adolescentes 3 irmãos também dos EUA, os Jonas Brothers (algumas alunas minhas odiarão isso). Caso bem semelhante aos Hanson: três irmãos, fazem sucesso entre as adolescentes e depois somem, casam, tem filhos e nunca mais tu ouve falar nada. Eu enquadro, sem temor, de no máximo 10 anos acontecerá isso com eles também. E quando forem adultas, as meninas pensarão igualmente assim: “Putamerda, eu ouvia essa porcaria e achava o máximo!”. Sei, exercício de futurologia num sábado é meio esquisito, mas aguardem isso. Ou o que foi feito do KLB, 3 irmãos, filhos do empresário da dupla Zezé e Luciano? Viraram candidatos a cargos políticos pelo DEM… E aí? Como faz?

Dias atrás eu assistia a uma entrevista do cantor Byafra (“voar, voar, subir, subir”) no programa da Marília Gabriela, no GNT. E o cara coloca uma questão interessante que também dá para enquadrar dentro da obsolescência programada: as “ondas do momento” na música brasileira. Dizia ele que, depois da morte do Chacrinha (para os mais jovens. Chacrinha tinha um programa de auditório que trazia e lançava muita coisa boa que existia nos anos 80: Ultraje a Rigor, Garotos da Rua, Byafra, dentre outros cantores e grupos de sucesso nos 80), a homogeneidade da música brasileira, que o Chacrinha conseguia harmonizar no seu programa, foi pro espaço. E aí começaram as “ondas do momento” na música brasileira: axé, depois o sertanejo, depois o pagode, depois o funk pornô, depois o forró “universitário” e a onda do momento é o sertanejo “universitário” (o agrobrega). Ou seja, toca só um ritmo nas rádios o tempo todo, o povo enjoa, some, daí vem outra onda e a sequencia é a mesma: toca, enjoa, some e vem outra… O que virá depois do agrobrega? Tenho medo…

Eu poderia ficar o resto do dia divagando aqui sobre outras coisas que se enquadram na teoria da obsolescência programada, mas a fome apertou, e ainda tenho o resto do fim de semana pela frente. Espero ter contribuído para a reflexão de vocês.

Fraterno abraço.

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Marcas do tempo

Já estou quase na metade dos meus 28 anos.  Domingo fará dois anos que concluí a faculdade. Não sou mais o mesmo cara que saiu de São Borja há nove anos, definitivamente não sou, mas ao mesmo tempo ainda sigo sendo o mesmo. Contraditório? Pode até ser, mas a vida é uma eterna contradição, às vezes procuramos buscar algo melhor e esse algo melhor vez em quando está ali do nosso lado o tempo inteiro. Aquele papo de cruzar o rio atrás de água, saca?

Não tenho mais a mesma empolgação que tinha para fazer muitas coisas, fios brancos começaram a surgir na minha barba este ano, as marcas no rosto agora parecem mais marcantes, muitas amizades vieram e se foram sem deixar vestígio, eu já não me estresso com determinadas coisas que antigamente só faltava “partir pra ignorância”. Ando ouvindo muitas músicas diferentes, mas me considero um cara muito chato, musicalmente falando. Me indigno com certas coisas, com algumas demagogias e imposições que a sociedade nos impõe, mas ao mesmo tempo, se sei que não posso remar contra a corrente, largo o barco na beira e sigo a pé o rio caminhando pela beirada.

Enfim, faço o que dá pra fazer. Nada se perde, tudo se transforma.

A vida não para. A diferença é o que temos em comum

Abraços

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Constatações farrapescas

Sim, é copiado do blog “Arte do fim” (http://artedofim.blogspot.com)

- A Semana Farroupilha transformou-se em um desfile de agroboyzinhos nas camionetinhas do papai, enquanto gaúchos de verdade, os peões que trabalham duro nas estâncias e cultivam as verdadeiras tradições gaúchas (não para fazer bonito ou para aparecer, mas porque isso é o natural deles) não podem comprar um par de botas. Muito menos desfilar com um cavalo. É como retrata Cyro Martins na sua “Trilogia do Gaúcho a Pé.”

- Grande parte dos campos dos grandes estancieiros gaúchos é campo que foi roubado na época em que as fronteiras das terras não eram cercadas. É como diz o inesquecível personagem Juvenal em “O Tempo e O Vento” do Érico Veríssimo, referindo-se ao estancieiro Amaral: “Todo mundo sabe que metade dos campos desse velho é tudo campo roubado!”

- Os agroboyzinhos gostam também de andar por aí enchendo a pança de cerveja e gritando o “Grito do Sapucai”, que é herança de nossos índios guerreiros. Mas os índios ou foram massacrados, ou estão em estado miserável em suas terras devastadas. E os “gaúchos” poucos se importam.

- E os “farroupilhas” bem pilchados apreciam também matar cavalos esgotados desfilando com bandeiras sob o sol do litoral pra mostrarem que são machos.

- E os nossos “pampeiros”, que dizem amar a terra, amar o pampa, são os mesmos que estão acabando com ele plantando soja, pinus e o diabo. Acabando com os rios, desviando água para plantações de arroz, infestando tudo de pesticidas, massacrando nossa fauna, causando erosões, assoreamentos, desertificação, enfim, transformam o pampa num inferno de desolação. Mas na Semana Farroupilha, amam a terra gaúcha.

- Não me pilcho, mas sei que amo minha terra mais do que muitos pilchadinhos engomadinhos por aí. Alguns gaúchos deveriam entender que mais do que a pilcha, o que define o gaúcho são os valores de honra, dignidade e coragem.

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O Planeta das Baratas

Hoje, 11 de setembro de 2001 comemoram-se (segundo as palavras da ‘sábia’ Patrícia Poeta) os 10 anos dos atentados ao WTC e Pentágono, nos EUA.

Definitivamente, está um pé no saco a quantidade de notícias e documentários sobre os antecedentes, os atentados, e tudo o que possa se relacionar ao dito atentado.

Na boa, perto de tudo o que os EUA fizeram de mal para inúmeros povos da humanidade (e ainda o fazem, de diversas maneiras) 3.500 mortos (não tenho certeza exata do número total) é cócega perto dos mais de centenas de milhares de civis mortos por eles no Afeganistão e Iraque.

E para mim, mais marcante que o 11/09/2001 foi o 11/09/1973, quando o golpe de Estado orquestrado pela CIA e liderado pelo general Pinochet no Chile acabou com a morte do presidente eleito Salvador Allende. A versão de que Allende teria se suicidado dentro do Palácio La Moneda (confirmada recentemente por uma ‘autópsia’) não me convence. Lembro do filme “Chove sobre Santiago” onde mostrava Allende sendo alvejado por 4 tiros nas costas. Se eu me basear no filme, como alguém poderia se matar com 4 tiros e ainda mais nas costas…

Sobre o 11/9 dos EUA, deixo pra vocês o texto do Flavio Gomes, escrito na época dos atentados, intitulado “O Planeta das Baratas”, bem crítico a nós mesmos, humanidade e a nossa dificuldade em conviver harmoniosamente com as diferenças de todos os tipos que possuímos…

Aí vai:

O PLANETA DAS BARATAS

Sou um interessado observador de baratas. Elas são nojentas, asquerosas e purulentas, delas chego a ter medo, mas admiro sua agilidade e destemor diante de adversários tão hostis e bem maiores. Dizem que no dia em que o planeta se dizimar de vez numa nuvem radiativa, só vão sobrar as baratas.

Talvez seja melhor. Não há notícias, no mundo das baratas, de semelhantes se trucidarem por nada. Talvez porque elas não tenham nada na cabeça, não sei sequer se têm cabeça. Baratas não se matam. São uma espécie bem-sucedida, como os pernilongos, as lacraias e as mocréias, que vivem em paz sem maiores sobressaltos.

Os animais, quando se matam, o fazem por causas bastante razoáveis. Ou para comer, ou para se defender. Eles não odeiam os outros animais. São indiferentes aos sentimentos das moscas, das pulgas ou dos gnus. Têm seus instintos, suas próprias leis, e vão levando a vida através dos séculos.

O homem, não. É um fracasso como espécie animal. É capaz das maiores façanhas tecnológicas, de ir à lua e clonar gente, mas incapaz de estabelecer regras de convivência que deveriam fazer parte de algum código genético interno, como o das baratas, das lacraias e das mocréias. O homem fabrica armas que têm como único objetivo matar outros homens. E transforma suas criações mais formidáveis, como aviões, em mísseis recheados de gente muito mais eficientes que ogivas nucleares.

A estupidez, e não a criatividade ou a inteligência, é a característica mais marcante da nossa espécie, é pela estupidez que seremos lembrados pelas baratas daqui a alguns milhões de anos. E o 11 de setembro de 2001 será emblemático, o dia em que o homem a exerceu com esplendor.

Eu e as baratas passamos o dia anteontem colados na TV, vendo nossa estupidez transformada em espetáculo de mídia. Nada mais formidável, cardápio para todos os gostos. Para aqueles que defendem o troco imediato, com a mesma violência e insanidade, e para os que acreditam que, finalmente, a arrogância do poder econômico e político recebeu sua lição, sentiu na pele o que é ter medo, o mesmo medo disseminado pela força ao longo dos anos.

Aqueles que admiram a superioridade imposta por nossos vizinhos do norte ao resto da humanidade no último século, que se sentem incomodados pelas nações que não tiveram a competência de construir suas disneylândias e não jogam basquete direito, estão radiantes. É a hora de provar de uma vez por todas quem manda no galinheiro.

Estes devem ter adorado a figura patética do presidente caubói garantindo a vingança com discurso hollywoodiano, “não se enganem, já vencemos outros inimigos antes, vamos vencer de novo”, um Forrest Gump mal-acabado defendendo ideais de liberdade, democracia e justiça nos quais só quem nunca esteve nos EUA pode acreditar.

(Basta meia hora em território americano para perceber a falácia dos tais ideais. Que liberdade existe num país vigiado por câmeras e satélites, onde jogar um chiclete na rua é motivo para ser detido pela SWAT? Que democracia é essa que referenda uma eleição fraudulenta e coloca na presidência um sujeito que teve menos votos que o derrotado? Que justiça é essa que faz com que esse país se ache no direito de interferir nos destinos de todos os outros exportando guerras e miséria?)

Os EUA apanharam. Não sabem de quem, mas talvez saibam por quê. E, se não sabem, era hora de alguém se dirigir ao seu povo e admitir que se meia-dúzia de doidos foram capazes das atrocidades do 11 de setembro, é porque muito mal esse país andou fazendo a outros povos por aí para ser tão odiado. Infelizmente, o caubói não é esse alguém. Sob a sombra e o cheiro fétido de 20 mil cadáveres, o caubói estava mais preocupado, horas depois dos atentados, em garantir aos seus cidadãos que “a economia americana está aberta aos negócios como sempre”.

Eu e as baratas nos espantamos com essa declaração. Aliás, nos espantamos também com palestinos festejando a morte de milhares de inocentes, em Beirute e Jerusalém. Ouvi alguém dizer que o que aconteceu ontem mostra que o mundo precisa de deus no coração. Discordamos, eu e as baratas. Foi o excesso de deus, assim mesmo, em minúscula, que levou as Cruzadas a dizimarem inimigos que acreditavam em outro tipo de deus, na Idade Média. Foi o excesso de deus no coração que conduziu os judeus na expulsão dos palestinos de seu território depois da Segunda Guerra. É o excesso de deus no coração que faz os árabes explodirem lanchonetes, shoppings, pizzarias, aviões e prédios pelo mundo afora.

O que há, e nisso eu e as baratas concordamos, é um excesso de deuses nos corações dos homens. Um deles, citado pelo caubói, é o mercado, a economia, o papel verde que move as engrenagens do planeta, e que uma barata amiga confessou ter roído um dia, de um maço escondido sob o assoalho, sem saber do que se tratava — não apreciou o paladar. Em nome de deus, ou de Deus, ou das várias modalidades de deuses, matamos, explodimos, arrebentamos, crucificamos, bombardeamos, torturamos e acompanhamos tudo pela TV como se fosse um grande espetáculo, e nisso concordamos de novo, eu e as baratas, somos muito bons.

Não há guerra boa ou paz ruim, escreveu Benjamin Franklin, curiosamente num 11 de setembro. As baratas discordam, a próxima guerra será muito boa porque sobreviveremos, me disse uma.

As baratas são bem melhores do que nós.

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